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  Atrás do prejuízo

Crise energética brasileira: Confea abre debate com a sociedade

Apesar do alerta dos técnicos, o governo não investiu na matriz energética considerada ideal para o país: as hidrelétricas. Não construiu novas nem concluiu as existentes. Estimulou a privatização do setor de distribuição, deixando o da produção para depois. Para piorar, as chuvas não caíram na intensidade projetada. Com isso, usamos a água do futuro. “Agora é correr atrás dos prejuízos, usando mão-de-obra e tecnologia nacionais.” Essa foi a opinião externada pela maioria dos 200 participantes do seminário sobre a Crise Energética Brasileira, promovido pelo Confea na primeira semana de junho, poucos dias depois que o país, atônito, era informado de que teria de diminuir o consumo de energia sob pena de multas e cortes.

Correr atrás do prejuízo significa também colocar em prática o uso de fontes alternativas como as termelétricas (gás), eólicas (vento) e até termonucleares. (Parceria marca ações do Confea).

O seminário foi promovido para fornecer à sociedade informações para que possa se manifestar e interagir num processo em que é a grande prejudicada e, ao mesmo tempo, radiografar a realidade, avaliando o impacto sentido pelo setor. “Tempos de buscar respostas tecnicamente possíveis e socialmente aceitáveis”, afirma o engenheiro eletricista Edison Flávio Macedo, também coordenador da CAN (Comissão de Assuntos Nacionais), responsável pelo Programa Fóruns Temáticos, onde o debate sobre a crise foi inserido.

Logo na abertura do evento, a responsabilidade pela crise energética foi assumida pelo líder do governo na Câmara, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM): “Assumo que o governo do qual participo tem parte substancial de culpa. Há muitos anos, os investimentos feitos no setor elétrico foram abaixo da demanda necessária. Esta gestão teve o mérito de propor um modelo, mas não conseguiu implantá-lo, aí está o seu pecado, “confessou, admitindo que o pior a acontecer ao governo FHC é perder as próximas eleições”. (Veja matéria Mea-culpa.)

Em seguida, e durante quase doze horas, engenheiros eletricistas, como o diretor do Ilumina, Roberto Pereira D’Araújo, e o consultor da FGV, Oswaldo Aranha, engenheiros civis, ambientalistas, representantes do Procon-DF, e de órgãos governamentais (veja quadro Programação) radiografaram as causas, identificando soluções a curto, médio e longo prazos.

“A matriz energética do Brasil deve ser essencialmente hidrelétrica”, defende Aranha, que afasta riscos de grandes estiagens. “Não faltou água, o que está acontecendo era previsto. Não foram realizados novos investimentos, e conseqüentemente foi antecipado o consumo do estoque de água disponível. Esse é o ponto”, resume o consultor da FVG, também presidente da ABVEE. (Veja Entrevista.)

Pereira, por sua vez, revelou que uma das soluções apresentadas pelo Ilumina ao governo “foi a sugestão de que Furnas não fosse privatizada e, a partir dela, fossem construídas novas usinas em parceria com o setor privado”.

Todas as sugestões têm em comum a concordância de que o Estado não pode se ausentar do setor elétrico, mantendo o controle de sua coordenação e seu planejamento.

“É necessário cobrar também dos setores industrial e comercial, um plano de racionalização do uso de energia, para que a sociedade não seja ainda mais penalizada, alerta Wilson Lang, para quem “o país vive a atual crise por seguir à risca o Consenso de Washington, documento ditado pelos sete países mais ricos do mundo, em 1989, que exige disciplina fiscal, reforma tributária, controle de gastos públicos e privatização”.(Veja matéria – História antiga.)

Estimulando a busca de soluções para que o setor elétrico drible as dificuldades, Lang acredita que “é preciso inventar mecanismos alternativos e resolver o problema. É absolutamente fora do bom senso imaginar que um país tenha de reduzir suas atividades por conta de um equívoco estratégico do governo.

Entre elas, cita que “uma racionalização do uso bem feita poderá permitir que o país não diminua tanto seus índices de crescimento”.

O presidente do Confea afirma também que a crise serviu para alertar sobre o desperdício e levanta a possibilidade de que um plano racional de uso de energia diminua os impactos na economia. “A sociedade precisa se conscientizar, de que a falta de energia é um problema mundial. O Brasil possui a maior quantidade de energia hidráulica do mundo e tem de usar isso como instrumento de competitividade internacional.”

Multiplicando as informações contidas no seminário, o Confea prepara publicação contendo a íntegra dos painéis apresentados, que será disponibilizada aos interessados, por meio dos Creas, das entidades de classe, universidades, organismos governamentais e organizações não-governamentais.

Arthur Virgílio
Não conheço um governo que tenha equacionado sua questão energética sem antes ter resolvido a inflação...”

 

 

 

 

Usina: nuclear ou hidrelétrica

No calor das discussões sobre a crise energética, subsidiadas por informações contraditórias, chama a atenção a fala calma do engenheiro eletricista Oswaldo Aranha, profundo conhecedor das questões energéticas brasileiras. Defendendo as hidrelétricas como a matriz ideal, o presidente da ABEE (Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas) não vê problemas na instalação de usinas termonucleares

Confea - Muitos criticam o modelo inglês de privatização do setor elétrico adotado pelo Brasil. Qual seria o ideal para nós?
Aranha - O modelo de privatização do setor elétrico implantado no Brasil foi baseado na experiência da Inglaterra, mas é muito difícil a gente dizer se deu ou não certo, porque não foi completamente implantado. Hoje, se você acompanhar o que acontece em outros lugares, em particular na Califórnia, nos Estados Unidos, verifica que o Estado não pode sair totalmente do setor elétrico. A competição é válida em produtos, pois permite, pelo aumento ou pela queda de preços, incentivar ou desencentivar novos produtores. Então, é muito fácil e rápido. No caso do setor elétrico, em particular no Brasil, que depende da hidroeletricidade, você não pode deixar que o mercado dite as regras sem um planejamento e uma atuação paralela do governo para evitar as crises.

Confea - A atuação do governo se impõe?
Aranha - Até nos Estados Unidos, o George Bush está sendo acusado de comunista por alguns americanos – incrivelmente acusado, já que pertence ao partido mais conservador – porque está prevendo uma intervenção estatal em vários segmentos do setor de energia elétrica. Então, a adoção de modelo privativista no Brasil não pode deixar de ser acompanhada por um planejamento centralizado, consensuado, discutido com os agentes, comandado e coordenado por um órgão que pode ser a Eletrobrás e com os investimentos complementares que se fizerem necessários.

Confea - Água tendo de ser racionada, hidrelétricas e termelétricas inacabadas. Qual o caminho para enfrentarmos e sairmos da crise?
Aranha - A matriz energética do Brasil deve ser essencialmente hidrelétrica. Não faltou água, o que está acontecendo era previsto, faltaram novos investimentos e conseqüentemente se usou o estoque de água que existia. Esse é que é o ponto, na verdade. A matriz hidrelétrica é indicada para o Brasil assim como é para outros países. Os Estados Unidos possuem mais hidrelétricas instaladas do que o Brasil. Só não instalam mais por falta de condições, se tivessem estariam dando prioridade às hidrelétricas, mais baratas, renováveis e um recurso nacional, não dependendo de importação. Temos tecnologia para as hidrelétricas, equipamentos brasileiros, e a construção é 100% nacional, inclusive a mão-de-obra.

Confea - Não utilizaríamos nenhuma outra fonte de energia?
Aranha - Depois das hidrelétricas, evidentemente, temos de ter outras alternativas. A possibilidade do carvão no Sul precisa ser avaliada em função dos problemas ecológicos e algumas fontes não-convencionais, como a energia dos ventos, a energia das marés e as nucleares. O Brasil tem uma reserva de urânio bastante considerável, e, hoje, as nucleares – indicadas para o Brasil porque são mais flexíveis na operação – estão mais baratas ou a um custo equivalente ao das usinas térmicas a gás, que seria importado na sua grande parte. Deve-se até instalar essas usinas porque são mais rápidas. Em dois anos, podem estar operando, mas têm uma limitação muito grande e terão uma participação sempre reduzida dentro da matriz energética brasileira.

Confea - O senhor defende as usinas nucleares. E os danos que, resíduos podemos causar ao meio ambiente?
Aranha - A usina termonuclear não afeta o meio ambiente. O único problema em relação a ela é que o Brasil ainda não resolveu o que outros países aparentemente já resolveram: onde colocar os despojos da usina, aquilo que você usou, foi irradiado e pode contaminar. Mas isso não é uma coisa tão difícil de resolver, apenas tem de haver o desejo de resolver. O Brasil não se preocupou até agora, porque com somente duas usinas, uma que já funcionava e outra que entrou recentemente em funcionamento, essa quantidade de despojos é muito pequena. Não vejo dificuldades em relação a isso. Existe, evidentemente, uma síndrome em relação ao problema nuclear. É a tal história, a poluição e o risco são zero, mas, se acontecer alguma coisa, as conseqüências são muito graves. Acidentes ocorridos em usinas – que não são essas que estão no Brasil – mais antigas, obsoletas, provocaram essa síndrome. Acho que isso vai desaparecer. Até o Japão, que sofreu a bomba atômica com milhares de pessoas mortas e outras tantas contaminadas e que até hoje morrem em função dos efeitos, já suplantou a síndrome e tem uma quantidade enorme de usinas nucleares instaladas, o que para eles é muito mais barato do que uma a gás ou a óleo.

Confea - Quanto tempo uma usina termonuclear leva para gerar energia?
Aranha - A usina de Angra III, que está com parte dos equipamentos comprados e já tem alguma coisa feita, levaria de quatro a cinco anos para gerar. Normalmente, uma usina nuclear leva em média seis anos , mesmo tempo de uma hidrelétrica.

Confea - Qual o preço final de uma hidrelétrica?
Aranha - Varia muito porque, diferente das outras que têm um padrão, a hidrelétrica depende das características do local onde ela é instalada. Mas algumas no Brasil ainda podem custar metade do que custaria, não de investimento que é até maior, mas o custo operacional total, o custo do quilowatt/hora, para nós consumidores, seria metade de uma usina térmica a gás, alguma coisa da ordem de 20 a 25 dólares o megawatt/hora. A hidrelétrica não tem custo de combustível.

Confea - E o custo de uma termonuclear?
Aranha - Em torno de 45 a 50 dólares, que é o custo de uma usina a gás, mas hoje existem experiências, sobretudo na África do Sul e na Coréia, com usinas mais modernas que devem reduzir o custo aumentando mais ainda a segurança. São usinas compactas com processos mais avançados.

 

Oswaldo Aranha

 

“O modelo de privatização do setor elétrico implantado no Brasil foi baseado na experiência da Inglaterra, mas é muito difícil a gente dizer se deu ou não certo, até porque não foi completamente implantado”

 

 

 

Mea-culpa

Líder reconhece responsabilidade do governo que promete respostas para crise energética

Ao assumir parte da responsabilidade pela crise energética, Arthur Virgílio (PSDB-AM), líder do governo na Câmara dos Deputados, repetiu o que, timidamente, o presidente FHC já vinha admitindo depois de ter dito que havia sido pego de surpresa pelos fatos. “Há muitos anos, os investimentos foram abaixo da demanda”, confessou o líder, ressaltando que todas as requisições feitas pelo Ministério das Minas e Energia foram atendidas pelo Ministério da Fazenda, tentando minimizar as falhas do seu e de governos anteriores.”
Para Arthur Virgílio, toda a situação decorre do fato de Fernando Henrique Cardoso ter herdado um Estado falido. “Não conheço um país que tenha equacionado sua questão energética sem ter antes resolvido a inflação, a instabilidade econômica e a ordenação entre despesa e receita.”

Arthur Virgílio defendeu que para chegar ao desenvolvimento é preciso estabilidade econômica e a confiança dos investidores. “Superávit fiscal é coisa de quem tem juízo, não de quem sonega oportunidade aos mais pobres. Não se distribui riqueza sem economia bem implantada, sem respeitabilidade internacional, falando de calote de dívida externa e fazendo uma economia que ameace a quebra de contratos.

Acreditando que “o pior a acontecer ao governo FHC é perder as próximas eleições”, o líder afirmou que o governo cumprirá seu papel dando respostas às questões energéticas. Este governo tem efeitos inegáveis e pouco exaltados nas áreas de telecounicações e saúde pública, na organização e na estabilidade econômica do país”.

 

 

 

 

 

Exclusão social

Um dos endereços eletrônicos mais visitados durante a eclosão da crise energética, www.ilumina.org.br, pertence ao Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico. Roberto Pereira D’Araújo, um de seus diretores e participante do seminário, contou que o instituto foi idealizado por Betinho, condutor da campanha contra a fome. “Ele achava que a questão da pobreza envolvia todos os setores da economia, principalmente os setores básicos como água, energia e transporte. Pelos idos de 95, procurou-nos preocupado, porque previa que a energia seria um fator de exclusão e não de inclusão social, no que estava totalmente certo, e alguém tinha de estar atento a isso.”

Pereira acredita que podemos ser a maior potência hidrelétrica do mundo: “Se eletricidade fosse petróleo, o Brasil seria um país árabe com certeza”. O Ilumina tem enviado sugestões para o governo, mas que atacam o modelo técnico. “Temos uma energia barata e estamos preocupados com as fontes alternativas que encarecem o produto”, diz.

Além de propor que a iniciativa privada participe mais da construção de hidrelétricas, o Ilumina – organização não-governamental que defende a racionalização do uso, a economia de 20% de energia elétrica e condena a sobretaxa e corte – informa que as termelétricas a gás, por fornecerem uma energia bem mais cara, funcionem uma parte do tempo, o que é complicado para o governo devido ao acordo assinado com a Bolívia, que obriga o pagamento do gás, mesmo o não utilizado.

Pereira diz que o ponto positivo é que a crise obrigou a repensar o modelo de consumo. Para ele, a questão energética deve ser vista sob o prisma social. E lembra que, ao alertar o governo sobre o caos que se aproximava, ouviu do secretário de energia que “o risco de racionamento em 2000 seria zero”.

 

Roberto Pereira D’Araújo

 

 

 

História antiga

O Sistema Confea/Crea, desde 1985, quando a crise do petróleo começou e refletiu-se no setor energético de uma maneira geral, vem debatendo o setor elétrico e as alternativas de geração terrmelétrica, o uso do carvão, do alcool, a energia eólica, a substituição do óleo diesel pelos óleos vegetais, e os resíduos da cana-de-açúcar como insumo energético, lembra o engº eletricista Edison Macedo, conselheiro federal por Santa Catarina, coordenador da Comissão de Assuntos Nacionais. “Nós, há muito tempo, estamos atentos à questão, e agora, com a crise que se configura uma forma inédita, uma vez mais todas essas alternativas vão emergir como soluções.”

Entre os documentos que registram a memória do Conselho Federal, estão dois cadernos especiais intitulados Questões Energéticas, nos quais uma crise como essa já se prenunciava. Da nossa parte, era feito um alerta para a necessidade de termos projetos de usinas hidrelétricas e fontes alternativas que precisem de um tempo relativamente longo para serem construídas, gerarem e fornecerem energia. Especialmente em 85, tivemos em SP um seminário nacional das empresas consultoras que reclamavam do fato de não se ter disponíveis, no setor elétrico, projetos suficientes para enfrentar as necessidades futuras com o desenvolvimento do país.

Para Edison Macedo, não há justificativa que amenize as conseqüências da falta de investimento no setor. “ É óbvio, que, se a energia é fundamental para o desenvolvimento do país, a segurança e a qualidade de vida, os investimentos nessa área deveriam merecer, num plano nacional de desenvolvimento, prioridade superior a muitas outras que vemos serem colocadas na frente. Temos de pensar sobre as necessidades físicas, concretas de engenharia, de desenvolvimento e menos em necessidades de contenções monetárias.”

Sobre os reflexos da crise nos empregos, o conselheiro acredita que serão afetados com as restrições à produção em todas as atividades econômicas do país: “O desemprego terá impacto a curto prazo. A geração de empregos terá impacto a médio e longo prazos. No caso de já existirem os projetos das obras necessárias para serem imediatamente iniciadas, então teremos um tempo de maturação considerável, para licitar obras e efetivamente empregar pessoas. A crise, acreditam os chineses, é desafio e oportunidade, e o leque de oportunidades que se visualizam a partir de uma crise dessas é realmente considerável”.

Mudanças na arquitetura - Pelo ineditismo, a crise, segundo Edison Macedo, desperta para o melhor aproveitamento dos recursos naturais do nosso país. Historicamente, não sofremos com uma crise como essa. Digamos que os países europeus, até em função das guerras, já conheçam as implicações de racionamentos, e isso faz que a engenharia e a arquitetura procurem alternativas racionalizadoras do uso dos recursos naturais, influenciando a cultura desses países e direcionando as formas de desenvolvimento da própria agricultura.

Para o presidente do Confea, Wilson Lang, a arquitetura com padrão internacional ergue edifícios com estruturas espelhadas, com alta concentração de calor que requer condicionamento térmico, gastando mais energia ou, no caso brasileiro, desperdiçando energia. “Temos de aproveitar melhor o que temos com a tecnologia que dominamos. Aproveitando a luz solar, a indústria imobiliária, por exemplo, poderá investir em obras que apresentem baixo consumo de energia. Como hoje compramos geladeiras, poderemos comprar apartamentos que tenham ventilação, insolação e iluminação adequadas, racionalizando o uso dos recursos naturais e economizando energia elétrica, primando pelos aspectos básicos de projetos arquitetônicos.

 

Edison Macedo

 

“Não há justificativa que amenize as conseqüências da falta de investimento no setor ...”

 

 

    
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