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Sistema Confea/Crea, representante de 850 mil profissionais,
organizados em 27 Conselhos Regionais e 32 entidades
nacionais, responsáveis por 70% do PIB brasileiro,
realiza, de 3 a 7 de novembro, em Foz do Iguaçu,
Paraná, a 58ª Semana Oficial da Engenharia,
Arquitetura e Agronomia (SOEAA) e o IV Congresso
Nacional de Profissionais. Até novembro,
todos os Estados devem realizar seus Congressos
Estaduais (CEPs), amadurecendo a discussão
da temária do evento nacional, que tem a
expectativa de reunir mais de 3 mil profissionais.
O presidente do Confea, engº civil Wilson Lang,
fala desses eventos, explicando de que forma os
profissionais da área tecnológica
pretendem dar sua contribuição à
sociedade num ano que antecede eleições
gerais.
1) Qual a importância
da Semana Oficial de Engenharia, Arquitetura e Agronomia
e do Congresso Nacional de Profissionais?
Wilson Lang - As Semanas Oficiais
da Engenharia, Arquitetura e Agronomia (SOEAAs)
foram organizadas para serem um momento de congraçamento,
reflexão, discussão técnica,
cultural e científica. Esses eventos são
compostos de palestras, mini cursos, seminários,
enfim uma série de atividades que nos permitem
evoluir técnica, científica, cultural
e politicamente nas nossas áreas profissionais
específicas.
A primeira ocorreu em 1940,
no Rio de Janeiro, como Semana Oficial do Engenheiro.
A partir de 1975, com a Resolução
n.º 233, que regulamentou o evento, passou-se
a adotar a nomenclatura atual. A sede da SOEAA é
sempre escolhida pela plenária do evento
anterior.
Os temas discutidos procuram
ressaltar o compromisso dos profissionais da área
tecnológica com a sociedade brasileira.
Já o Congresso Nacional
de Profissionais tem um escopo mais amplo. Surgiu
a partir de um momento em que os conceitos de democratização
das discussões das nossas profissões
assumiram amplitude nacional. E, para fazer isso,
precisávamos chamar um evento deliberativo,
que discutisse temas, teses, propostas e, ao final,
pudesse apresentar esses trabalhos como uma nova
vetorização de futuro para o Sistema
Confea/Crea.
Os congressos tiveram início
em 1993, em Águas de Lindóia, quando
foram tratados os temas: “A Retomada do Desenvolvimento”,
“Revisão Constitucional” e “Rumos
da Organização Profissional”.
O I CNP foi encerrado com a aprovação
de 302 propostas.
O II CNP aconteceu em Fortaleza,
em 1996, abordando os temas: “Ensino e Formação
Profissional”, “Legislação
Profissional” e “Planos, Políticas
e Estratégias de Atuação do
Sistema”. O congresso resultou em 396 propostas
aprovadas. E o III CNP foi realizado em 1998, em
Natal, e discutiu um tema único, que foi
o Estatuto do Sistema Confea/Crea.
O sucesso dos eventos passados
credencia o IV Congresso Nacional dos Profissionais.
2) O que a 58ª
SOEAA e o IV CNP vão discutir?
Lang - Em novembro, em Foz do Iguaçu,
mais de 3 mil profissionais da área tecnológica
estarão discutindo “Ética e
Valorização Profissional” e
“Projeto Brasil”. Estaremos assumindo
um compromisso ético e político diante
da nação.
3) Quais os referenciais
que o Sistema Confea/Crea pretende alcançar
debatendo esses temas?
Lang - Quando nos propomos a discutir
“Ética”, não pretendemos
analisá-la como um código, uma norma,
e sim tê-la na sua verdadeira dimensão.
A ética nas suas raízes gregas pode
ser interpretada como “alcançar a felicidade
do indivíduo sem que esse perca a sua identidade”.
Na transfiguração para o coletivo,
percebemos que não estamos sozinhos no planeta
e que somos todos dependentes de uma vasta “cadeia
produtiva “ ou, como prefiro, de uma vasta
“cadeia de relacionamentos“. Nenhum
de nós está sozinho neste planeta,
todos nós dependemos uns dos outros.
Nós, profissionais,
portanto, podemos nos considerar dentro de uma Família
Tecnológica. A partir dessa visão
geral, temos todo um conjunto de normas e procedimentos
que estabelecem atribuições profissionais,
Código de Ética, etc.
A visão segmentada que nossa legislação
nos confere está na contramão da chamada
era do conhecimento. Não podemos compartilhar
com ditames legais que cerceiam nosso desenvolvimento
profissional, que não contemplem a possibilidade
de circulação horizontal e vertical
nas diferentes áreas de especialidades. A
era do conhecimento exige uma postura de multiespecialidades.
Para empreender esse importante
projeto, é que estaremos tratando de Ética
e Valorização Profissional, buscando
aprimorar um processo de concessões progressivas
de atribuições que também precisa
contemplar mecanismos específicos de ingresso
na profissão. Tudo isso precisa de um forte
consenso ético.
Não deve ser nosso
objetivo cercear a expansão dos domínios
de competência, mas apresentar para a sociedade
uma nova e moderna forma de garantir qualidade e
segurança nos nossos empreendimentos, bem
como resgatar a cidadania profissional por meio
de compromissos sociais capazes de reduzir as fortes
injustiças sociais que assolam nosso país.
A idéia de que a
valorização profissional é
uma responsabilidade do Crea ou do Confea nos parece
obsoleta. A Ética e a Valorização
Profissional dependem de cada um de nós.
Depende do nosso entendimento de que engenheiros,
arquitetos e agrônomos são, na verdade,
uma família tecnológica e dentro dessa
família representam uma plataforma organizada
da sociedade. Não tem, absolutamente, nenhum
sentido termos mais de 1.200 associações
de classe por esse país, se não tivermos
o formato ideológico de classe organizada.
A classe, quando organizada,
discute, trata internamente seus problemas e aciona
os mecanismos da sociedade para ver suas expectativas
atendidas. E as suas expectativas, obrigatoriamente,
estão ancoradas em pelo menos cinco valores
institucionais que definem o ordenamento conceitual
da atual gestão do Confea.
O segundo eixo temático
trata de Projeto Brasil. É um grande momento
para, por meio dos Congressos Estaduais de Profissionais,
discutir o cenário futuro de desenvolvimento
que queremos para nossos Estados. A consolidação
visionária de cada Estado permitirá
a realização de um projeto nacional,
que tanto nos tem feito falta.
Essas questões não
têm nada a ver com partidos políticos,
com ideologias. Tem a ver com um Brasil que até
agora ninguém pensou ou desenhou de forma
holística. Nós vamos ter diferentes
candidatos à Presidência da República,
e os engenheiros, arquitetos, agrônomos, geólogos,
meteorologistas e geógrafos têm a obrigação
de projetar uma nação soberana, desenvolvida
e socialmente justa. Esse é o compromisso
com o tema “Projeto Brasil”.
4) O sr. falou que
existem “valores institucionais” que
são o “ordenamento conceitual”
da atual gestão do Sistema. Que valores são
esses?
Lang - O primeiro deles traduz
que nossas ações devem ser legalmente
consistentes, isto é, nada do que fazemos
pode estar à margem da lei, e, quando quisermos
avançar e não tivermos o amparo do
mecanismo legal, temos de buscá-lo, e isso
requer esforço, requer unidade. E não
é só no Confea, na Câmara dos
Deputados ou no Senado Federal, nos gabinetes do
Executivo ou do Judiciário Federal, onde
nós gastamos parte de nossas energias, mas
também deve ser nas mesmas esferas estaduais
e municipais. A nossa atuação profissional
é muito ampla; portanto, a atuação
como segmento organizado da sociedade também
o deve ser.
Nossas atividades devem
ser socialmente defensáveis. Neste mundo
interativo, global e de assumidas responsabilidades
sociais, não podemos trabalhar pensando que
estamos sozinhos na planície. Discute-se
hoje Confea/Crea nos tribunais no Congresso Nacional.
Existem segmentos organizados da sociedade que querem
o fim desse Sistema. Diante dessas variáveis,
temos de mostrar para a sociedade nossa importância,
que a existência do Sistema tem uma finalidade.
E, para isso, as entidades de classe, os profissionais,
o Crea e o Confea, todo o Sistema tem de funcionar
de forma harmônica, só dessa maneira
conseguiremos ser socialmente defensáveis.
Outro valor institucional
é a nossa condição de ecologicamente
corretos. A bandeira do meio ambiente ultrapassou
a condição folclórica dos chamados
“verdes” e hoje representa um conceito
fundamental da consciência de que a natureza
divina deste planeta não pode ser dilapidada
continuamente. Nossas profissões estão
intimamente conectadas à constante transformação
deste meio, logo nossa atuação institucional
também precisa avalizar esses parâmetros.
Nossas ações
devem ser ainda compartilhadas e integradas, o que
afirma nossa necessária condição
de relacionamento com os demais segmentos organizados
da sociedade. Isso implica em parcerias inteligentes,
cenários futuros conjuntos e uma percepção
histórico-cultural integrada a uma ousadia
técnica de futuro.
5) De que forma esses
valores serão observados nos Congressos Estaduais
e no Nacional?
Lang - Esses valores devem estar
profundamente inseridos nas discussões, nos
Congressos Estaduais e no Nacional. Os temas Ética
e Valorização Profissional e Projeto
Brasil já traduzem a ansiedade inicial de
todo esse processo. Ao discutirmos o primeiro eixo
temático, por exemplo, deveremos ter em mente
que temos um Código de Ética, que
deve refletir as expectativas e os avanços
das nossas profissões e que deve, no meu
entendimento, contemplar questões como, por
exemplo, a avaliação do Sistema de
Habilitação Profissional.
Não podemos mais
continuar pensando que a Resolução
218, que estabelece as atribuições
profissionais, deva continuar como está.
É absolutamente indefensável do ponto
de vista da sociedade, ou seja, não atende
aos valores institucionais. É preciso haver
uma flexibilização na ponta superior
do sistema de concessão de atribuições.
Não podemos mais imaginar que as nossas profissões
fiquem perenemente estabelecidas, eternamente consolidadas
pelo curso de graduação. Não
é mais possível pensar assim.
É preciso contemplar
mecanismos de especialização de cursos
de pós-graduação, de aperfeiçoamento
profissional, de exercício das profissões
ao longo de um determinado tempo para que se possa
estabelecer o upgrade da profissão. Isso
tem de ser pensado e conclusivamente definido. E
quem vai pensar? O Congresso Nacional dos Profissionais,
os Congressos Estaduais dos Profissionais. Não
é mais possível imaginar que, numa
universidade, num curso de 4.600 horas, nós
vamos conceder a esse profissional o limite da sua
capacidade técnica e de sua contribuição
para a sociedade. Isso está absolutamente
fora dos nossos valores institucionais. Precisamos
pensar um modelo alternativo para a Resolução
218, que nos permita uma flexibilização
na ponta superior e também na ponta inferior,
ou seja, na entrada. Os CEPs e o CNP são
o espaço criado para esse embate. Digamos,
a arena do bom combate.
6) A partir dos resultados
desses encontros, qual a efetiva contribuição
que o Sistema Confea/Crea pretende dar aos novos
governantes que serão eleitos nas próximas
eleições?
Lang - Neste momento da vida brasileira,
nós, os profissionais da área tecnológica,
temos um compromisso com o futuro. Na discussão
do Projeto Brasil, todos os Estados vão contribuir
para a construção de um novo vetor
de desenvolvimento nacional, com o objetivo de honrarmos
nosso compromisso com os profissionais e com o Brasil.
Ao abordarmos Ética e Valorização
Profissional, pretendemos encontrar uma nova organização
profissional que estabeleça diretrizes e
satisfaça as nossas ansiedades como profissionais
e como agentes de modificação de uma
sociedade com desigualdades como encontramos no
Brasil. Pensamos contribuir para viabilizar ações
concretas, visando melhorar o mundo em que vivemos,
estabelecendo um norte para nós mesmos. Não
há como estabelecer políticas de valorização
profissional se não tivermos capacidade de
intervir na política nacional. E vice-versa.
Estamos viabilizando condições para
que as energias técnicas possam se transformar
em compromissos políticos éticos.
Só assim, seremos uma grande nação.
Só assim, nós, profissionais, poderemos
dar por cumprido nosso juramento inicial e exigir
dignidade perante uma sociedade com as características
deste gigante Brasil. |
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