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Biotecnologia,
sociedade da informação, nanotecnologia
e meio ambiente passam a merecer atenção
especial
Os fundos setoriais
estão dando o fôlego necessário
para o aumento de
investimentos em ciência e tecnologia do país,
condição indispensável para
que o Brasil se aproxime das grandes potencias mundiais.
O argumento é do ministro da Ciência
e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, 60 anos. “Com
eles, o país ganhou uma crescente fonte estável
de recursos à pesquisa científica
e tecnológica, revertendo um problema histórico”,
diz ele. Em 2002, serão quase R$ 1,3 bilhão
em recursos disponibilizados e projetos para a criação
de fundos nas áreas de saúde, aeronáutica,
agronegócios e biotecnologia.
Com o incremento
no investimento está sendo possível
conquistar espaço em um segmento que pode
definir a competitividade do país, a pesquisa
científica e tecnológica. Hoje, conforme
Sardenberg, o Brasil ocupa uma posição
intermediária no contexto mundial, ao lado
de China, Índia e Coréia do Sul. Mas
atrás dos Estados Unidos e da Inglaterra,
por exemplo. “O investimento em setores estratégicos
permitiu que o Brasil desse um salto em ciência
e tecnologia. Adquirimos excelência em áreas
de ponta de pesquisa, como biotecnologia e tecnologias
da informação, e somos referência
internacional no seqüenciamento de genes, que
traz amplos benefícios à agricultura
e à saúde”, afirma. A seguir,
os principais trechos da entrevista concedida com
exclusividade por Sardenberg.
Revista
do Confea: O senhor pode traçar
um panorama do cenário científico
e tecnológico do Brasil? Em que áreas
estamos avançando? E quais os setores em
que o Brasil está muito atrasado?
Ronaldo Sardenberg - O Brasil
é vanguarda na pesquisa científica
e tecnológica na América Latina. No
plano internacional, muito embora dividamos a liderança
em algumas áreas, precisamos evoluir muito
até chegar aos patamares de investimentos
e realizações em C&T registrados
pelos países desenvolvidos. Hoje, o Brasil
ocupa uma posição intermediária
no contexto mundial, ao lado de China, Índia
e Coréia do Sul. Conquistamos um patamar
importante em função de um grande
esforço institucional realizado a partir
dos anos 50, com a criação do CNPq.
De lá para cá, sedimentamos uma estrutura
de fomento e prospeção científica
significativa e, no atual governo, desenvolvemos
uma política estratégica voltada a
ampliar o volume de investimentos na área,
a dirigi-lo de forma equânime pelas regiões
e a envolver no financiamento à pesquisa
e ao desenvolvimento o meio empresarial. O investimento
em setores estratégicos permitiu que o Brasil
desse um salto em C&T. Adquirimos excelência
em áreas de ponta de pesquisa, como biotecnologia
e tecnologias da informação. Somos
referência internacional no seqüenciamento
de genes, que traz amplos benefícios à
agricultura e à saúde. Agora, nossos
esforços se voltam à etapa pós-genômica,
ou seja, às aplicações práticas
dos esforços de sequenciamento genético.
O país também está na liderança
em outras áreas importantes, como indústria
aeronáutica, exploração de
petróleo em águas profundas, agricultura
tropical, vacinas, soros e telecomunicações.
O Brasil procura agora aprofundar progressos em
setores de ponta no mundo moderno. Áreas
como biotecnologia, sociedade da informação,
nanotecnologia e meio ambiente passam a merecer
atenção especial, assim como a necessidade
de promover o desenvolvimento de áreas sobre
as quais o conhecimento é tímido,
como ciências do mar, semi-árido e
Amazônia.
Confea
- Quais são as previsões de investimentos
do ministério para os próximos anos?
Quais as áreas que estão sendo priorizadas?
A pesquisa básica está incluída
entre as prioridades? Por quê?
Sardenberg - Em 1999, o ministério
dispunha de R$ 900 milhões para investir
no setor. Em 2001, o volume de recursos saltou para
cerca de R$ 2 bilhões. Isso foi possível
graças aos fundos setoriais, que somam neste
ano cerca de R$ 800 milhões. Os fundos devem
somar R$ 1,3 bilhão em 2002. Com eles, o
país ganhou uma crescente fonte estável
de recursos à pesquisa científica
e tecnológica, revertendo um problema histórico.
Os fundos canalizam recursos às áreas
de: exploração de petróleo,
informática, telecomunicações,
energia, recursos hídricos, mineral, transportes,
espacial, infra-estrutura de universidades, integração
universidade–empresa. Em breve, enviaremos
ao Congresso projeto de criação de
novos fundos, nas áreas de saúde,
aeronáutica, agronegócios e biotecnologia.
Todas essas áreas são logicamente
prioritárias, mas também dirigimos
recursos para pesquisa em ciências do mar,
semi-árido e Amazônia, além
de áreas escolhidas pela comunidade que tenham
importância regional. Por sua vez, a pesquisa
básica continua a ser prestigiada. Tão
mais importante ela será quanto mais as inovações
proporcionem divisas de mercado, suprindo demandas
tanto no meio empresarial quanto industrial.
Confea
- Como está o desenvolvimento tecnológico
do país? A tecnologia não está
restrita a um grupo reduzido de privilegiados? Quais
as estratégias para que a tecnologia corrija
as desigualdades sociais e melhore a qualidade de
vida dos brasileiros?
Sardenberg - O Brasil tem conquistado
resultados importantes na pesquisa científica.
Além de sermos vanguarda em inúmeras
pesquisas e sermos referência no mundo, em
muitas áreas, como já afirmei anteriormente,
estamos entre os 18 países que mais produzem
artigos científicos. Nos últimos anos,
a publicação de artigos nacionais
indexados em revistas científicas internacionais
cresceu três vezes mais do que a produção
mundial.
espondemos,
hoje, pela produção de cerca de 1%
dos artigos produzidos no mundo. Outro dado revelador
do progresso brasileiro: em 1993, formávamos
mil doutores por ano; neste ano, chegamos a 6 mil,
mesmo número da Itália e do Canadá.
O país se volta agora para superar a defasagem
tecnológica atual, aprofundar avanços
e descortinar novas fronteiras do conhecimento.
Há um descompasso entre a nossa pesquisa
e a produção própria de soluções
tecnológicas. Por isso, pusemos em marcha
uma série de programas e ações
destinados a avançarmos no investimento em
desenvolvimento tecnológico. Buscamos, nesse
sentido, sobretudo, aproximar o empresariado do
governo e da comunidade científica e atraí-lo
para – a exemplos dos países desenvolvidos
– envolver-se com a prospecção
estratégica e o investimento na pesquisa
e na produção de inovações
tecnológicas. Um dos bons exemplos dessa
atuação, no país, é
a Embraer. Essa empresa obteve êxitos extremamente
importantes, na pesquisa e na produção
tecnológica, a tal ponto que seus aviões
são exportados para várias partes
do mundo.
Confea
- Profissionais da área tecnológica
ligados ao CONFEA estão desenvolvendo um
projeto tecnológico alternativo para o Brasil
e querem oferecê-lo aos candidatos à
presidência da República. Como o sr.
avalia essa iniciativa?
Sardenberg - Considero que qualquer
iniciativa vinda da sociedade seja positiva. Com
essa perspectiva, acabamos de concluir, em setembro,
um processo de amplo debate com a sociedade para
chegarmos a um plano decenal para a área
de ciência e tecnologia. Após um período
de debates de um ano, que mobilizou a comunidade
científica, empresários, governos
estaduais e diversas instituições
envolvidas com o tema da C&T, realizamos de
18 a 21 de setembro a Conferência Nacional
de Ciência, Tecnologia e Inovação.
O evento contou com a participação
de cerca de 1,2 mil pessoas, de vários segmentos
sociais, e serviu para que debatêssemos diretrizes
e estratégias para o setor pelos próximos
10 anos. Se o CONFEA tem novas sugestões
aos candidatos à presidência da República,
isso é muito bom para o Brasil. Precisamos
cada vez mais do envolvimento da sociedade com questões
que dizem respeito a todo o povo brasileiro.
Confea
- O fato brasileiro mais relevante deste
ano está sendo a crise energética.
Como a área tecnológica está
ajudando a minimizar os efeitos dessa crise e em
que pontos pode ajudar mais ainda?
Sardenberg - O ministério
investe há anos em vários projetos
de pesquisa que buscam promover o uso eficiente
de energia elétrica e de fontes alternativas
de energia. Atualmente, 234 projetos no setor de
energia são apoiados pelo CNPq e 20 projetos
são financiados pela Finep em todo o país.
As unidades de demonstração desenvolvidas
pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT) são
exemplos de como as micro e pequenas empresas podem
usar a energia elétrica de forma eficiente,
com uma economia de 33%, em média, no consumo.
Por sua vez, as pesquisas com as fontes alternativas
de energia, como eólica, de biomassa e solar,
posicionam o país para uma perspectiva real
do uso intensivo dessas fontes a médio e
longo prazos. Além desse trabalho contínuo,
o MCT definiu sete ações de curto
prazo para fazer frente à situação
de emergência no abastecimento de energia
em todo o país, investindo cerca de R$ 200
milhões na busca de soluções
para a crise. Estamos incentivando projetos de geração
de energia elétrica e de implantação
de fontes alternativas de energia nos campi universitários.
Em parceria com o Sebrae, o CNPq concederá
bolsas para especialistas que darão suporte
técnico a prefeituras e pequenas e médias
empresas em gerenciamento e redução
de gasto energético. Em conjunto com o Inmetro,
promoveremos a adoção de processos
de certificação e análise de
equipamentos que utilizam energia elétrica
na indústria, no comércio e nas residências.
Definimos a realização de uma feira
de produtos e serviços com tecnologia inovadora
que tenham como principal característica
o uso eficiente de energia e o aproveitamento de
alternativas energéticas. Decidimos também
estimular estudos para identificar a viabilidade
econômica de fontes alternativas de geração
de energia que possam ser adotadas em curto e médio
prazos. O CPTEC/INPE deverá fornecer informações
sobre previsão do tempo para ações
de curto, médio e longo prazos que contribuam
para o enfrentamento da crise energética.
Criamos ainda um site dedicado à informação
sobre inovação tecnológica,
uso eficiente de energia e alternativas energéticas.
Contamos ainda, nesse esforço, com o Fundo
Setorial de Energia, que tem a finalidade de investir
percentual das receitas anuais das concessionárias
privadas de eletricidade em programas de pesquisa
e desenvolvimento de interesse público no
setor de energia. Com o fundo, vamos auxiliar a
formação de pessoal qualificado para
conduzir atividades de eficiência energética
seja em pequenas empresas, órgãos
públicos ou administração municipal
(curto prazo), além de financiar atividades
de pesquisa, desenvolvimento e demonstração
nas diversas formas de geração e usos
de eletricidade (médio e longo prazos). Ainda
neste ano serão encomendados estudos e projetos
aplicados em áreas como energia solar, eólica,
biomassa, eficiência energética e células
combustível, dentre outros. O total de recursos
estimados para este ano é de cerca de R$
80 milhões. Parte dos recursos (30%) deverá
ser aplicada exclusivamente em instituições
de pesquisa localizadas nas regiões Norte,
Nordeste e Centro-Oeste. Nos últimos cinco
anos a Finep apoiou 20 projetos na área de
energia elétrica. Com a atual crise no setor,
a agência estuda a possibilidade de criar
linha específica de apoio a empresas e instituições
de pesquisa com estudos nessa área.
Confea
- O senhor tem sido duramente criticado
por causa do acordo de cessão da Base de
Alcântara às empresas norte-americanas.
Quais são as vantagens desse acordo para
o Brasil?
Sardenberg - O Brasil não
cedeu, não vendeu, não alugou o Centro
de Lançamentos nem o fará para empresas
norte-americanas ou de qualquer outra nacionalidade.
O Brasil quer estabelecer uma atividade comercial
a partir do Centro de Alcântara, prestando
serviços a empresas de qualquer nacionalidade,
que queiram lançar seus satélites
em condições econômicas as mais
competitivas dentre todos os cerca de 40 centros
de lançamento em todo o mundo. Creio que,
a essa altura, com todos os esclarecimentos que
prestamos, no Congresso e na imprensa, a sociedade
ciente de que o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas
que assinamos com os EUA é um procedimento
normal em todo o mundo. Ele traz amplos benefícios
tanto para o Programa Nacional de Atividades Espaciais
do governo quanto para a população,
sobretudo os habitantes da região de Alcântara.
O acordo não fere a soberania brasileira.
O Brasil manterá total controle sobre o Centro
de Lançamento de Alcântara quando as
empresas americanas lá estiverem para montar
seus foguetes e satélites. Realizados esses
lançamentos, as empresas imediatamente se
retiram do centro, só voltando a fazê-lo
após nova autorização. É
uma mera operação comercial, cujos
dividendos, para nós, virão da possibilidade
de arrecadar divisas com a utilização
comercial do CLA, por empresas não só
americanas, mas do mundo todo que desejarem contar
com as vantagens competitivas oferecidas pelo CLA,
vantagens essas basicamente geográficas.
Como se sabe, foguetes lançados de Alcântara
alcançam órbitas mais rapidamente,
portanto com menos combustível.
Confea
- O senhor pode fazer uma análise
sobre as conseqüências que o ataque terrorista
em Nova Iorque, em 11 deste mês, podem ter
sobre o cenário tecnológico mundial?
Sardenberg - Guardaremos na memória
o 11 de setembro como o dia que mudou o mundo. Por
serem altamente visíveis, simbólicos,
trágicos, alguns poucos eventos mudam o nosso
tempo e o nosso entendimento da realidade. Potencialmente,
impõem novas condições ao modo
pelo qual os Estados se relacionam. Com os atentados,
ficamos com uma sensação amarga na
garganta e intuímos que o futuro poderá
ser radicalmente distinto do passado. Entretanto,
a rapidez da vida na sociedade moderna nos impele
a buscar de imediato entender as implicações
do novo terrorismo, venha este a limitar-se ao plano
nacional ou a ter raízes internacionais.
Não poderiam ser omitidos os aspectos econômicos,
cuja propagação tem alcance mundial.
O dinheiro foge à insegurança, com
efeitos perniciosos nas finanças internacionais,
nas bolsas e nas taxas de câmbio. Para os
países em desenvolvimento, já ameaçados
pela desaceleração mundial, os riscos
são evidentes e acrescidos. O Brasil, por
força de nossas convicções
morais, expressas em preceitos constitucionais,
repudia o terrorismo e o considera crime hediondo.
O momento atual aconselha fortemente a mantermos
a cabeça fria e os pés no chão.
Providências cautelares podem e estão
sendo adotadas no País, no sentido de evitar,
na medida do possível, que nos atinjam as
múltiplas repercussões de um clima
de terror.
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