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  Polêmica: saneamento com novas regras

A intenção é expandir a oferta de água e esgoto para toda população do país.

Em cinco anos, entre 1995 e 1999, 3,4 milhões de brasileiros foram interna-
dos em hospitais por doenças transmitidas pela água, segundo a Fundação Nacional de Saúde. Esta também é a causa recorrente da maioria das internações de crianças e de 80% das consultas pediátricas na rede pública. Isto acontece, conforme dados da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, porque 15,3 milhões de pessoas (9% da população) não têm água tratada e outros 85 milhões (51%) não possuem coleta de esgoto. O setor de saneamento movimenta anualmente R$ 6 bilhões no País e é responsável por 100 mil empregos. Pelos cálculos do segmento, são necessários outros R$ 44 bilhões nos próximos 11 anos para oferecer os serviços básicos de infra-estrutura a toda população.

Os números acima comprovam a importância do setor em assuntos como saúde pública, indicativos internacionais de qualidade de vida e interesse de investimento da iniciativa privada. Mais do que isso, explicam a polêmica em torno da proposta de lei de saneamento, de origem do Executivo Federal, dando as diretrizes nacionais para a prestação, a regulação e a fiscalização do serviço público de água e esgoto, em tramitação no Congresso Nacional.. Foram seis meses de debate com prefeitos, entidades ligadas ao tratamento da água e do esgoto, presidentes de companhia de saneamento e até especialistas internacionais, antes de o projeto ser apresentado na Comissão Especial da Câmara de Deputados, em 30 de agosto. Depois, aconteceram vários outros encontros, para discutir o substitutivo global feito ao projeto.

São dois os pontos mais controversos: o que trata da titularidade sobre o saneamento básico e o que determina 10 etapas para o processo dos serviços de abastecimento de água potável e esgotamento sanitário: captação; adução de água bruta; tratamento de água bruta;adução de água tratada; reservação de água tratada; distribuição de água tratada; coleta de esgoto; transporte de esgoto; tratamento de esgoto, e destinação final de esgoto. Em relação à titularidade, o projeto original do Executivo Federal determinava a transferência dos municípios para os estados. Temerosos de que perderiam o controle sobre a distribuição de água e o tratamento do esgoto, os prefeitos conseguiram convencer o relator, deputado Adolfo Marinho (PSDB/SC), a mudar esta proposta em seu substitutivo de 40 páginas. Com a mudança, a titularidade será do município quando houver interesse local e do Estado quando o interesse for comum, no caso, as regiões metropolitanas.

Conforme analistas, a maneira como foi estabelecida a titularidade dos serviços e sua divisão em etapas pode tornar o processo lento e confuso. O argumento é de que as regiões metropolitanas possuem em geral serviços de saneamento integrado. Com o desmembramento, cada uma poderá ter um prestador diferente, dificultando principalmente os investimentos e a atração do capital privado. “Em 70% do seu conteúdo, o substitutivo do deputado Adolfo Marinho é satisfatório, porque cria uma regulação e fiscalização para o setor, estabelece uma política em nível nacional e define os papéis de atuação, o que não existe hoje”, argumenta o engenheiro Antônio César da Costa e Silva, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), e diretor da Sabesp, a companhia estadual paulista. “Mas ele peca na questão da titularidade nas regiões metropolitanas. Neste caso houve um retrocesso em relação ao projeto original”, diz ele.

Segundo o presidente da Abes, hoje, em 95% das cidades brasileiras, a titularidade é municipal. Mas em cerca de 300 municípios, que formam regiões metropolitanas, a titularidade deveria ficar com o Estado. “Senão, se fragmenta o sistema em várias partes e a conseqüência é que as partes mais rentáveis, que não requerem investimentos e geram a receita, ficam com o município, enquanto o Estado arca com a demanda de investimento pesado e o passivo ambiental (coleta e tratamento de esgoto)”, diz. Entre as regiões metropolitanas em que isso pode ocorrer estão as do Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Recife. O resultado disso, para Silva, é que o interesse privado se voltará apenas para rede e não para a produção e tratamento, área em que as necessidades de investimentos são maiores. “Para estimular o investimento neste setor, somente com incentivos públicos”, prevê ele.

No Congresso Nacional da Abes, realizado em João Pessoa, em setembro, Marinho defendeu sua proposta. Segundo ele, o substitutivo é “infraconstitucional” e como lei ordinária não pode ir contra a Constituição Federal, que já define a titularidade como sendo dos municípios nos interesses locais. Em relação à fragmentação em etapas do processo de saneamento, esta seria, na visão do deputado, “uma alternativa que permitirá definir exatamente o serviço de interesse comum e o local”, afirma. No substitutivo, Marinho incluiu outra proposta que promete gerar muita discussão: o financiamento para permitir a universalização do serviço de água e esgoto. Um dos instrumentos para garantir mais investimentos é a proposta de alteração na Lei do FGTS. Atualmente, 60% do FGTS vão para Habitação, e os 40% restantes podem ser investidos em infra-estrutura e saneamento. De acordo com a proposta, 40% do FGTS seriam apenas para o saneamento, deixando 40% para a habitação e 20% para o governo investir em infra-estrutura ou mesmo em saneamento.

Entre as pessoas contrárias ao projeto do governo, o argumento principal é o de que a nova legislação abre caminho para a privatização do sistema de saneamento brasileiro. “E o que é pior: possibilita a privatização de uma forma perversa, pois mantém a parte onerosa e deficitária – coleta e tratamento de esgoto – com o município e deixa a parte lucrativa – abastecimento de água – com a iniciativa privada”, argumenta a engenheira sanitarista Cláudia Júlio Ribeiro, diretora financeira-adjunta do CREA-MG. O CREA mineiro realizou no início deste ano reunião plenária e audiência pública para discutir o tema. “A lei choca-se com uma proposta coerente de política pública para o setor”, afirma ela. “A proposta discute o saneamento apenas como água e esgoto, deixando de lado questões importantíssimas como drenagem, limpeza pública e controle de vetores”. O documento final do encontro, composto por três páginas basicamente de críticas, foi encaminhado a todos os deputados de Minas, os federais e os senadores. “Tivemos várias manifestações de apoio”..

Antônio César
da Costa e Silva

 

 

“A proposta discute o saneamento apenas como água e esgoto, deixando de lado questões importantíssimas como drenagem, limpeza pública e controle de vetores”.

 


Situação nas Américas e Caribe

PAÍS/
TERRITÓRIO
% DA POPULAÇÃO SEM ACESSO A SERVIÇOS DE ÁGUA POTÁVEL
% DA POPULAÇÃO SEM ACESSO A SERVIÇOS DE ESGOTO SANITÁRIO
População
urbana
População
rural
População
urbana
População
rural
Argentina
15,30
70,17
52,31
11,46
Belize
17,07
31,02
78,50
40,97
Bolívia
6,90
56,01
64,72
17,71
Brasil
2,67
19,93
85,53
28,30
Chile
0,9
34,32
87,89
6,7
Colômbia
10,80
53,64
79,98
34,1
Costa Rica
2,41
2,36
5,18
1,90
Cuba
1,34
18,03
8,83
4,21
Equador
18,53
48,57
62,97
29,52
El Salvador
7,63
74,71
49,71
14,09
Guiana Francesa
12,49
29,24
42,82
15,77
Guatemala
1,24
29,70
28,70
5,28
Guiana
1,76
8,77
19,30
2,78
Haiti
51,16
55,47
83,52
54,28
Honduras
6,22
30,30
50,50
6,11
Jamaica
18,80
40,61
34,17
2,35
México
5,55
35,45
67,95
12,97
Nicarágua
17,50
63,25
44,00
7,00
Panamá
12,35
14,15
13,46
1,35
Paraguai
29,88
87,16
0,95
0,94
Peru
13,17
49,33
60,46
10,50
Rep. Dominicana
4,59
35,00
21,.30
4,40
Uruguai
2,46
---
10,55
3,42
Venezuela
11,57
41,57
30,.65
25,30

*Estimativa do deficit dos serviços de água e senamento nas Américas e Caribe.


Radiografia do saneamento Brasil

Total das Dívidas
R$ 14 bilhões
População urbana com água
91%
população urbana com coleta de esgoto
49%
Municípios atendidos por 27 Cias. Estaduais
3.581
Municípios atendidos por serviços privatizados
32
Faturamento anual das 27 companhias
R$ 8 bilhões
Total de empregados do setor
116 mil
Tarifa média por metro cúbico de água
R$ 0,90
Índice de perda de água
40%
Necessidade de investimento até 2010
R$ 39 bilhões

Fonte: Secretaria do Desenvolvimento Urbano

 

Água: recurso imenso e escasso

Cada ser humano necessita de 189 litros diários para atender todas as suas necessidades - consumo, higiene e preparo de alimentos -, segundo a Organização Pan-americana de Saúde (OPS). A projeção faz parte do artigo Água: recurso imenso e escasso”, escrito pelo engenheiro Horst Otterstetter, ex-diretor da Divisão de Saúde e Meio Ambiente da Organização.

Outro estudo, desta vez divulgado pelo Instituto de Gerenciamento da Água, um centro de pesquisas do Grupo Consultivo em Pesquisa Internacional da Agricultura, calcula que cerca de um terço da população mundial vai experimentar os efeitos da escassez de água nos próximos 25 anos. O trabalho projeta o suprimento e a demanda de água para 118 países no período 1990-2025. Os países foram divididos em quatro categorias e o Brasil está na terceira, que também inclui a América do Norte e a Europa, com reservas que permitem uma cerca tranqüilidade de abastecimento.

A primeira é dos países que já vêm sofrendo de escassez e que dificilmente manterão em 2025 os mesmos níveis de abastecimento de 1990. Estão neste grupo 17 países do Oriente Médio, sul da África, regiões secas da Índia e China, englobando 1 bilhão de habitantes (1,8 bilhão em 2025). Na segunda categoria estão aqueles que têm recursos potencialmente suficientes, mas que terão que redobrar os esforços para acessar estes mananciais. São 24 nações da África Subsaariana, compreendendo 348 milhões de pessoas atualmente e 894 milhões em 2025.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

    
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