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  Pouso forçado

A indústria de aviação perde altitude e vira refém do terrorismo mundial. A crise chega com o furor de um míssil à maioria das empresas do segmento, inclusive na brasileira Embraer

Os atentados ao Pentágono (Washing ton) e as torres as torres do World
Trade Center (Nova York), estremeceram a aviação brasileira e mundial. Mas, a turbulência financeira começou bem antes dos atentados terroristas. Calculava-se que as perdas na aviação civil este ano seriam de US$ 2 bilhões nos Estados Unidos. A Embraer, maior empresa exportadora do Brasil, também já apresentava problemas em suas turbinas. A empresa costumava entregar de 40 a 45 aviões por trimestre, mas, no último período de três meses deste ano, as entregas não devem ultrapassar 33 jatos.

Depois do dia 11 de setembro, a situação piorou. A Embraer baixou de 185 para 160 a previsão de entrega de aviões para este ano e de 205 para 135 jatos para 2002. A fabricante de aviões pode até perder seu posto de liderança na lista de exportação do Brasil. E os prejuízos não afetam apenas a empresa: subsidiárias, funcionários e a economia do país também sofrem com a crise. No início de outubro, a Embraer demitiu 14% do seu quadro de funcionários. Foram 1,8 mil demissões, que acarretaram um prejuízo de US$ 15 milhões para a empresa.

Apesar dos reveses, o presidente da Embraer, Maurício Botelho, está otimista. “Desde os primeiros momentos que se sucederam à tragédia do dia 11 de setembro, estamos acompanhando junto aos nossos clientes as dificuldades que estão afetando o mercado da aviação comercial em todo o mundo. Porém, entendemos que isso ocorrerá por um período limitado de tempo, diante da imperiosa necessidade de locomoção das pessoas, seja por razão de negócios, seja por razão pessoal”, projeta Botelho. Para o presidente da Embraer, a aviação regional pode ser o próximo filão de crescimento da empresa no mercado mundial. “Cada vez mais, as medidas de segurança e a densidade de tráfego nos grandes aeroportos estimularão a operação ponto-a-ponto, propiciando crescimento destacado a esse segmento, no qual a Embraer mantém posição de liderança no cenário internacional”, explica Botelho.

Mas, por enquanto, a situação é crítica. A crise do setor aéreo mundial, provocada pelos atentados nos Estados Unidos, deve gerar perdas de US$ 700 milhões nas receitas da Embraer este ano, de acordo com o presidente da empresa. Em 2002, essas perdas devem chegar a US$ 1,2 bilhão. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) acredita que o pior ainda está por vir: a demanda de passageiros deve cair 20% no próximo ano, causando prejuízos de US$ 11 bilhões. A crise está sendo comparada com a de 10 anos atrás, assistida durante a Guerra do Golfo. No período, a demanda de passageiros caiu 25%, e foi preciso esperar 12 meses para que as empresas retomassem o ritmo dos negócios. Os analistas alertam para a principal diferença da crise atual: na época, nenhum avião foi usado como bomba.

Empresas brasileiras - No Brasil, as empresas já acharam um meio de enfrentar a turbulência, e os passageiros é que pagam a conta. A Varig aumentou em 3% as passagens domésticas, inclusive as da ponte aérea. A TAM optou por um porcentual menor (2,97%), mas começou a cobrar também uma taxa de seguro e segurança de R$ 14 por passageiro nos vôos nacionais e de US$ 5 nos vôos internacionais. A Transbrasil, a Vasp e a Gol também definiram diferentes taxas de aumento. No exterior, não foi diferente. Diversas empresas européias também apresentaram um acréscimo na lista de preços das passagens aéreas.

O maior problema para o setor no Brasil não é o terrorismo, mas a disparada do dólar, que representa, até agora, um acréscimo de 30% a 40% nos custos operacionias das companhias. No exterior, a justificativa para os reajustes é outra. Todas as empresas estrangeiras argumentam que os seguros e as medidas de segurança são o principal motivo pelo incremento nos preços das passagens, representando o chamado “custo de guerra”. As principais companhias aéreas da Europa calculam que terão de pagar entre US$ 82 milhões a US$ 110 milhões a mais ao ano pelo aumento no custo das apólices. Apenas pelo chamado seguro do casco que cobre o avião, algumas empresas aéreas pagavam, antes do dia 11 de setembro, US$ 5,5 milhões por ano. Agora calculam que terão de pagar US$ 80 milhões. Ao aumento exponencial dos custos pelo seguro e pelas medidas de segurança, soma-se ainda a queda do índice de ocupação dos aviões.

Alternativas – Para a canadense Bombardier, principal concorrente da Embraer, a saída para a crise foi pedir auxílio ao governo para o financiamento da vendas de aviões, que ficaram ameaçadas após os ataques terroristas nos

Estados Unidos. A Bombardier precisa de US$ 200 milhões em financiamento para aviões encomendados por clientes norte-americanos que ainda não foram entregues. A empresa teme que os negócios envolvendo 50 aeronaves – avaliados em US$ 1 bilhão – sejam cancelados, caso não consiga oferecer alternativas de financiamento para as companhias aéreas, que passam por sérias dificuldades econômicas. “Obviamente, o governo também precisa estar preparado para prover alguma assistência em épocas como esta, quando setores industriais inteiros – por motivos alheios – vêem a sua sobrevivência ameaçada”, disse o diretor-executivo da Bombardier, Robert Brown.

Nos Estados Unidos, as empresas também vão contar com o apoio do governo, e a iniciativa já está sendo chamada de Plano Marshall da aviação. Anunciado no final de setembro, o pacote prevê uma ajuda de US$ 15 bilhões para afastar as companhias aéreas da crise e estabelece uma série de medidas para aumentar a segurança. A partir de agora, todos os aviões que decolarem dos aeroportos dos EUA terão de incluir em sua tripulação um policial armado; as cabines de comando serão blindadas, como nos aviões israelenses; e câmeras serão instaladas dentro das aeronaves. A segurança dos aeroportos, que havia sido privatizada, voltará às mãos do governo americano. Além disso, o presidente do país, George W. Bush, estendeu a dois generais da Aeronáutica o poder de abater aviões comerciais que estejam seqüestrados.


Efeito dominó

A crise atual que afeta a Embraer se estende a diversos setores da aviação no Brasil, no conhecido efeito dominó. A Indústria Aeronáutica Neiva, subsidiária da fabricante de aviões, já demitiu 270 de seus 1.168 empregados. A empresa justifica as demissões com a necessidade de readequação do seu quadro à atual situação de crise nas empresas aéreas de todo o mundo, que suspenderam parte dos pedidos de novas aeronaves. Noventa por cento do trabalho da Neiva corresponde à produção de componentes para os jatos da família EJ-145, que a Embraer produz em São José dos Campos.

Instalada em Botucatu, nos anos 50, a Neiva dedicou-se inicialmente à fabricação de aviões de pequeno porte. Encampada pela Embraer, nos últimos anos, passou a fornecer componentes e subconjuntos para a linha de montagem dos jatos da linha ERJ-145, montados pela Embraer desde 1996. Também monta o turboélice Brasília, de 30 lugares, e aviões leves, entre eles o agrícola Ipanema. Produzidas em pequena escala, tais aeronaves ainda não sofreram o impacto da crise instalada na aviação.

Outra empresa ligada à Embraer, a Aeroserv, também admitiu que precisará demitir. Mas a indústria ainda não informou quantos trabalhadores serão dispensados, nem quando acontecerão as demissões. Segundo o diretor do sindicato, Marco Antônio Ribeiro, a empresa apenas afirma que está trabalhando com 30% da capacidade de produção e precisa adequar o quadro à situação atual.A Aeroserv faz montagem de asas, tubos de isolamento e trabalha com o setor elétrico, destinando 90% da produção para a Embraer. Trabalham para a empresa 340 funcionários.

Enquanto a Aeroserv estuda quantas demissões vai promover, a Mirage e a Globo Central de Usinagens, também fornecedoras da Embraer, informam que preservarão o quadro de funcionários pelos próximos três meses. “Acreditamos numa recuperação rápida do mercado, pois isso é passageiro”, disse o proprietário da Globo Usinagem, Mauro de Paula Ferreira. “Vamos manter os trabalhadores, fazendo um remanejamento de funções e cortando horas extras”, disse o empresário.

Para o diretor da Associação dos Empresários das Chácaras Reunidas, Francisco Redondo, distrito industrial de São José dos Campos, o jeito é procurar outros clientes para manter a produção. “As empresas têm de procurar tomar novos rumos para continuar em pé”, disse Francisco Redondo.

 

Panorama externo

Até na Suíça, país com a economia considerada aparentemente estável e sólida, empresas sucumbem à crise. A Swissair pediu concordata e vendeu 70% de sua parte na filial Crossair para o UBS e o Crédit Suisse, os dois maiores bancos do país, por US$ 161 milhões. O novo planejamento da empresa conta com a redução de vôos intercontinentais e uma frota com menos de 28 aviões. Inicialmente, os novos planos já geraram 2.650 demissões na empresa, 1.750 apenas na Suíça.

A Swissair chegou à desintegração depois de enfrentar políticas malsucedidas de expansão, que a levaram a uma dívida de quase US$ 11 bilhões. A situação piorou depois dos atentados nos EUA. Em uma semana, a empresa perdeu US$ 65 milhões. Além do controle dos bancos, parte da Swissair passa para as empresas SairGroup, SairLines e Flightlease. Ao todo, a frota de 162 aviões foi reduzida para 134 aparelhos.

 

Embraer antes da crise

A Embraer é a quarta maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo. Com mais de 30 anos de experiência em projeto, fabricação, comercialização e pós-venda, a empresa já entregou cerca de 5.500 aviões, que estão em operação nos diversos pontos do globo. A empresa tem uma base global de clientes e importantes parceiros de renome mundial, o que resulta em uma significativa participação no mercado.

Desde 1999, a Embraer é também o maior exportador brasileiro e já empregou mais de 11 mil funcionários e cerca de 3 mil empregos indiretos. Com a crise, o quadro de funcionários foi reduzido em 14%, gerando 1,8 mil demissões.

Fundada em 1969 como empresa estatal de capital misto, a Embraer foi privatizada em 1994. Seus atuais controladores detêm 60% do capital votante, distribuído entre a Cia. Bozano e os fundos de pensão PREVI e SISTEL. Em 1999, a empresa formalizou uma aliança estratégica com um grupo formado pelas maiores empresas aeroespaciais européias – Dassault Aviation, EADS, Snecma e Thales –, que adquiriram 20% do capital votante da empresa.

A Embraer possui uma bem estabelecida família de aviões regionais, cujo produto pioneiro é o EMB 120 Brasília, turbo-hélice para 30 passageiros. Compõem também a família o jato ERJ 135, para 37 passageiros; o novo ERJ 140, de 44 assentos; e o ERJ 145, para 50 passageiros. Para complementar essa linha de produtos, a Embraer lançou em julho de 1999 uma nova família de jatos – o ERJ 170, o ERJ 190-100 e o ERJ 190-200 –, com capacidades para, respectivamente, 70, 98 e 108 passageiros. A entrega do primeiro membro dessa família estava prevista para a segunda metade de 2002. A participação da empresa no mercado de jatos de transporte regional é, atualmente, de 45%.

A Embraer desempenha também um papel estratégico no sistema de defesa brasileiro. Mais de 50% da frota da Força Aérea Brasileira são constituídos por aeronaves da empresa. Cerca de 20 forças aéreas no exterior também operam com os produtos Embraer. No momento, estão sendo desenvolvidos o EMB 145 AEW&C, para alerta aéreo antecipado, o EMB 145 RS/AGS, para sensoreamento remoto, e o EMB145 MP/ASW (P 99), para patrulhamento marítimo e guerra anti-submarina, todos baseados na plataforma do bem-sucedido jato comercial ERJ 145. Também estão sendo desenvolvidos o Super Tucano e sua versão leve de ataque, denominada ALX. Essas aeronaves possuem grande potencial de exportação, o que vai contribuir para manter em alta a comercialização desses produtos ao longo dos próximos anos, em especial agora que o clima é de guerra.

Com a sólida situação econômica e financeira, expressa pelo caixa líquido e pela carteira de pedidos da empresa, que até o final de setembro totalizava US$ 11,2 bilhões, a Embraer está adequando suas operações com o objetivo de preservar suas forças e capacitações para a retomada do crescimento. Para isso, a empresa pretende, principalmente, manter os programas em desenvolvimento nos segmentos da aviação comercial, corporativa e de defesa, em especial o programa da nova família de jatos ERJ 170/190.

 

“...a turbulência financeira começou bem antes dos atentados terroristas.”

 

    
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