Busca

   
  Protocolo de Quioto por José Sarney Filho

Em pronunciamento feito em março passado, o presidente dos EUA, George W. Bush, fez saber por intermédio do seu porta-voz, que o governo norte-americano não ratificará o Protocolo de Quioto. Tal posição é conflitante com aquela apresentada por Bush durante a campanha eleitoral, ocasião em que o atual presidente, em várias declarações públicas, expressou o apoio à limitação, por lei, da emissão de CO2 (dióxido de carbono) por usinas termelétricas (predominantes na matriz energética dos EUA, respondendo por cerca de 70% da geração de energia elétrica do país), em sua maioria movidas a carvão mineral, combustível fóssil altamente poluente. Em discurso proferido em Michigan, em 29/09/2000, o então candidato presidencial republicano chegou a declarar que, com o apoio do Congresso, grupos ambientais e industriais, requereria que todas as plantas industriais alcançassem padrões de ar limpo com a redução de emissões de óxidos de enxofre, óxidos de nitrogênio, mercúrio e dióxido de carbono, dentro de um razoável período de tempo.

Após a posse, diante da pressão dos setores da indústria do petróleo e carvão, Bush retrocedeu, afirmando ser contrário à imposição de reduções de emissões de dióxido de carbono. A sua alegação foi a de ter cometido um erro, pois a Lei do Ar Limpo (Clean Air Act) classifica como poluentes apenas as substâncias diretamente prejudiciais à saúde humana. O presidente norte-americano alegou ainda, que o estado do conhecimento científico sobre as alterações globais do clima não permite atribuir às causas antropogênicas a origem do fenômeno, e que medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa vulnerabilizariam a economia norte-americana, agravando a conjuntura energética já preocupante, haja visto a crise que vem afetando o estado da Califórnia. Bush foi mais além ao identificar como uma das debilidades do Protocolo de Quioto a não inclusão de limites para as emissões geradas por todas as nações do mundo, citando países como o Brasil e o México.

As justificativas norte-americanas são questionáveis. Em fevereiro último, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) apresentou relatório de mais de mil páginas declarando que existem indícios suficientes para identificar como antropogênicas as causas do aquecimento global. O IPCC, que conta com a colaboração de várias centenas de cientistas em todo o mundo e estuda a ciência do clima desde 1990, considera que o aquecimento afetará negativamente, em maior ou menor proporção, a todas as regiões do globo. A matriz energética dos EUA teria que se adaptar ao compromisso quantificado de redução de 7% de suas emissões em relação ao ano de 1990, para o período compreendido entre 2008 e 2012, de acordo com o Artigo 3 do Protocolo de Quioto. Isto incomodaria grupos econômicos conservadores que apoiaram a campanha presidencial republicana. No entanto, é importante frisar que tais medidas criariam mais oportunidades de crescimento da nova economia por meio do desenvolvimento de tecnologias limpas e do aproveitamento de fontes energéticas menos poluidoras. A extensão dos compromissos de redução de emissões para todos os países do mundo não é contemplada no Protocolo de Quioto em respeito ao princípio da responsabilidade comum, porém diferenciada. Historicamente, as emissões antropogênicas dos países em desenvolvimento começaram a ter alguma significância somente a partir dos anos 40, diferentemente dos países do Norte que emitem desde a Revolução Industrial e, consequentemente, contribuíram muito mais para o aquecimento global.

Durante a recente reunião dos ministros das Américas, realizada por iniciativa do governo do Canadá, nos dias 29 e 30 de março último, na cidade de Montreal, a delegação brasileira, chefiada pelo Ministério do Meio Ambiente, desempenhou, mais uma vez, papel protagônico. A delegação norte-americana propunha apenas uma menção ao problema do aquecimento global, sem qualquer referência aos seus compromissos de redução. O Brasil mobilizou os países latino-americanos e do Caribe (inclusive o México, membro da NAFTA) em torno de duas ações, a saber: a) repúdio ao texto proposto pela delegação norte-americana e inclusão, no comunicado final do encontro, da não obtenção de consenso entre os países sobre o tema da mudança global do clima; b) divulgação para a mídia, de uma declaração firmada pelos ministros e chefes de delegação dos 32 países do hemisfério (com exceção dos EUA e Canadá), reafirmando compromisso com a ratificação e implementação do Protocolo de Quioto. Ainda nesse segundo comunicado, os países signatários exortam os países incluídos no Anexo I do Protocolo a cumprirem os compromissos assumidos em Quioto.

O MMA entende a importância dos esforços de cada país para a solução de um problema global, que possibilitará a promoção de um desenvolvimento mais sustentável, e vê com preocupação as recentes declarações norte-americanas. O governo e particularmente o MMA manterão ativas as suas ações para a mitigação das Mudanças Climáticas, apoiando firmemente a implantação do Protocolo de Quioto, que em última instância atenderá a um anseio da comunidade nacional e internacional em prol da melhoria de qualidade de vida para as gerações presentes e futuras.

José Sarney Filho

    
Todos os direitos reservados à Revista do Confea
Confea - Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia