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O que está
sendo feito para garantir qualidade de vida nas
cidades? Especialistas no assunto discutem avanços
e necessidades iminentes para garantir a sustentabilidade
das áreas metropolitanas. Na lista de prioridades:
respeito ao meio ambiente
e planejamento urbano
A cada segundo, nascem três bebês no
mundo, segundo levantamento da Organização
das Nações Unidas, e o desafio do
homem é saber como garantir qualidade de
vida para estes cidadãos em cidades auto-sustentáveis.
Como fazer isto? A resposta é difícil
mesmo para os maiores especialistas em planejamento
urbano do país. “Hoje no Brasil não
existe uma cidade sustentável, todas estão
crescendo de maneira desordenada”, garante
o professor doutor Daniel José da Silva,
do departamento de Engenharia Sanitária e
Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC) e especialista no assunto. “É
muito difícil apontar um exemplo”,
completa o arquiteto Francisco Angel Cipolla, doutorando
da USP-IPPUC (Curitiba). “Mas estamos no caminho
certo, e há uma série de experiências
que buscam o planejamento da cidade com respeito
ao meio ambiente e à participação
da sociedade”, assegura outro mestre na questão,
o também professor doutor Arlindo Philipp
Junior, da Universidade de São Paulo (USP).
“Realmente, as perspectivas
são excelentes, ainda mais com a aprovação
do Estatuto das Cidades, que vai dar instrumentos
para garantir o desenvolvimento sustentável”,
concorda Daniel Silva. O professor doutor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP, Marcelo Romero,
arrisca até a apontar Salvador (BA) como
um bom exemplo de cidade que busca o desenvolvimento
equilibrado. “A receita não está
no bolso, cada local tem a sua, mas realmente estamos
no rumo certo e agora com amparo legal do estatuto”,
diz a professora doutora Gilda Collet Bruna, também
da USP. “Sabe-se que não existe uma
cidade ideal ou que, o que dá no mesmo, existem
milhares de possíveis cidades ideais de acordo
com os sonhos, as aspirações, a visão
de mundo de cada um”, resume o engenheiro
José Chacon de Assis, presidente do Crea-RJ,
que possui um projeto de cidade auto-sustentável.
Todas estas feras em desenvolvimento
urbano estiveram reunidas durante a SOEAA (Semana
Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia),
em Foz do Iguaçu, em um dos painéis
que mais atraíram o interesse dos participantes:
Sustentabilidade das Cidades. Mas o que é
uma cidade sustentável? A definição
é do arquiteto Francisco Angel Cipolla: “É
a cidade que permite à comunidade alcançar
o menor índice de diferenças econômicas
e sociais e que garante que as gerações
futuras possam desfrutar dos recursos naturais gerados
por ela.” A definição de Philippi
Junior é ainda mais abrangente. Segundo ele,
uma cidade sustentável é aquela que
tem políticas públicas e de governo
que credenciem o desenvolvimento para trazer maior
justiça social, com preocupação
com o cidadão, respeito às questões
ambientais e possibilidade de crescimento econômico.
O desafio de arquitetos,
engenheiros, urbanistas e administradores, entre
outros, é chegar ao desenvolvimento sustentado.
“Em primeiro lugar, para que uma cidade seja
sustentável é preciso reconhecer os
seus limites, pois são eles que vão
determinar a sua autonomia”, afirma Daniel
Silva. “Nenhuma cidade será ideal em
qualidade de vida se não houver planejamento
e respeito ao meio ambiente”, completa Philippi
Junior. Ele também é da opinião
que os recursos naturais precisam ser utilizados
de forma que continuem servindo para o futuro. “É
preciso satisfazer as necessidades específicas
do homem, da flora e da fauna, e não aprendemos
isto na faculdade. Mas, se não atentarmos
para esta questão, não alcançaremos
soluções”, atesta o professor
da USP.
“Quando não
se pensa a cidade hoje, amanhã ela enfrentará
graves problemas”, concorda Francisco Cipolla.
Ele lembra que uma cidade não é apenas
o desenho urbano – “que é o que
o arquiteto e o engenheiro aprendem”. É
fundamental observar os aspectos socioeconômicos,
como educação, saúde, segurança,
abastecimento, cidadania; as questões físico-territoriais,
como uso e ocupação do solo, meio
ambiente, lazer e transportes; e as questões
jurídico-administrativas, como as leis e
o orçamento para que se possa realmente planejar
uma cidade. Na opinião do professor, o principal
erro das administrações municipais
é que os trabalhos são dissociados.
“É preciso
antes de mais nada uma mudança de comportamento
muito grande e maior envolvimento pessoal e dos
grupos sociais. A sociedade também é
responsável”, acredita Gilda Bruna,
defendendo uma maior contribuição
de cada um dos habitantes da cidade. Philippi Junior
compartilha da tese que a responsabilidade não
é apenas dos governantes, mas de toda a sociedade
civil. “E agora temos condições
de fazer através da norma jurídica”,
acrescenta. Ele sabe que não será
por falta de instrumentos legais que as cidades
brasileiras não vão se desenvolver
de forma ordenada.
Com o Estatuto das Cidades,
promulgado em outubro deste ano, “o caminho
fica mais rápido”, diz a professora
Gilda. Com a nova legislação, os municípios
com mais de 20 mil habitantes precisam implantar
um plano diretor elaborado com a participação
da comunidade, que defina o que vai ser feito para
o progresso do município dentro de parâmetros
de qualidade ambiental e justiça social.
Além disso, o documento deve apontar de onde
virão os recursos e incluir o plano plurianual,
caso contrário podem ocorrer problemas para
o administrador. “O estatuto traz inovações
importantes, já que o poder público
municipal está omisso e inoperante na maioria
dos casos, e esperamos que agora se possa dar importantes
passos para melhorar a qualidade de vida com a participação
ativa dos profissionais do Sistema”, afirma
o engenheiro Paulo Bubach, presidente da Federação
dos Sindicatos de Engenheiros do Brasil.
O presidente do Instituto
dos Arquitetos do Brasil, Roberto Sampaio, é
outro que defende uma maior participação
dos profissionais nesse processo, buscando uma nova
forma de urbanização, de arquitetura
e de novos hábitos para as cidades. “Temos
de agir de modo que as gerações vindouras
possam encontrar um planeta no mínimo igual
àquele que nós encontramos, e isso
implica a revisão de tudo que fabricamos,
consumimos e jogamos de volta na natureza”,
diz ele.
“As cidades que implantaram
a Agenda 21 ou criaram secretarias de Meio Ambiente
estão na frente, e agora o Estatuto é
mais um elemento que vem contribuir no processo
de crescimento equilibrado”, aposta Gilda
Bruna. O professor Philippi Junior lembra ainda
que há uma série de outros instrumentos
que contribuem para um crescimento sustentado como
a Política Nacional dos Recursos Hídricos,
a Política Nacional de Educação
Ambiental, a Política Nacional de Unidades
de Conservação, a Lei dos Crimes Ambientais
e até a Lei de Responsabilidade Fiscal. “Todos
estes elementos permitem à sociedade cobrar
mais e aos governantes encontrarem o caminho para
o desenvolvimento sustentável”, assegura.
A decisão para ingressar
no desenvolvimento sustentável é política,
ressalta Francisco Cipolla. “É necessário
muito esforço e a transformação
dos governos representativos para governos participativos,
com a conscientização da população”,
acredita o professor. O caminho, na visão
de Daniel da Silva, é definir uma estratégia
para cada município, em que se defina onde
se quer chegar de forma que exista equilíbrio
entre gente e espaço. “Não é
possível crescer toda a vida”, enfatiza.
Veja o exemplo de São Paulo, onde, a cada
10 anos, uma pessoa passa o equivalente a um dentro
do carro, porque o transporte individual prevalece
sobre o coletivo. Outro exemplo assustador da capital
paulista: 70% da população está
sujeita, durante 24 horas por dia, ao ruído
de 75 decibéis, o que equivale a um aspirador
de pó ligado ao lado do ouvido.
Conforme o especialista Marcelo
Romero, o segredo está na preservação
dos recursos naturais. “O uso dos recursos
finitos deve servir para nós e para nossas
futuras gerações”, explica Francisco
Cipolla. Só para se ter uma idéia,
é possível reduzir em até 50%
o consumo de energia elétrica nos prédios
que foram projetados e construídos dentro
da concepção de conservação
de energia, os chamados edifícios inteligentes.
“Se arquitetos e engenheiros trabalharem dentro
do conceito de condicionamento ambiental e iluminação
artificial nas obras, com certeza o consumo de energia
vai diminuir”, assegura Romero.
Philippi Junior dá
outro exemplo: 70% das questões de saúde
pública estão diretamente relacionadas
às ações de saneamento. Daí
a importância de os governos investirem em
saneamento, que, para Philippi Junior, é
uma das condições fundamentais para
que se chegue a uma cidade sustentável. O
professor aponta ainda a educação
como um dos principais caminhos para o crescimento
ordenado. “Sem educação, que
vai preparar os cidadãos para serem dirigentes,
sem relações ambientais em todas as
atividades humanas e sem planejamento, não
se avança”, garante ele.
“É preciso
conhecer todo o suporte natural, como demografia,
topografia, solo, climatologia, pois são
esses elementos que vão nortear qualquer
ação de planejamento”, ensina
o professor Cipolla. Mas é o professor Philippi
Junior que vai mais longe e aponta de forma mais
objetiva como se alcançar o desenvolvimento
sustentável. Ele lembra que, antes de mais
nada, deve-se ter claro que buscamos obter a preservação
e o controle dos recursos naturais e artificiais,
o controle dos resíduos, o conforto térmico,
acústico, visual e espacial, segurança
e limpeza. “São itens essenciais que
devem estar na mente, na hora do processo de planejamento.
Devemos buscar a qualidade do meio para que tenhamos
o mínimo de qualidade de vida”, afirma
Philippi.
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| Especialistas
em desenvolvimento: Marcelo Romero, Gilda Collet
Bruna, Arlindo Philippi Junior, Francisco Angela
Cipolla e Daniel José da Silva |
O professor recorda que os
engenheiros, arquitetos e agrônomos desempenham
um papel fundamental neste processo, pois são
os profissionais que mais interferem no espaço,
e a ação precisa ser interdisciplinar.
Philippi Junior destaca que os cuidados com os recursos
naturais são fundamentais: “Temos de
saber como gastar menos água, como estão
as bacias aéreas, como usar o solo e ocupar
o espaço e como controlar a fauna e a flora.
Todos vão ganhar, se todos cuidarem”,
garante. O especialista relembra que o planejador
deve ter presente que os objetivos serão
sempre a elevação do nível
de vida, o maior bem-estar para um número
maior de pessoas e a preservação dos
recursos naturais. “Isto parece óbvio,
mas muita gente não vê”, comenta.
Ele defende a participação de vários
profissionais no processo, como economistas, sociólogos,
urbanistas, geógrafos, arquitetos, engenheiros
e sanitaristas, entre outros, e confia que um projeto
bem planejado terá continuidade mesmo com
a transição de governos. “Quando
um programa pára com a troca de governo,
é porque foi mal planejado”, acredita
ele.
Para que um projeto dê
resultados, Philippi Junior defende a participação
da comunidade, como prevê o Estatuto das Cidades,
a definição de prioridades, a qualificação
de recursos humanos e a utilização
de indicadores socio-econômicos-ambientais
obtidos, avaliações e pesquisas. Ele
alerta para as armadilhas no meio do caminho –
o planejamento não deve ser calculado, mas
engajado, e o poder não deve ser do planejador
e sim da sociedade. Na opinião de todos os
especialistas, a cidade sustentável é
possível com muito trabalho e vontade popular
e dos governantes.
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