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  Engenharia Pública

O conceito de engenharia e arquitetura públicas reforça
a missão social do Sistema Confea/Crea e evidencia o poder dos profissionais em minimizar os problemas que afligem a sociedade. Em várias cidades, este projeto já está colhendo os frutos plantados pelos Creas


A engenharia, a arquitetura e a agronomia podem ter uma função pública. O
trabalho qualificado dos profissionais destas três áreas pode ajudar em muito o desenvolvimento social do país, seja na execução de projetos de habitações populares, seja no desenvolvimento de projetos agrícolas para comunidades do interior do Brasil. O Sistema Confea/Crea já descobriu isto e sabe que os seus 850 mil profissionais, de alguma forma, podem contribuir pela melhoria da qualidade de vida da população brasileira. “Existe um sonho que vem sendo acalentado, trabalhado, formatado, já com algumas experiências efetivas ao longo do Brasil, de fazer com que a sociedade tenha acesso a informação tecnológica de qualidade, permitindo produzir, desenvolver sua moradia e, enfim, fazer uso da informação tecnológica de alto nível”, antecipa o presidente do Confea, engenheiro civil Wilson Lang.

Este sonho já começou a tomar formas de realidade. Prova disso é o texto da proposta de número 79, aprovado no Congresso Nacional de Profissionais que aconteceu em Foz do Iguaçu, dias 6 e 7 de novembro: “Propor, mediante parcerias com os poderes públicos municipais, estaduais, federal e segmentos sociais, a implementação da engenharia, arquitetura e agronomia públicas, buscando atender às demandas da população de baixa renda, considerando o Estatuto da Cidade e às peculiaridades regionais”. Isto significa que a acessibilidade, tema recorrente nas discussões dentro do Sistema Confea/Crea, chega também à prestação de serviços destas profissões.

O processo de implantação vai acontecer a partir das iniciativas de sucesso já existentes, como em Sorocaba e São José dos Campos (SP), em Brusque (SC), e projetos como Casa Fácil (PR) e Nossa Casa (RN), entre outras. “Estas iniciativas deverão ser sistematizadas, formatadas dentro de uma estrutura legal, e vamos às instâncias deliberativas do país para fazer com que isso possa ser não só uma ansiedade da população e um desejo dos profissionais, mas uma realização da sociedade brasileira”, avalia Lang.

Segurança da comunidade - Segundo o presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais ( Crea-MG ), engenheiro civil Marcos Túlio de Melo, onde já existe um projeto em andamento, este é um assunto em discussão no Sistema há mais de 20 anos, e seu objetivo é dar acesso à população, aos conhecimentos técnicos destas profissões, a exemplo da medicina, onde o cidadão tem acesso aos serviços de saúde pelo SUS, e também os advogados com assistência jurídica à população nas Defensorias Públicas. Ele cita como exemplo a construção civil, onde a população, principalmente a de baixa renda, constrói suas moradias sem nenhum critério técnico, até por desconhecimento desta necessidade e, com isto, constrói mal, gastando mais, com desperdício de material e, muitas vezes, colocando em risco a segurança da comunidade e do meio ambiente.

Marcos Túlio acrescenta que a idéia de engenharia pública está prevista no capítulo II do Estatuto da Cidade, aprovado recentemente, que fala dos instrumentos da política urbana. Nele, está clara a necessidade de o poder público fornecer gratuitamente assistência jurídica e técnica à população de baixa renda. “Portanto, do ponto de vista institucional, o projeto de engenharia pública já tem o embasamento legal necessário para a sua implantação, logicamente adaptado às necessidades regionais”, diz. Ele destaca que o que se busca é atender a população que não pode pagar o acesso a estes serviços, tanto em nível de projeto, quanto de acompanhamento técnico em todas as áreas.

Neste sentido, Marcos Túlio aponta o ordenamento das cidades – transporte, uso e ocupação do solo, saneamento, etc – e a produção de alimentos como os grandes beneficiados. “Projetos como o Estatuto da Cidade e Agricultura Familiar são muito importantes, mas só se tornam eficazes quando executados em parceria com a sociedade organizada. É isto que a engenharia pública vem fazer: dar condições operacionais e técnicas para a implantação efetiva destes projetos”, salienta.

No Estado do Rio Grande do Norte, onde o Crea desenvolve o Programa de Engenharia Pública intitulado Casa Fácil, desenvolvido em parceria com o governo estadual, prefeitura, universidades, associações e sindicatos de profissionais, o sucesso pode ser medido não somente pela benfeitoria direta às comunidades carentes e pelo crescimento ordenado das cidades, mas também pela formação dos novos profissionais. “Conseguimos envolver neste projeto os estudantes de engenharia e arquitetura, que contam com a orientação dos professores para dar apoio na elaboração do projeto e na execução da obra”, comemora a engenheira civil Elequicina Santos, presidente do Crea/RN.

O presidente do Crea de Pernambuco, engenheiro civil Telga Gomes de Araújo Filho, adverte que este tema ainda é tratado de forma distinta pelos estados. “Não há um consenso do que seja isso”, diz. Para Telga, o caminho é cada Crea, de acordo com a realidade social e econômica do seu Estado, buscar parcerias para fazer acontecer de fato a chamada engenharia pública. Em Pernambuco, com base numa experiência da Associação dos Engenheiros de São Paulo, Telga pretende fazer um atendimento à população de baixa renda, envolvendo o sindicato dos engenheiros e dos arquitetos, com o objetivo de apoiar tanto na execução de alguma obra habitacional como nos reparos e na verificação da estabilidade da segurança das habitações. “Nós iremos buscar realmente uma atuação junto à população de menor renda que não conta com nenhum apoio para fazer suas moradias”, promete.

José Tadeu da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Túlio de Melo

 


Congresso

A Federação das Associações de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo é uma das entidades nacionais que está com a discussão do papel da engenharia pública e da engenharia social de forma mais avançada. A FAEASP realizou o I Congresso de Engenharia Social onde foram abordadas soluções de engenharia, que ofereçam segurança e melhor qualidade de vida “as populações carentes. “Estamos descobrindo que com tecnologia e baixo custo podemos resolver um dos problemas mais graves do nosso País que é o déficit habitacional”, diz o presidente Engenheiro José Tadeu da Silva. Um dos projetos apresentados no Congresso foi o “Casa 1.0”. Numa alusão ao carro popular, tão difundido no Brasil, a Fiesp apresentou o “Casa 1.0”, com um custo bem abaixo das casas populares construídas atualmente e que pode ser montada em poucas horas. “Custa apenas R$ 7 mil, tem financiamento garantido da Caixa Econômica e quem tiver um terreno pode montá-la e passar a morar dentro no mesmo dia. Isto é o casamento perfeito da tecnologia com o baixo custo”, comemora o presidente da FAEASP.

Segundo ele, este é apenas um dos muitos projetos incubados que precisam ser adotados pelo Poder público. “Com poucos recursos, poderíamos tirar das áreas de risco – encostas, mananciais e cortiços – milhares de famílias brasileiras que hoje vivem em situação precária de moradia”, completa o presidente lembrando que este será o grande desafio da engenharia social neste século. A FAEASP já está organizando o II Congresso de Engenharia Social, que acontece em abril de 2002. Os profissionais ou entidades que tiverem projetos ou quiserem de alguma forma contribuir com o avanço desta prática no país, podem buscar mais informações e inscrever seus trabalhos através do site da entidade www.faeasp.com.br. Serão premiados durante o II Congresso os quatro melhores projetos na área da engenharia social. Os contemplados ganharão todas as despesas pagas para participarem do maior evento nesta área, que acontece em Honduras, em junho de 2002.

Para o engenheiro José Tadeu da Silva, a partir do momento que os profissionais da engenharia, arquitetura e também da agronomia assumirem a área de engenharia social, a classe vai passar a ser valorizada e reconhecida pela comunidade. “Hoje a engenharia, infelizmente, é notícia de escândalo nacional, de superfaturamentos, de obras inacabadas ou mal realizadas. Nós precisamos mostrar de forma efetiva que engenharia não é isso e que podemos sim ajudar a construir um Brasil diferente”, conclui.


Engenharia Pública vale também para arquitetos e agrônomos

Para o engenheiro civil Osvaldo Luiz Valinote, coordenador nacional das Câmaras Especializadas de Engenharia Civil e coordenador da Câmara de Engenharia Civil de Goiás, a aprovação da proposta de instituição da engenharia pública pelo Sistema Confea/Crea representa um avanço em favor da sociedade. Ele explica que a engenharia pública ou engenharia social, como prefere denominar essa atividade profissional, significa prestar atendimento à população de baixa renda, para a execução de habitações populares ou centros comunitários, buscando dar mais conforto com o menor custo, garantindo condições mínimas de dignidade e cidadania.

Segundo Valinote, a engenharia social não é apenas função dos engenheiros civis, mas engloba todas as modalidades, uma vez que inclui diversos serviços prestados, como a instalação de redes elétricas, implantação de hortas comunitárias etc. “O Sistema deve provocar isso. A engenharia pública é uma obrigação constitucional, assim como a medicina e a advocacia. Não há como se atender ao quesito cidadania, cláusula pétrea da nossa Constituição, sem proporcionar o mínimo de conforto de habitação para todos os brasileiros”, afirma, lembrando que em alguns estados já estão sendo colocados em prática alguns programas, como o Casa Fácil, no Paraná, e experiências similares no Espírito Santo e em Natal. “Há necessidade de que a engenharia pública se intensifique e se transforme num programa nacional desenvolvido por prefeituras e governos estaduais de todo o país e que venham a ser disponibilizados recursos nos orçamentos públicos para custear esses programas”, defende.

O arquiteto Wellington Costa, coordenador nacional das Câmaras Especializadas de Arquitetura e coordenador da Câmara de Arquitetura de Sergipe, considera a discussão sobre engenharia, arquitetura e agronomia pública positiva, mas preliminar, porque exige, para sua implementação, uma ação política por parte dos governos estaduais e municipais que garanta subsídios para o sistema de acesso desses serviços pela população carente. Ele explica que, na área de arquitetura, “o serviço público poderá garantir melhor qualidade para as habitações populares e centros comunitários, adaptados às condições climáticas e especificidades de cada região”.

 
Agronomia pública

De acordo com o engenheiro agrônomo Raimundo Ulisses de Oliveira Filho, coordenador nacional das Câmaras Especializadas de Agronomia e coordenador da Câmara Especializada de Agronomia do Piauí, no que se refere à agronomia pública, essa é uma discussão menos evoluída do que na engenharia e envolve diversos mecanismos e políticas públicas, além do trabalho de campo. “A agronomia pública transcende a extensão. Implica uma política agrícola, voltada para a produção de alimentos para abastecer a população carente, com incentivos à agricultura familiar e outras ações que dependem dos governos”. Para o agrônomo, é necessário discutir a cobrança da ART para esse tipo de serviço, bem como se deve repensar a função da propriedade rural. “Também é preciso fazer gestões junto aos governos, considerando que poucas prefeituras dispõem de secretarias municipais de Agricultura”, observa.

   

 

Telga Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Elequicina dos Santos

 

    
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