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  A guerra verde

Legislação avançada não garante ao Brasil a preservação dos seus recursos naturais. Sobram leis e faltam fiscais para monitorar e notificar as sistemáticas agressões que fazem do país um campeão em crimes ambientais. A falta de licenciamento ambiental é um dos grandes entraves para vencer a batalha da degradação

A tutela do meio ambiente está atrelada à lei. Cabe ao Estado, nas suas três esferas de poder, a gestão dos recursos naturais. Isto significa dizer que, no Brasil, ninguém pode se considerar dono de uma única planta, ou de qualquer outro organismo vivo ou mineral que seja parte integrante ou originária da natureza. Assim, as árvores de uma propriedade não pertencem ao seu dono, ainda que tenham sido plantadas por ele. Da mesma forma, a exploração mineral, hídrica, ou qualquer interferência do homem no meio ambiente, precisa ser autorizada e sua utilização licenciada. Para operar, uma empresa deve solicitar um estudo de impacto ambiental e buscar seu licenciamento, previsto no Decreto 99.274/90, que regulamenta a Lei 6.938/81. Tudo isto pelo fato de que o meio ambiente é um bem de uso comum do povo, e cabe ao Estado, e somente a ele, a sua defesa.

O que parece muito claro e previsto como princípio na Agenda 21 não reflete a mesma facilidade na hora de cumprir o que foi estabelecido. O homem não só continua interferindo, como degradando ferozmente o meio ambiente, sem qualquer tipo de licença. “O paradoxo da humanidade é criar leis, cada vez mais amplas e coercitivas, para punir quem destrói o habitat que nos dá a vida”, diz um dos maiores especialistas em Direito Ambiental do país, o professor Edis Milaré, que proferiu o curso “Fundamentos Legais do Licenciamento Ambiental”, durante a 58a. SOEAA (Semana Oficial de Engenharia, Arquitetura e Agronomia).

O Brasil e todo o planeta vivem no início deste milênio uma crise ambiental sem precedentes. De um lado, temos recursos naturais limitados e cada vez mais escassos e, de outro lado, uma sociedade consumista, que impõe para seus membros o desejo de necessidades ilimitadas. Juntando estes dois ingredientes, temos a receita da destruição e a convicção de que o bolo não será suficiente para todos os comensais.

Outra contradição assombra a luta pela preservação do meio ambiente. Embora a legislação brasileira para questões ambientais seja considerada uma das mais avançadas do mundo e o nosso país esteja à frente de nações desenvolvidas como França, Alemanha, Itália e Espanha, não estamos deixando de destruir o meio ambiente e ferir impunemente as leis. O problema, segundo o professor Milaré, não é a falta de um corpo de leis que estabeleça regras rígidas e penas pesadas para os criminosos ambientais. O grande entrave é a falta de estrutura para fiscalizar e punir aqueles que não cumprem a lei.

Para exemplificar essa falta de estrutura, Milaré lembra do tempo em que esteve à frente da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, no início da década passada, e que a pasta tinha no orçamento apenas 0,7% do orçamento estadual anual. “Eu costumava dizer que na representação gráfica da distribuição orçamentária, quando desenhavam aquela pizza, a parte que cabia ao meio ambiente era menor que o risco.” No restante do país, a realidade não é diferente, basta verificar que o Ibama em todo o Brasil possui 1.500 fiscais para atender a 5.500 municípios. Ou seja, uma média de quatro municípios para cada fiscal, com boas chances de boa parte deles não ter à sua disposição sequer uma bicicleta para realizar o seu trabalho.

Para o especialista, o grande problema é que a questão ambiental não está incorporada na implementação das políticas públicas. E ter uma legislação avançada, no campo civil, administrativo e penal, não vai garantir o fim da agressão ao meio ambiente. Mas os mais positivistas vêem solução a médio prazo. Não que alguém acredite que, de uma hora para outra, o Estado construa uma estrutura de gestão dos seus recursos naturais condizente com o alto nível de sua legislação ambiental. Mas há aqueles que apostem em outras forças capazes de fazer o empresário cumprir integralmente as leis ambientais do país.

Uma delas, segundo Milaré, vem do próprio mercado. O setor produtivo está sendo obrigado a cumprir a lei porque as organizações estão sendo cobradas comercialmente, tanto pelo mercado interno quanto externo, a buscarem a sua ISO 14000. “Quem hoje não é certificado não exporta e já apresenta dificuldades até mesmo para colocar seu produto no mercado brasileiro”, diz Milaré, salientando que esta postura de mercado tem exigido dos empresários o cumprimento integral de todas as normas e a instalação de equipamentos não-poluentes. “A lei brasileira é muito boa, mas a lei de mercado é imbatível”, aposta Milaré. Outra força capaz de mudar a postura do empresário e coibir a ação dos agressores é a pressão popular. Cada vez mais, as comunidades estão exigindo informações e cobrando das organizações sua parcela de responsabilidade com a manutenção saudável do meio ambiente. E, como interessa cada vez mais às empresas manter uma relação simpática com aquela comunidade que as acolhe e que consome os seus produtos, muitos avanços ambientais estão sendo amigavelmente alcançados.

O especialista em Direito Ambiental lembra ainda de outro aliado na legislação que está revertendo o quadro da impunidade dos empresários que operam sem licenciamento ambiental. A novidade é que a lei 9.605/98 não incrimina apenas o agente poluidor, mas também o órgão responsável pela fiscalização que não coibir a ação criminosa. Este novo princípio – de punir quem também faz vistas grossas ao descumprimento legal – é uma revolução do ponto de vista do Direito Ambiental. Está movimentando os órgãos fiscalizadores que agora correm o risco de serem considerados cúmplices e coniventes com toda e qualquer ação criminosa contra o meio ambiente. “Trabalhar na clandestinidade deixou de ser lucrativo para transformar-se num risco iminente de prejuízo, muitas vezes irreversível para a saúde financeira das empresas”, conclui Milaré.


Evoluções e retrocessos

1972 - De Estocolmo, o mundo assiste ao primeiro grande encontro de chefes de Estado para discutir políticas globais para implantação de mecanismos de preservação ambiental. O Brasil começa mal, e seu representante deixa claro que não vai sacrificar o desenvolvimento ou diminuir a previsão do crescimento da economia para poupar o meio ambiente.

1992 - A maior conferência mundial para discutir o meio ambiente, a Eco/92, conta com a participação de mais de 170 países, centenas de ONGs e a interferência das empresas transnacionais através de lobistas. Maurice Strong chama a atenção do mundo ao dizer que a ECO 92 seria a última chance da humanidade para reverter o quadro ambiental do planeta. Termina o evento com os povos do mundo civilizado comprometidos com um acordo global para “limpar” a casa, a chamada Agenda 21.

1997 – Chamado de Rio+5, um novo encontro coordenado pela ONU mostrou que a crise ambiental havia se agravado e a maioria dos compromissos assumidos pelas nações não havia saído do papel.

2002 – Neste ano, acontece a Rio+10, e a perspectiva dos ambientalistas é que o raio-x do planeta acuse um quadro ainda pior do que os aferidos nas duas últimas conferências mundiais. Além da negativa dos Estados Unidos em assinarem o protocolo de Quioto (que regula a emissão de gases poluentes na atmosfera), os ambientalistas terão de enfrentar a pressão cada vez maior das transnacionais, que estarão defendendo seus interesses, como o fim da restrição ao uso dos transgênicos.


Licenciamento ambiental

Os participantes da 58a. SOEAA tiveram a oportunidade de ver como é a aplicação prática do Licenciamento Ambiental por duas esferas distintas de poder, ambas consideradas exemplos nacionais nesta área. Um é o Estado do Paraná, que opera através do Instituto Ambiental do Paraná e cuja experiência foi relatada pelo diretor da casa, Pedro Fuentes Dias. A outra é a cidade de Porto Alegre. Segundo o secretário do Meio Ambiente, Gérson Almeida, a questão ambiental na esfera municipal deixou de ser tratada como “mantenedora de praças e jardins”, para interferir diretamente na política urbana de gestão dos recursos naturais. “Deixamos de ser bons jardineiros”, avisa o secretário.

Em Porto Alegre, o poder público municipal vem trabalhando sistematicamente no resgate da gestão ambiental e do espaço urbano da cidade. A Secretaria de Meio Ambiente de Porto Alegre é pioneira no país e foi criada há 26 anos, quando sequer os Estados estavam ainda preocupados com a questão ambiental. Hoje, a Secretaria continua à frente de seu tempo e já absorveu o conceito de que da gestão ambiental depende toda a qualidade de vida do cidadão que nela reside. “Cuidamos atualmente da questão do ruído na cidade, que hoje se constitui na maior reclamação do cidadão urbano”, conta Almeida. Para ele, não é possível conceber o conceito de qualidade de vida nos espaços urbanos sem dar solução à ocupação das áreas de risco, sem garantir a qualidade da água oferecida, sem preservar os cidadãos do alto ruído gerado nas metrópoles. “Nós entendemos que o cidadão tem direito a olhar pela janela da sua casa e ver mais do que um paredão colado ao seu prédio. Todos precisamos do horizonte, e ninguém tem o direito de arrancar isso de nós”, completa.

A garantia desta qualidade de vida está diretamente associada ao licenciamento ambiental. Isso porque todo e qualquer projeto de edificação ou implantação de empreendimentos com mais de 2 mil metros quadrados precisa receber uma licença para ser concretizado. É o estudo dos impactos ambientais que vai apontar se é conveniente para a cidade ou o Estado a instalação de determinada empresa ou condomínio. O Instituto Ambiental do Paraná adota o que resolveu chamar de “licenciamento ambiental estratégico”, uma vez que o órgão analisa não somente o cumprimento das normas previstas na legislação como também os impactos sociais relevantes que aquele empreendimento vai causar para toda a comunidade. “O Paraná perdeu 92% da sua cobertura vegetal nos últimos 100 anos. Não temos mais 92% para perder neste século. A hora é de reverter esta situação, e para isso precisamos ser rigorosos.”

Caminhando na mesma direção, a capital gaúcha também está interferindo nos projetos dos novos empreendimentos e exigindo contrapartida social por abrigar um investimento novo. Este foi o caso da instalação de um supermercado da rede Carrefour. Um estudo realizado pela Secretaria buscou contabilizar o impacto econômico que a instalação do empreendimento causaria na região e descobriu, pesquisando a instalação de outras unidades em Estados vizinhos, que um único empreendimento pode falir cerca de mil pequenos negócios na cidade. Com estes dados, a Secretaria negociou uma contrapartida socioeconômica para compensar possíveis perdas. Uma delas foi a construção de um shopping atrelado ao supermercado para abrigar o comércio adjacente. Além disso, a Prefeitura exigiu a construção de uma creche para atender a população de baixa renda dos arredores; a obrigatoriedade da compra de produtos rurais e orgânicos diretamente nas chácaras instaladas na Grande Porto Alegre; a contratação de pelo menos 10% dos funcionários com mais de 30 anos; e a criação de um fundo com R$ 480 mil doados pelo Carrefour para implantação de um programa de apoio e requalificação profissional para as pessoas que forem lesadas no seu emprego com a vinda do empreendimento. “Nós somos os sujeitos da história e podemos mudar uma situação adversa. Podemos sair da exclusão para a eqüidade social”, diz o secretário Gérson Almeida.

 
Fórum nacional

Para dirimir dúvidas e evitar choque de poderes, foi solicitada a criação de fórum nacional para discutir o Sistema Nacional de Meio Ambiente e definir concessões de licenciamento pelos Estados e municípios. “A prerrogativa do município é inquestionável, porque é nele que o cidadão vive, mora, estuda e trabalha. Se houver duas esferas de licenciamento, ninguém ganha com isso, por isso é preciso reconhecer o que cabe a cada um”, avalia Almeida. No entendimento da Prefeitura de Porto Alegre. promover a sustentabilidade é papel do município a partir da participação efetiva da população na formulação do sistema ambiental de gestão municipal. “O Plano Diretor é um processo que precisa ser legitimado democraticamente, sem esquecer que o licenciamento ambiental e o urbanístico devem estar permanentemente integrados”, conclui.

Para o diretor do IAP, o licenciamento ambiental não pode ser visto como um impedimento para o desenvolvimento ou para o crescimento econômico. O órgão licenciador do Paraná, um dos únicos do País a possuir um sistema totalmente informatizado, trabalha com o conceito de que o licenciamento ambiental é um dos principais instrumentos de busca da sustentabilidade das empresas para que elas possam desenvolver suas atividades sem agredir o meio ambiente.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    
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