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  Uma chance para a biodiversidade

A decisão de repartir os lucros com os detentores dos recursos naturais é uma das poucas vitórias contabilizadas na Rio+10 pelos ambientalistas sobre as nações mais ricas

Se depois de dez dias de explanações, negociações e muitas frustrações foi possível contabilizar algum ganho na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+10, realizada em Joanesburgo, África do Sul, ele aconteceu na questão da biodiversidade. Apesar da alta resistência dos países considerados desenvolvidos, ficou definido no Plano de Implementação a repartição dos lucros com detentores dos recursos naturais e conhecimentos tradicionais, defendidos pelo governo brasileiro, com o estabelecimento de metas e prazos de redução da perda de biodiversidade, defendido pelos ambientalistas.

O governo brasileiro foi insistente na questão da repartição dos lucros e no reconhecimento dos conhecimentos tradicionais, afinal de contas o Brasil é um grande complexo de biodiversidade e tem casos sérios de perdas de patentes de produtos via biopirataria. Já com relação à perda de biodiversidade, o compromisso assumido pelos países industrializados foi de reduzi-la significativamente até 2010.

Os negociadores brasileiros consideraram ganho também o estabelecimento do “Princípio da Responsabilidade Comum, porém Diferenciada”, que determina a cada país arcar com a reparação dos danos ao meio ambiente proporcionalmente ao que cada um causa. Esse princípio foi estabelecido na Rio+ 10 e nessa convenção passou integralmente para o Plano de Implementação. Essa questão foi uma verdadeira luta de titãs, visto que os países industrializados – maiores poluentes e agressores do meio ambiente – não queriam que esse princípio integrasse o plano e defendiam sua reformulação genérica.

Com relação ao clima, Rússia e Canadá ratificaram o Protocolo de Kyoto. Os Estados Unidos mantiveram-se irredutíveis na posição de não ratificar. Na área de saneamento, em que não existiam propostas formuladas pelo Brasil, foi acordada a meta de reduzir à metade o número de pessoas sem acesso adequado ao saneamento até 2015, apresentada pelo Canadá.

No setor agrícola, o Brasil tentou derrubar por terra os subsídios nos países desenvolvidos. Conseguiu apenas que o Plano de Implementação mencionasse a necessidade de reduzir esses subsídios agrícolas.

A Rio+10 resultou num volume de dez capítulos e 148 parágrafos com cerca de 70 páginas. O Plano de Implementação traz os objetivos a serem alcançados pelos 190 países signatários, que assumiram o compromisso de contribuir com o desenvolvimento sustentável a partir de progresso econômico, justiça social e proteção ao meio ambiente.

Participação do Sistema
O Sistema Confea/Crea participou da Rio+ 10 com uma comitiva assim formada: enga. civil Neuza Trauzzola, representante do presidente do Confea eng. Wilson Lang; eng. civil Marcelo Moraes, representante do Colégio de Presidentes de Creas; eng. eletricista Paulo Bubach, representante do Colégio de Entidades Nacionais (CDEN); eng. agrônomo Luís Alberto Costa Pereira, representante do plenário do Confea; e a jornalista Bety Rita Ramos, da Assessoria de Comunicação do Confea (ACS).

Na avaliação de Neuza Trauzzola, a Rio+10 deixou claro que mesmo existindo pontos que sejam globalizados no mundo, este ainda é extremamente regionalista. “A proposta que o Brasil levou dos 10% de energia renovável, por exemplo, trouxe essas diferenças à tona. Percebeu-se que os interesses, os enfoques e as necessidades são completamente diferentes de região para região, de país para país. Acredito que o mundo ainda vá levar muitos e muitos anos para conseguir, efetivamente, um nivelamento em intenções de resolver os problemas das populações”, enfatizou.

Trauzzola ressaltou ainda que a estada na África do Sul proporcionou perceber in loco que naquele país existe uma miséria muito grande. Para ela, mesmo pós-apartheid, a condição econômico-social do povo não mudou, e na sua avaliação, não existe uma preocupação maior, por parte dos organismos internacionais, de que isso aconteça. “Senti que Joanesburgo, cidade que sediou o evento, é um gueto, um gueto no bom sentido. É um paraíso dentro de um mundo de tristeza. Um local para turistas. Passei a refletir o quanto o mundo tem de evoluir para reduzir as más condições de vida que estão fora de Joanesburgo, mas no mesmo país, situação que se repete em outras regiões do planeta.”

Para Trauzzola, ficou claro que países ricos como os EUA não estão preocupados com essas situações. “Eles não se importam com o que vai acontecer a curto, médio ou longo prazo com o planeta. Se a fome vai aumentar, se vai faltar água no mundo, se teremos problemas climáticos. Os países industrializados só estão preocupados com seus próprios problemas. Entenda-se aí situação econômica, manutenção do poder através da hegemonia econômica”, esclareceu.

Na opinião de Trauzzola, essa predisposição de não facilitar os avanços, demonstrada pelos países industrializados, somada ao grande número de questões em pauta, praticamente inviabilizou novos acordos. Ela aponta como pontos positivos somente o fato de a conferência trazer o assunto à mídia, provocar a discussão. “Está ficando mais forte nas pessoas a consciência de preservação do meio ambiente. O grande mérito desse evento foi exatamente chamar a atenção para a causa. E, nesse contexto, o Sistema Confea/Crea tem um papel nacional muito importante daqui para frente. Temos muito a contribuir com o desenvolvimento sustentável brasileiro”, afirmou.

Para Marcelo Morais, a adoção de consenso para que propostas sejam aprovadas na Rio+10 é um fator que dá o entendimento da dificuldade de avanços. “Os temas envolvem questões financeiras de interesse do mundo todo e, é claro, as divergências são enormes. Para se ter uma idéia, se temos dificuldades em casa para definir com a família, por exemplo, um canal de televisão para assistir nas tardes de domingo, imagina consensar ações mundiais mesmo voltadas para o desenvolvimento sustentável, mesmo que objetivem a preservação do bem-estar da humanidade. Estão em jogo interesses extremamente diferentes, portanto difíceis de serem consensados. Por isso, qualquer avanço, por menor que seja, deve ser comemorado”, disse.

Morais também apontou como fator dificultador para o fechamento de acordos o excesso e a diversidade das questões discutidas ao mesmo tempo. “A ONU, organizadora da convenção, deveria diminuir o número de questões em pauta. Melhor aprofundar a discussão em poucos temas, do que engessar as decisões pela pressão da falta de tempo para discutir. Foram discutidas 180 questões por diversas nações. Essa quantidade, somada à dificuldade mencionada anteriormente, afasta mais ainda a possibilidade de consenso. Isso foi bastante perceptível no acompanhamento da convenção”, informou.

Para ele, ficou claro na convenção que nos últimos dez anos o Brasil desenvolveu conscientização forte de desenvolvimento sustentável e que avançou razoavelmente no arcabouço jurídico que sustenta ações nesse sentido. “Tivemos uma proposta revolucionária na questão da energia renovável. Propomos que o mundo mudasse a matriz energética com um novo eixo que saísse da atual de exploração dos combustíveis fósseis para 10% de energia renovável até 2010. Essa proposta, que saiu da periferia da discussão da Rio 92 e entrou no eixo central de discussão, embora não tenha sido aprovada, trouxe a questão energética à discussão, de uma forma mais efetiva”, contabilizou.

Na avaliação de Morais, em que pesem as colocações em nível mundial e nacional de que não se avançou nada, de um modo geral é possível ser feita uma análise positiva da conferência. “Não podemos ser ingênuos, o momento agora é muito mais complicado em nível internacional, não só na questão econômica, mas na questão da insegurança da população, que em 1992. Depois do 11 de setembro de 2001, passamos a ter um novo cenário, uma nova geopolítica mundial. Dessa forma, não podemos comparar o que tínhamos na Rio 92, aonde chegamos com alguns cenários construídos, com algumas questões consensadas por todos os governos mundiais, que à época estavam interessados em algumas implementações, com o cenário atual, onde as relações políticas internacionais de toda a humanidade se tornaram extremamente difíceis depois do atentado aos Estados Unidos”, avaliou.

Morais assegurou que é estrategicamente interessante o Sistema Confea/Crea participar ativamente, conjuntamente, com o Ministério das Relações Exteriores, Meio Ambiente e outros órgãos envolvidos com a área de desenvolvimento sustentável. “Toda a abordagem ambiental – recursos hídricos, energia, biodiversidade etc – está inserida nas atividades profissionais abrangidas pelo Sistema. Temos de participar como comentadores, como estimuladores dos debates desses eixos que vão ter desdobramento depois da Rio+10”, ressaltou.

Neuza Trauzzola

 

 

“...O Brasil é um grande complexo de biodiversidade e tem casos sérios de perdas de patentes de produtos via biopirataria”

 

    
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