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  Antártica, o continente sem fronteira

Uma terra distante, congelada, cheia de mistérios e respostas, o Continente Antártico tem influência direta sobre toda a humanidade. As calotas polares regulam os efeitos climáticos no mundo inteiro. Centenas de pesquisas fundamentais para o desenvolvimento científico, tecnológico e social se desenvolveram sobre as geleiras durante a história. Além de rico em conteúdo e belezas exóticas, o continente é também uma grande prova de que a união entre as nações é possível e essencial na luta para a sobrevivência do planeta

Aprodução artificial de gases de efeito estufa na atmosfera vem contribuindo
para aumentar a temperatura na superfície da Terra. O aumento da concentração de gases como dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e de outros gases emitidos pela atividade automotiva, industrial e agropecuária tem se tornado o principal agente de aquecimento do planeta. É o chamado aquecimento global que tem causado uma seqüência de eventos climáticos que afetam diretamente a vida de toda a humanidade.

Um exemplo do desequilíbrio causado por esse fenômeno são as descomunais nevascas de julho nos Andes e as enchentes desastrosas de agosto na Europa e na Ásia, neste ano de 2002, que estão sendo consideradas pelos especialistas as mais recentes conseqüências do preocupante aquecimento global.

O geógrafo e professor do Instituto de Geociências da UFRGS, Ulisses Franz Bremer, foi um dos painelistas do tema sustentabilidade do IV Congresso Nacional dos Profissionais do Sistema Confea/Crea e defende a idéia de que é importante que a população tenha clareza das conexões existentes entre os sistemas globais (atmosfera, criosfera, oceanosfera). Segundo Bremer, dessas conexões resultam fenômenos que transgridem fronteiras políticas e estendem sua ação de um continente ao outro. Por exemplo, as variações climáticas na Região Sul do Brasil estão diretamente relacionadas com a extensão e a duração do congelamento da superfície oceânica no setor pacífico da Antártica. Oscilações desse congelamento afetam as populações de plâncton, na base da cadeia alimentar das espécies marinhas, com conseqüências diretas na produção pesqueira.

Uma pequena elevação do nível médio dos mares bastaria para provocar sérias inundações de áreas costeiras em todo o mundo, a ponto de comprometer a existência de países como Kiribati, Nauru, Tuvalu e centenas de outras ilhas oceânicas. O desastre também provocaria a salinização das águas subsuperficiais, inviabilizando a agricultura e comprometendo o abastecimento de água para as populações e atividades econômicas das zonas costeiras.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) prevê para os próximos 100 anos uma subida entre meio metro e um metro do nível médio dos oceanos. Isso acontece devido a um aumento médio de temperatura que deverá ficar entre um e três graus Celsius e meio. Essa alteração climática seria em conseqüência principalmente da expansão térmica dos oceanos e do derretimento de geleiras localizadas nas zonas tropicais, temperadas e subpolares do globo. Os intervalos de dados devem-se aos diferentes cenários previstos pelos cerca de 2 mil cientistas que têm contribuído para os relatórios do IPCC. O professor Bremer realizou em 1998 seu trabalho de mestrado sobre estas últimas ocorrências. A pesquisa já constatou um desaparecimento de cerca de 7% da cobertura de gelo da Ilha Rei George, a maior das Ilhas Shetland do Sul, na Antártica.

 

 

“Se na
Antártica
é possível,
porque isto
não pode
acontecer no restante do mundo”

 

 

Pesquisas

Enquanto os Estados Unidos investem cerca de um bilhão por ano em projetos na Antártica, o Brasil investe anualmente 10 milhões de reais no Proantar (Programa Antártico Brasileiro). Mesmo com recursos menores, o programa existe desde 1982 com uma infra-estrutura invejável e é gerido pelo governo brasileiro por meio dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, da Defesa e das Relações Exteriores. A base brasileira está entre as quatro melhores das 42 mundiais instaladas no continente. Após 20 anos de existência, o Proantar passa a ter, a partir de 2002, mudanças significativas na orientação dos projetos de pesquisa. Eles terão de se enquadrar nas duas linhas gerais propostas para a pesquisa brasileira que se referem aos impactos globais e locais no ambiente antártico. Com essa adaptação, espera-se uma maior integração dos grupos de pesquisa brasileiros com os profissionais envolvidos em programas de cooperação internacional. O objetivo é elevar a pesquisa brasileira a um novo patamar no contexto do Comitê Científico de Pesquisa Internacional.

Este ano, 23 trabalhos estão sendo desenvolvidos no continente gelado: quatro relacionados às ciências atmosféricas, quatro na área das ciências da terra e 15 biológicos. As atividades desenvolvidas por muitas das 242 profissões integradas ao Sistema Confea/Crea possuem grandes afinidades com os objetivos do Programa Antártico Brasileiro. As pesquisas sobre os recursos do mar e sobre o reconhecimento hidrográfico e oceanográfico da região correspondem às qualificações profissionais dos engenheiros de pesca; as pesquisas sobre as condições meteorológicas locais e a influência dessas sobre o clima global se incluem entre as qualificações dos profissionais da meteorologia: e os estudos gerais e específicos sobre o meio ambiente antártico correspondem ao campo de trabalho dos engenheiros ambientais.

Além dessas, inúmeras outras modalidades profissionais estão envolvidas na implantação da infra-estrutura de trabalho na Estação Antártica Brasileira: engenheiros civis, eletricistas e industriais. Segundo o presidente do Sistema Confea/Crea, Wilson Lang, também interessa pesquisar as possibilidades de desenvolvimento da atividade da agronomia na região, objeto do trabalho dos engenheiros agrônomos, bem como estudar as tipologias arquitetônicas e os respectivos materiais e equipamentos necessários para assegurar a atividade humana na região, com as mínimas condições de conforto.

Lang explica que essas razões justificam, de um lado, a necessidade do Programa Brasileiro, contando com a participação desses profissionais para a plena consecução dos objetivos. “Com toda a certeza, a participação do Sistema nos trabalhos do Proantar estará contribuindo para viabilizar uma maior eficácia social desse sistema profissional”, afirma o presidente.

O glaciologista Jefferson Cárdia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é um dos mais antigos e experientes pesquisadores antárticos brasileiros. Em seu trabalho realizado na Ilha Deception, Cárdia investigou as últimas erupções ocorridas na ilha através das camadas de lava vulcânica petrificada que se acumulou. Com a da pesquisa, ele poderá traçar uma espécie de raio-X do fenômeno não só em Deception, como em outros vulcões em atividade.

Na Estação Primavera, o geofísico Jandyr Travassos, do Observatório Nacional, buscava fazer a radiografia do glaciar mais próximo. Com essa ação, Travassos deseja traçar um paralelo entre o que a geleira perde com o derretimento e o que ganha com a precipitação em forma de neve. Com isso, ele pretende descobrir, ou pelo menos ter uma pista, de quanto a Antártica está sendo afetada pelo aquecimento global.

Essas pesquisas influenciam todas as nações da Terra diretamente. Está provado cientificamente que a região polar antártica rege o clima em boa parte do mundo, especialmente no hemisfério sul. No caso do derretimento das geleiras, por exemplo, se isso viesse a acontecer, os mares subiriam aproximadamente 70 metros em todo o planeta.

 

Impressões

Os empresários catarinenses Marcelo Petrelli e Mário Petrelli Filho foram conferir de perto o contraste entre a beleza e os problemas da magnitude antártica. Os irmãos Petrelli acompanharam a 20ª Expedição do Programa Antártico Brasileiro ao continente gelado. O objetivo dos empresários era fazer matérias sobre a fauna, a flora e principalmente sobre a infra-estrutura brasileira na Antártica, com exclusividade para o SBT de Florianópolis. Para realizar o projeto, foi necessário aguardar quase um ano de análises do projeto, além de exames físicos e psicológicos. Foi a primeira emissora de TV do Sul do Brasil a ir à Antártica retratar a beleza, a selvageria e principalmente a organização brasileira no Continente Antártico. Mário e Marcelo ficaram impressionados com a abundância da fauna e flora do local. A disciplina, a organização e o profissionalismo dos pesquisadores brasileiros também surpreenderam os irmãos. Porém o que mais emocionou os marinheiros de primeira viagem foi a relação amistosa, pacífica e interativa entre os países na Antártica. O continente não tem fronteiras. O Tratado da Antártica, em vigor desde 1961, estabeleceu como área de aplicação o sul do paralelo 60ºS e definiu que essa região seria usada somente para fins pacíficos, com liberdade de pesquisa científica e promoção da cooperação internacional no continente, proibição de qualquer atividade de natureza militar, congelamento de reivindicações territoriais, proibição de explosões nucleares e de deposição de resíduos radioativos e preservação do ecossistema antártico. Armas são proibidas, somente pesquisas são permitidas. Todas as bases estão preparadas para receber quem quer que seja. Para os empresários, esta é a grande lição que o continente tem para o mundo. “Se na Antártica é possível, porque isto não pode acontecer no restante do mundo”, declara Marcelo Petrelli. No Estreito de Gerlach, em plena Península Antártica, os empresários viram florescer as imagens que mais representam a vida e a riqueza antárticas. Segundo Mário, o contato com a beleza do estreito deu-lhes a dimensão da responsabilidade humana para se preservar e investir no equilíbrio antártico.

 

A Antártica em números
  • • O Continente Antártico constitui quase 10% da área continental do planeta, ou seja, 14 milhões de quilômetros quadrados, aproximadamente o tamanho da América do Sul.

    • 98% do Continente Antártico está coberto de gelo e de neve durante todo o ano, com uma espessura média de 2 mil metros que, em algumas regiões, pode ultrapassar 4.800 metros.

    • O gelo da região Antártica representa 90% de toda a água doce do planeta.

    • No inverno, pelo congelamento dos mares em sua volta, a área do Continente Antártico aumenta para cerca de 32 milhões de quilômetros quadrados, formando um cinturão de cerca de um mil quilômetros de largura.

    • As temperaturas médias anuais va-
    riam de 0ºC (verão) a -15ºC (inverno) no litoral e de -32ºC (verão) a -65ºC (inverno) no interior do continente.

    • A menor temperatura já registrada foi de -89,2ºC.

    • A velocidade média do vento na região costeira da Terra Adélie é de, aproximadamente, 69 quilômetros por hora, e a velocidade máxima já registrada foi de 192 quilômetros por hora.

    • O Continente Antártico é o único em que o homem não viveu antes da implantação de estações baleeiras ou científicas.

    De toda a sua enorme área continental, apenas uma fração insignificante é ocupada por cerca de 50 estações científicas.

 

 

   

 

 

    
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