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  Rota do caos

As estradas da Região Nordeste são o retrato do descaso e da falta de compromisso com o desenvolvimento regional. Mais de 50% da extensão das rodovias nordestinas foi enquadrada nas categorias “ruim” e “péssima”

O desenvolvimento do sistema de transportes no Brasil está intimamente ligado à evolução da economia brasileira. No período colonial, os caminhos e trilhas eram abertos pelos indígenas, bandeirantes e jesuítas, partindo do litoral em direção ao interior. Os rios tiveram importante papel como vias de comunicação e integração territorial, sendo muito utilizados pelos bandeirantes. No Nordeste, a pecuária também fez surgir muitos caminhos. No entanto, as estradas brasileiras nem sempre acompanharam o crescimento econômico. Segundo dados do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), nos últimos dez anos, a malha rodoviária federal precisaria ter aumentado pelo menos quatro vezes mais para acompanhar o desenvolvimento econômico e a expansão da frota do país.

A última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelou que 75% – três quartos – das melhores rodovias estão nas Re-giões Sudeste e Sul, e 80% das estradas em piores condições de tráfego encontram-se no Nordeste brasileiro. Os resultados da Pesquisa Rodoviária 2001 mostraram que o esforço de adequação das rodovias nacionais ainda se encontra distante dos patamares desejáveis em um sistema viário: segurança, adequação à capacidade de fluxo e eficiência de transito.

Existem dados alarmantes relativos às rodovias pesquisadas: 52,2% da extensão encontra-se com pavimento em estado deficiente, ruim ou péssimo (23.667 km); 38,4% da extensão não está sinalizada de forma adequada (17.396 km); um quinto da extensão pesquisada não possui acostamento (9.942 km); e um quarto da extensão está com placas cobertas pelo mato (10.599 km). Com os resultados da pesquisa, a CNT posicionou-se claramente no sentido de se ampliarem os debates com a sociedade brasileira sobre as condições de nossas estradas, já que o desenvolvimento do país não pode prescindir do transporte rodoviário eficiente.

A análise das piores estradas federais no Brasil confirma a crise nas estradas federais nordestinas. A Região Nordeste possui 430.655,6 km de estradas, dos quais apenas 41.763 km são pavimentados. A falta de um programa de conservação das estradas, o excesso de peso dos caminhões devido à falta de postos rodoviários ou de passagem e o asfalto de má qualidade que foi aplicado na maioria das estradas são as principais causas de degradação das rodovias em todo o país. As rodovias do Nordeste em geral são precárias, com algumas exceções. As principais vias de escoamento e transporte de carga rodoviária da região são efetuadas pela BR-116 e pela BR-101.

A BR-407, que faz a ligação de Juazeiro a Salvador, combinada com a BR-324, é considerada a pior de todas. A BR-407 foi implantada e pavimentada em 1968. É um impor-tante segmento rodoviário de ligação entre o Sudeste e o Nordeste, servindo ao pólo hortifrutigrangeiro da Região de Juazeiro/Petrolina(PE). Segundo Hélio Cavalcante Reis, atual coordenador da 5ª UNIT do DNIT na Bahia, essa rodovia terá papel decisivo e fundamental no transporte intermodal que inclui a hidrovia do Rio São Francisco (porto em Jua-zeiro), e o transporte ferroviário (Ferrovia Centro–Atlântico).

Outra rodovia federal na Bahia que está em péssimas condições é a BR-110, a ligação de Salvador a Paulo Afonso. Coincidentemente, ambas conduzem ao Rio São Francisco. Os assaltos que acontecem na BR-242 se devem ao fato de que ônibus e caminhões de carga são obrigados a trafegar a menos de 10 km/h, causando prejuízos aos transportadores, pessoas e empresas. Segundo Hélio Cavalcante, a rodovia é uma importante via de penetração para o oeste baiano, fazendo ligação com o planalto central (Goiás). Além disto, propiciou a conquista do cerrado, transformando a região em grande produtora de grãos (1.500 milhões de toneladas/ano). O coordenador reconhece o estado ruim das estradas baianas, porém afirma que já existem programas de manutenção e recuperação em desenvolvimento.

No Piauí, Maranhão, Ceará e Bahia há risco de rodovias ficarem interrompidas devido ao alto grau de deterioração. O caos nas estradas aumenta o número de acidentes e eleva o consumo de combustível. Muitas das 6.500 mortes ocorridas nas estradas federais em 2000 poderiam ter sido evitadas. Na Bahia, a velocidade nos trechos piores não passa de 10 km/h, o que favorece as ações de quadrilhas espe-cializadas em roubo de carga.

O fenômeno mais recente é a falência do comércio e dos serviços em cidades às margens das rodovias federais. No Piauí, os prefeitos de Campo Maior e Cocal de Telha, duas cidades do interior do Estado, tiveram de decretar estado de emergência. Além disso, com a deterioração da BR-343, os turistas que costumavam passar pelas duas cidades em direção às praias do Ceará mudaram de rota. Como resultado, o comércio local quebrou. Em Jacobina (a 248 km de Teresina), ficou isolado depois que o trecho da rodovia BR-407 ficou intrafegável.

O descompasso do Nordeste, em face do desenvolvimento do Sudeste e do Sul do país, resulta de fatores estruturais, muitos dos quais remontam ao modelo de exploração colonial e de concentração dos esforços de crescimento econômico na Corte e em suas províncias do Sul-Sudeste. A seca costuma ser invocada para justificar o atraso e a fome. Na verdade, ela apenas aumenta e generaliza as carências, escondendo os fatores estruturais que a provocam. O corte dos recursos públicos paralisou a ampliação da infra-estrutura da região e sucateou o pouco que existia.

PRINCIPAIS RODOVIAS FEDERAIS DO NORDESTE:

BR–101 ou Rodovia Governador Mário Covas – Extensão: 4.125 km. Passa pelas cidades de Touros (RN), Natal (RN), João Pessoa (PB), Recife (PE), Maceió (AL), Aracaju (SE) e Feira de Santana (BA).
A BR-101 tem servido principalmente ao desenvolvimento do Sul da Bahia, seja como via de escoamento da produção agrícola, como, por exemplo, o cacau e também produtos industrializados, que têm como origem e/ou destino os centros produtivos da própria região ou de outras regiões do Estado e do país. Nessa rodovia, circulam diariamente também centenas de veículos transportadores de produtos perigosos.

BR–230 – Extensão: 3.202 km. Passa pelas cidades de Cabedelo (PB), João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Picos (PI), Balsas (MA), Carolina (MA), Marabá (PA) e Altamira (PA). Também chamada de Transamazônica, a rodovia foi planejada para cruzar o Estado da Amazônia de leste a oeste e conectá-lo à Região Nordeste.

BR–242 – Extensão: 1.583 km. Passa pelas cidades de Seabra (BA), Ibotirama (BA) e Barreiras (BA).
A BR-242, juntamente com a BR-020, completa a ligação Brasília–Salvador e passa por importantes cidades do Estado, como Barreiras, Ibotirama, Itaberaba e outras. Nessas rodovias, são transportados, além dos produtos agrícolas, vários outros que têm como destino, principalmente, o município de Barreiras e a região central do país. Nessa estrada, circulam alguns produtos perigosos, principalmente os combustíveis em geral e o ácido sulfúrico, que é largamente utilizado na fabricação de fertilizantes.

BR–222 - Extensão: 1.421 km. Passa pelas cidades de Fortaleza (CE), Piripiri (PI), Santa Inês (MA) e Marabá (PA).

BR–020 – Extensão: 1.386 km. Passa pelas cidades de Picos (PI) e Fortaleza (CE). De rodovia de integração do Nordeste com o Centro-Oeste e o Sudeste do país, transformou-se na maior via de escoamento da soja do oeste baiano e serve de via para a movimentação dos produtos perigosos já referidos.

BR–407 - A BR-407, juntamente com a BR-324, completa a ligação de Salvador com Juazeiro, que fica à margem do Rio São Francisco, e com o centro da Região Nordeste, especialmente as cidades de Petrolina (PE), Picos (PI) e Crato (CE). Essa rodovia federal é também responsável pelo abastecimento de parte dos combustíveis da base da Petrobras em Juazeiro. Nessa rodovia, também circulam veículos que transportam outros produtos perigosos que têm como origem e/ou destino municípios da Região Norte do Estado ou outros localizados na Região Nordeste do país.

“O esforço de adequação das rodovias nacionais ainda se encontra distante dos patamares desejáveis”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O caos nas estradas aumenta o número de acidentes e eleva o consumo de combustível”

 

    
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