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  Tecnologia, soberania, cidadania e mercado

Tecnologia, Soberania, Cidadania e Mercado foram os temas que dominaram a 59ª Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia, de 26 a 29 de novembro passado em Goiânia. Cerca de 1.500 profissionais de todo o Brasil, entre lideranças de entidade e políticas, discutiram e buscaram alternativas para a inserção das profissões do Sistema Confea/Crea dentro desses temas centrais. Durante quatro dias, os participantes puderam ouvir, de graduados especialistas, importantes avaliações sobre os rumos da globalização e do Brasil, bem como a necessidade da constante atualização, que também foi possível por meio de diversas palestras e cursos oferecidos na SOEAA. Já na abertura do evento, o presidente do Confea, Wilson Lang, deixou clara a opinião do Conselho Federal sobre o valor do aprimoramento permanente: “Vivemos um momento político importante no qual o desenvolvimento tecnológico será a base para a construção da nossa soberania e da cidadania da população brasileira, daí a importância das nossas profissões, que reúnem mais de 850 mil profissionais, para o desenvolvimento do país em todas as áreas”.

O presidente do Confea reassumiu o seu compromisso com as ações de educação continuada e fez um alerta: “Só com a qualificação dos serviços nos imporemos como interlocutores da inteligência técnica deste país. Não é possível construirmos uma sociedade sem que façamos a nossa parte como responsáveis pelo desenvolvimento tecnológico”. A palestra do professor Marco Antônio Dias, da Universidade das Nações Unidas, durante a SOEAA, seguiu a mesma linha. Segundo ele, a formação contínua – “educação para toda a vida” – é a receita para os profissionais poderem atender às demandas do mercado de trabalho dentro de um conceito de interdisciplinaridade como meta de aprendizagem. “O saber, o conhecimento e a informação são os motores da nova sociedade”, destacou.

O valor da multidisciplinaridade profissional também foi apontado pelo consultor do Ministério da Ciência e Tecnologia, engenheiro Eduardo Soriano: “O mercado está aí, cabe ao profissional transformar as ameaças em oportunidades, mantendo uma atualização permanente e ampliando suas habilidades e competências”. Soriano aproveitou a oportunidade para sugerir ao Confea que desenvolva programas para tornar os profissionais mais flexíveis a essas mudanças e exerça uma maior interferência na formulação de políticas públicas para ciência e tecnologia, divulgando os novos perfis do profissional que a sociedade exige. Segundo ele, o mercado quer um profissional que atue em várias frentes, com visão ampla de mundo, criativo, com capacidade de inovação, que trabalhe em equipe, que domine a gestão do saber e a tecnologia da informação.

Na opinião de Marco Dias, não basta desenvolver o conhecimento, é preciso colocá-lo em prática por meio da maior interação entre as universidades e as empresas. “Muitas vezes, esse casamento é difícil, mas ele é necessário”, comenta. O professor da Universidade das Nações Unidas defende ainda o modelo de estímulo ao empreendedorismo, para que os jovens possam conceber as próprias empresas, com o apoio de incubadoras empresa-riais dentro e fora das faculdades. “O emprego tende até a desaparecer, ocorrendo a criação de novos modelos de empresas com os próprios empresários assumindo totalmente o controle”, previu o especialista. “Daí a necessidade cada vez maior de aprendermos a buscar soluções”, completou Dias. Ele lembrou que o Brasil tem abundância de recursos naturais e de energia, mas importa muita tecnologia, e fez um alerta ao novo governo federal que assumiu em janeiro: “Um país que quer ser uma nação não pode deixar a pesquisa de fora, pois a diferença entre o sucesso e o fracasso é a capacidade de produzir ciência e tecnologia”.

 

Investimento em pesquisa é ainda pequeno

Os números apresentados pelo economista André Amaral de Araújo, do Ministério da Ciência e Tecnologia, reforçam o alerta. Segundo ele, o Brasil investe cerca de 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra 2,5% dos Estados Unidos e da Europa e 3,2% do Japão. Só os Estados Unidos investem cerca de 270 bilhões de dólares por ano em pesquisa e inovação, cerca de 50 vezes mais que o Brasil. O fato se repete na iniciativa privada. Enquanto as empresas nacionais investem cerca de 35% do faturamento em pesquisa, nos Estados Unidos o valor chega a 70%. “É na empresa que a tecnologia se transforma em inovação”, lembrou. Araújo destacou a importância do Sistema Nacional de Inovação, que reúne empresas, universidades e instituições na mudança dessa realidade e citou como dado positivo o desenvolvimento, só no último ano, de 15 projetos para instalação de parques tecnológicos em vários Estados. “Isto é importante, pois o conhecimento passou a ser o eixo-chave do desenvolvimento e tem de ser transformado em informação e inovação e estar descentralizado.”

Na visão de André de Araújo, com mais investimentos em inovação, o Brasil também estará aplicando em cidadania e soberania. “É preciso definir as prioridades. Temos a chance de enfrentar o desemprego com desenvolvimento de tecnologia na área social em inúmeros campos como habitação, infra-estrutura, engenharia sanitária e urbanismo. Não podemos depender de empréstimos internacionais para isso. A tecnologia deve estar a serviço do desenvolvimento social,” destacou.

A temática do desenvolvimento tecnológico passa necessariamente pela globalização e este foi um dos seminários mais prestigiados da SOEAA. O ex-presidente mundial do Banco de Boston, engenheiro civil Henrique Meirelles, único brasileiro a presidir uma instituição financeira interna-cional, acredita que a formação acadêmica no Brasil é de boa qualidade e prepara profissionais e empresas para a competitividade global. Ressaltou, no entanto, que tanto as universidades quanto as empresas de tecnologia precisam estar focadas na realidade: “É preciso saber o que a sociedade nacional e internacional pensa e deseja e atuar dentro desses parâmetros”, ressaltou, defendendo o acesso à informação como fonte de desenvolvimento. “A economia está cada vez mais dinâmica, competitiva e crescendo de forma globalizada, onde quem tem informação e tecnologia leva vantagem”, completou.

 

Parcerias na busca do mercado mundial

Já o engenheiro Ruy Carlos Camargo Vieira, professor da USP e consultor do PNUB, das Nações Unidas, acredita que as universidades nacionais podem contribuir para uma maior e melhor inserção dos profissionais brasileiros no mercado mundial se também “globalizarem os currículos”. Nesse sentido, o Confea já vem fazendo a sua parte, garante a gerente de relações institucionais do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia. A multiprofissional engenheira, arquiteta e advogada Carmen Eleonora Cavalcanti Soares citou como exemplo as parcerias que estão sendo feitas com instituições profissionais de outros países, abrindo mercado para os brasileiros competirem com maior grau de igualdade no exterior.

“A saída para o Brasil é realmente buscar outros mercados”, afirmou o economista e professor da UNB, Ricardo Caldas, durante a conferência “O Brasil no Cenário Mundial”. Ele foi taxativo ao dizer que o país passará por dificuldades se voltar suas atenções apenas para o Cone Sul. “Nossa capacidade de exportação é grande e é preciso haver mercados compradores”, ressaltou, apontando o ingresso do Brasil na ALCA (Associação para o Livre Comércio nas Américas) e o crescimento nas negociações comerciais com os Estados Unidos como alternativas. “As exportações geram emprego e renda em todos os segmentos, em especial na indústria da tecnologia e para ampliar as vendas ao exterior, o país deve fazer parte do maior número de blocos possível e ter aceso a mais mercados compradores”, justifica o economista, alertando, no entanto, que é preciso se preparar para isso. Segundo ele, não é mais possível fechar o país e viver isoladamente – “não temos mais a opção de produzir apenas para o mercado interno”.

Caldas lamentou que o Brasil exporte apenas 10% do PIB, enquanto a média dos países desenvolvidos é de até 25%. “Isso ocorre não por falta de capacidade, criatividade ou produto e sim por falta de projetos e metas. O Brasil precisa se preparar para o século 21 de maneira mais arrojada e com mais investimentos em educação.” Ele concluiu afirmando que o Brasil tem de se adequar ao cenário da globalização da melhor forma possível, maximizando os ganhos e minimizando os prejuízos.

 

Medalha do Mérito

Três momentos importantes marcaram a solenidade de abertura da 59ª SOEAA: a homenagem aos ex-conselheiros que deixam o Confea, o pronunciamento do governador reeleito de Alagoas, engenheiro Ronaldo Lessa e a entrega da Medalha do Mérito. Honraria do Sistema Confea/Crea a profissionais e instituições de ensino indicados pelos Creas e entidades de classe, que vem se consagrando como um momento elevado da Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia. “É uma justa homenagem pela determinação que sempre tiveram no cumprimento do dever de fazer um Brasil melhor, trabalhando pelo coletivo”, destacou o presidente do Confea, Wilson Lang, estendendo a homenagem a todos os ex-conselheiros federais que deixam o Confea.

Marco Antonio Dias
“Um país que quer ser uma nação não pode deixar a pesquisa de fora, pois a diferença entre o sucesso e o fracasso é a capacidade de produzir ciência e tecnologia”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    
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