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“Gigantesca onda de cidadania” |
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A escalada da mudança
em três anos é enorme, fato confirmado
na terceira versão do Fórum Social
Mundial (FSM), que no próximo ano deixa Porto
Alegre e vai para a Índia fundamentar sua
característica de diversidade. Em termos
políticos, o mais importante é o espaço
conquistado na agenda cultural e política
nacional. O evento nasceu anti-Davos e hoje Davos
é anti-Porto Alegre
Uma usina do pensar, limpa, sustentável e
pacífica, como foi definido o III
Fórum Social Mundial, reuniu em Porto Alegre
(RS), durante cinco dias, de 23 a 27 de janeiro,
cerca de 100 mil participantes entre delegados (mais
de 20 mil representando 5.717 organizações
de 156 países), observadores e ativistas
de todo o mundo. Só no acampamento da juventude,
ficaram hospedadas 25 mil pessoas.
Das 1.286 oficinas realizadas,
três foram de responsabilidade do Sistema
Confea/Crea/Mútua/Entidades Nacionais e fizeram
parte da programação oficial do evento,
tratando, respectivamente, da “Área
tecnológica do Mercosul, o desenvolvimento
social e econômico dos países membros
e sua integração com os demais mercados”;
“Engenharia, arquitetura e agronomia públicas
visando à inclusão social” e
“Sensibilidade e acessibilidade – um
outro mundo com inclusão é possível”.
Representantes do Sistema
– que enviou ao fórum uma delegação
com 20 integrantes entre técnicos, presidentes
de entidades, apoio e jornalistas, comandada pelo
presidente do Confea, Wilson Lang – participaram
também de atividades promovidas por outras
entidades, como a que discutiu o papel dos “Conselhos
e ordens de fiscalização profissional
e sua participação na sociedade civil”,
promovida pela Fenasera (Federação
Nacional dos Servidores das Autarquias de Fiscalização
do Exercício Profissional).
E os números continuam
impressionantes: das manifestações
de rua, onde se ouvia do esperanto ao chinês,
como numa torre de Babel, dois momentos marcantes:
quando da abertura, que levou 70 mil manifestantes
ao encontro do presidente Luis Inácio Lula
da Silva, e no fim da tarde do último dia
do evento, quando de vários pontos l30 mil
pessoas saíram caminhando pela paz, como
que abraçando a cidade, numa rara manifestação
de solidariedade, fazendo acreditar que um outro
mundo realmente é possível.
Além do impacto na
agenda política nacio-nal, o III FSM interferiu
na economia local onde cerca de US$ 25 milhões
foram injetados. Volume de dinheiro bem maior que
o registrado nos custos diretos do evento, US$ 3,48
milhões, bancados por diversas fundações,
que chegariam a US$ 5 milhões não
fosse a colaboração dos 650 voluntários.
Os custos indiretos, como hospedagem e publicidade,
foram custeados pelos governos estadual e municipal.
Para informar sobre toda
essa movimentação predominantemente
marcada pelo repúdio à guerra e por
manifestações constantes pela paz,
foram credenciados 4.094 jornalistas de 1.423 veículos
de comunicação de 51 países:
“O III FSM recebeu uma cobertura maior que
a de qualquer evento da ONU ou mesmo de final de
Copa do Mundo”, comemoraram os organizadores:
“Ganhamos a batalha da mídia, ganhamos
importância política”.
“O FSM precisa ser entendido como uma usina
do pensar”, defende Cândido Gribóvisky,
do Comitê de Organização. “É
limpa, sustentável e pacífica.”
| Fome
Zero Mundial |
“Um
outro mundo é possível”
A emoção
tomou conta das 70 mil pessoas que reunidas
no anfiteatro do Pôr-do-Sol, em
Porto Alegre, na tarde da sexta-feira,
24 de janeiro, ouviram com atenção
o presidente Luis Inácio Lula
da Silva.
No fim de um
discurso em que falou de sua trajetória
política demonstrando que cumpre
os compromissos assumidos, recebeu milhares
de votos de boa viagem a Davos onde
ele participaria do 33º Fórum
Econômico Mundial. E se despediu
afirmando: “Na Suíça,
defenderei que temos de mudar a direção
dos investimentos, mais em comida e
menos em armas. O mundo não aceita
mais crescimento econômico sem
desenvolvimento social”.
Pouco mais de
48 horas depois, ele cumpriu o prometido.
Num discurso conciliador, propôs
a criação de um fundo
internacional custeado por investidores
internacionais e pelos países
mais desenvolvidos do mundo para financiar
o combate à fome e à miséria
no Terceiro Mundo.
Num gesto considerado ousado pela imprensa
mundial, propôs o programa Fome
Zero Mundial.
Conscientemente,
como um arquiteto e engenheiro político,
começou a construir uma ponte
aproximando ricos e pobres (FEM e FSM).
Foi intensamente
aplaudido, de pé, por uma platéia
formada por representantes das maiores
potências econômicas do
mundo.
É inegável
o carisma e a coragem de um homem, ex-metalúrgico
e líder político, que
há menos de um mês recebeu
seu primeiro diploma na vida, o de presidente
da República do Brasil. |
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Não
à guerra
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Bautista Vidal
diz que escassez de petróleo é
a razão dos ataques norte-americanos
ao Iraque e que o III Fórum Social
Mundial serve de contraponto a Davos. Como
quase todas as atividades do FSM, a primeira
oficina do Sistema Confea/Crea/Mútua/Entidades
Nacionais se transformou num palco de manifestações
contra a guerra
A área tecnológica, o desenvolvimento
social e econômico dos países
membros do Mercosul e a relação
com outros mercados” foi o tema da primeira
oficina promovida pelo Sistema Confea/Crea,
em Porto Alegre, sexta-feira 24/01, dentro
da programação oficial do III
FSM. Os três palestrantes escalados
para desempenhar a tarefa foram o governador
Ronaldo Lessa (PSB/AL), engenheiro, Bautista
Vidal, engenheiro, físico nuclear,
escritor e ex-secretário do Ministério
de Ciência e Tecnologia, e Ciro Laurenza,
também engenheiro e diretor do Sinaenco
(Sindicato Nacional das Indústrias
de Engenharia e Arquitetura Construtiva).
Prestigiada pela presença
de Frederico Antunes, eng. agrônomo
e secretário estadual de Obras e Saneamento,
representando o governador do Rio Grande do
Sul, Germano Rigotto, a oficina teve nas colocações
de Bautista Vidal um dos seus momentos mais
marcantes. “O III FSM, disse, serve
de contraponto a Davos – cidade suí-ça
que sedia o Fórum Econômico Mundial
reunindo representantes dos países
mais ricos do mundo, um grupo tenebroso, que
coloca no dinheiro o poder de tudo, destroçou
a Argentina e ameaça nosso país.”
Potência
Recém-saído de uma cirurgia
cardíaca, aproveitou para anunciar:
“Meu coração está
novo, e hoje volto para a briga. Não
perdoarei os inimigos do Brasil”.
Ele acredita que um
futuro mais promissor para o Mercosul depende
do aprofundamento na inter-relação
dos países membros e preferiu fazer
sua apresentação criticando
o clima bélico que paira no ar em função
da iminência de um ataque dos EUA contra
o Iraque.
“O mundo está
em guerra, e a escassez de petróleo
é a razão dela, seja no Afeganistão
ou na Venezuela.”
Em seu discurso antibelicista,
o ex-ministro justificou as investidas norte-americanas
contra países produtores de petróleo,
como o país de Saddam Hussein, na razão
direta da escassez de suas reservas, que só
fornecerão a matéria-prima por
mais quatro anos. Chamou a atenção
para a insuficiência de minerais na
União Européia e no Japão,
afirmando que a nova solução
vem dos trópicos. “A fricção
nuclear é uma barbaridade. O sol, um
reator natural, por sua alta incidência
no país, transforma o Brasil em potëncia
nuclear do planeta.”
Bautista Vidal, como
a totalidade dos participantes do III FSM,
quer mudanças, logo. “Precisamos
urgentemente de um projeto concreto de nação,
considerando nosso território, nossas
riquezas e a dignidade dos cidadãos
brasileiros para não trilharmos o caminho
da Argentina. Nós temos minérios.
Temos 24% da água doce do mundo e a
certeza de que o medo não pode engolir
a esperança.”
Benefícios
Ciro Laurenza, por sua vez, falou sobre o
desenvolvimento tecnológico e a situação
da engenharia na sociedade global.“A
tecnologia precisa franquear a entrada das
comunidades mais pobres num mundo melhor”,
afirma. Para ele, dentre todas as engenharias,
a “da computação é
a que está mais próxima de nós
e traz benefícios inegáveis
para a melhoria da qualidade de vida, já
que apresenta soluções técnicas
com bons resultados na saúde, na economia
e no meio ambiente”.
Ronaldo
Lessa focou a importância da presença
de técnicos nos governos e a diminuição
de índices importantes como o da mortalidade
infantil. Para o público formado por
profissionais da área tecnológica
que lotou o plenário do Crea-RS, destacou
que “oito engenheiros, inclusive o vice-governador
Luiz Abílio (PSB), e nove mulheres
estão à frente de órgãos
estaduais”.
Criticou a série
de privatizações de empresas
que nunca deram prejuízo, realizadas
pelo governo anterior, e afirmou que “é
preciso colocar a tecnologia a serviço
da humanidade e não trabalhar a ciência
pela ciência”. O governador, que
defende a parceria com universidades e garante
a aplicação de 2% da arrecadação
estadual em pesquisas, acredita que o Fome
Zero “é um projeto fantástico
pela indignação que revela”,
mas disse que é preciso tomar cuidado
e lembrar do poeta Luiz Gonzaga: “Se
você dá esmola, vicia ou mata
de vergonha o cidadão”. |
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Habitação
digna
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Como trazer
as habitações precárias
de grande parte da população
brasileira para a perspectiva de uma habitação
digna? Esse é um dos grandes desafios
identificados na Oficina “Engenharia,
arquitetura e agronomia públicas, visando
à inclusão social”, realizada
pelo Sistema Confea/Crea/Mútua/Entidades
Nacionais durante o
III Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre
Parte significativa das cidades brasileiras
é formada pela produção
informal de habitações, casas
construídas sem nenhuma orientação
técnica. “A população
não pode se conformar em morar em favelas,
em áreas de riscos. Temos um déficit
qualitativo que precisa ser atacado”,
defendeu o coordenador do Projeto Moradia,
do Instituto de Cidadania, arquiteto Nabil
Bonduki, um dos palestrantes.
O último senso
do IBGE (2000) apontou a necessidade de 6
milhões de novas moradias e revelou
que, das existentes, 12 milhões possuem
diferentes tipos de problemas qualitativos.
“Nesse sentido, o desafio da assessoria
técnica é de grande dimensão”,
identificou o arquiteto.
Com relação
ao qualitativo, Bonduki receita a melhoria
da qualificação profissional,
no que se refere a pesquisas de soluções,
somada à criação de leis
que possibilitem condições de
enfrentar esse desafio. “Necessitamos
da estruturação de políticas
públicas e programas financiados pelo
Estado para resolver os déficits habitacional
e qualitativo das habitações.
Nossa história da busca de soluções
para esses problemas é marcada pelo
voluntarismo e pela militância”,
disse.
O arquiteto defende
que isso passe a ser feito com compromisso
profissional, o que envolve a remuneração
dos profissionais e melhor formação,
fatores dependentes da criação
de programas para esse fim pelos governos
municipal, estadual e federal. “Aí
teremos uma ação concreta de
milhares de profissionais formados que terão
oportunidade de trabalhar e resolver problemas
que contribuem para uma baixa qualidade de
vida da população”, esclareceu.
Na avaliação
de Bonduki, a contribuição dos
conselhos e entidades profissionais é
muito importante para isso. “Nossas
categorias profissionais são muito
dispersas, depois de formados não temos
grandes pólos de aglutinação.
As entidades podem ser um excelente espaço
para aglutinar esses profissionais, encubar
a formação de grupos que possam
atuar nas áreas de favelas, de exclusão
social. Podem também ter um papel importante
na qualificação profissional
e ainda na troca de experiências para
que se possa avançar no sentido de
garantir um programa de assessoria técnica
no país. Têm também papel
muito importante junto ao poder público,
porque sabemos que, sem recursos, um programa
desse tipo não poderá ser implementado.
O papel político dos conselhos e entidades
é fundamental para que seja dada prioridade
a esse tema”, ressaltou.
Favelas
O diretor do Instituto de Arquitetos do Rio
de Janeiro (IAB-RJ), arquiteto Jerônimo
de Moraes Neto, expôs a experiência
carioca do Programa de Apoio às Populações
Desfavorecidas nas Regiões Metropolitanas
(APD-Rio). O programa é um convênio
entre a União Européia e a Prefeitura
do Rio de Janeiro através da Secretaria
Municipal de Educação. É
multidisciplinar e faz várias intervenções
em cinco favelas do Rio, na área de
desenvolvimento social, geração
de renda, regularização fundiária,
urbanização e melhorias habitacionais.
O sub-programa de melhorias habitacionais
é realizado pelo IAB-RJ, com a participação
de arquitetos jovens e profissionais mais
experientes, que atuam na orientação.
“As intervenções
ainda são experimentais. O programa
só tem 18 meses de existência,
já está formando a segunda turma
de arquitetos residentes, atendeu 400 famílias
e as obras estão concluídas
em cerca de 100 residências dessas favelas”,
informou Moraes Neto.
Questionado sobre
a receptividade da população
das favelas, ele explicou que existe uma articulação
fundamental com outros programas sociais.
“Fazemos capacitação social
com os arquitetos para eles terem noção
dos problemas sociais que vão encontrar,
como, por exemplo, dez pessoas morando num
mesmo quarto, crian-ças doentes, pessoas
idosas, enfim uma série de situações
que só as disciplinas da faculdade
não os habilitam a enfrentá-las”,
enfatizou.
Crédito
habitacional
De acordo com a gerente de produtos da área
de desenvolvimento urbano da Caixa Econômica
Federal (CEF), Márcia Kummer, a maior
parte da demanda habitacional brasileira está
fora do crédito habitacional. Ela afirma
que a CEF tem procurado inserir em todos os
programas o envolvimento social da comunidade
por meio dos técnicos sociais, que
é uma rede de profissionais capacitados
com entendimento de políticas públicas.
Mas admite que ainda não é suficiente.
Na opinião
de Kummer, a demanda dos serviços de
assistência técnica é
uma questão fundamental das políticas
públicas. Ela acredita que a implantação
dessas políticas pode contribuir diretamente
para o combate à fome e fazer parte
do Programa Fome Zero do governo Lula. “Moradia
gera emprego e é nela que o ser humano
realiza suas atividades fundamentais. No programa
Fome Zero, devem acontecer várias ações
articuladas, que cheguem a um programa de
desenvolvimento sustentável.”
Com relação
a crédito habitacional, Kummer aponta
o Programa de Subsídio de Elaboração
de Interesse Habitacional, da CEF, como um
dos mais aptos a receber modificações
e resolver o problema. Mas ela ressaltou que
a Caixa visa a trabalhar com programas integrados
e já solicitou ao Fórum de Prefeitos
uma avaliação dos já
existentes e sugestões de melhora.
Convênio
A última palestra da oficina foi realizada
pelo arquiteto Eduardo Bimbi, coordenador
do Colégio de Entidades Nacionais (CDEN)
e presidente da Federação Nacional
dos Arquitetos (FNA), e pela arquiteta Valeska
Peres Pinto. Eles falaram sobre a universalização
da assistência técnica, também
chamada arquitetura pública, e anunciaram
o convênio que a FNA está fazendo
com a CEF sobre essa questão.
Bimbi também
tocou na tecla de que até hoje o trabalho
tem sido voluntário e que já
há um entendimento universal de que
essa atividade profissional tem de ser valorizada.
“Uma política urbana que parta
do reconhecimento do direito essencial à
moradia tem vários instrumentos para
uma reforma urbana, um deles é a assistência
técnica para a habitação”,
disse.
Valeska Peres Pinto
explicou que o convênio visa a construir
um leque de alternativas para responder às
diferentes demandas de assistência técnica.
“Nossa intenção foi juntar
tudo que já existe e fazer um arcabouço
de alternativas. Vamos montar um conselho
para ficar à frente desse convênio,
visando a transformar essa vontade militante
em exercício profissional.”
| Papel
social do Conselho |
Representado
pela eng. civil Elequicina dos
Santos, presidente do Crea-RN
e atual secretária de Transportes
da prefeitura de Natal, o Sistema
Confea/Crea participou da oficina
sobre “Conselhos e ordens
de fiscalização
profissional e sua participação
na sociedade civil”, realizada
no domingo, 26 de janeiro, na
sede da PUC/RS, promovida pela
Fenasera (Federação
Nacional dos Servidores das Autarquias
de Fiscalização
do Exercício Profissional),
dentro da programação
oficial do III Fórum Social
Mundial.
Como exemplo
das ações promovidas
pelo Sistema junto à sociedade,
Elequicina falou sobre o projeto
Engenharia, Arquitetura e Agronomia
Públicas, que se desenvolve
em diversos Estados, através
das prefeituras, sob coordenação
do Crea local e que tem no Rio
Grande do Norte, por meio do Nossa
Casa, uma das experiências
mais bem-sucedidas.
Depois
de fazer um resumo sobre o Sistema
que representa 850 mil profissionais
da área tecnológica
de todo o país e sua atuação
em diversas áreas, Elequicina
destacou que “implantar
engenharia, arquitetura e agronomia
públicas em todos os Estados
é uma das metas da atual
presidência do Confea, a
cargo do eng. Wilson Lang.
Citando
o Estatuto da Cidade, que garante
assistência técnica
e jurídica às populações
de baixa renda, a presidente do
Crea-RN disse que o Programa de
Engenharia e Arquitetura Pública
“tem o princípio
de criar uma cultura de utilização
da terra urbana, adequada aos
aspectos técnico, legal,
de segurança e estabilidade
das construções
numa cooperação
entre órgãos municipais,
instituições de
ensino e entidades profissionais”.
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Busca
da inclusão
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Dezenas de
portadores de deficiência, profissionais,
estudantes e vários outros atores sociais
lotaram o espaço para a discussão
sobre as formas de pensar um mundo que respeite
as diversidades existentes e construa condições
iguais de oportunidades para todos
"É a percepção do
problema por um grupo de profissionais que
há muito tempo nós buscávamos
e que estivessem envolvidos na luta pelo direito
das pessoas que por algum motivo não
têm a mesma facilidade de acesso que
as outras.” Foi assim que a coordenadora-
geral da Corde (Coordenadoria Nacional para
Integração de Pessoas Portadoras
de Deficiência), a paraplégica
Isabel Loureiro Maior, definiu a concorrida
oficina “Sensibilidade e acessibilidade
– um outro mundo com inclusão
é possível”, realizada
pelo Sistema Confea/Crea/Mútua/Entidades
Nacionais, dentro do III Fórum Social
Mundial.
Isabel Maior lembrou
que os portadores de deficiên-cia têm
dificuldades para algumas coisas, não
para todas, e conclamou: “É importante
que não caiamos na cilada de nos considerarmos
sem qualificação, impossibilitados
de exercermos um trabalho, e lutemos para
termos direito à acessibilidade, que
é bem mais que o direito de ir e vir,
é poder conviver”.
Na opinião
da coordenadora, um mundo de inclusão
necessita da participação de
todos os atores sociais, que devem reconhecer
as diversidades existentes e buscar a equiparação
de oportunidades. Ela ressaltou que compete
à Corde – ligada à Secretaria
Especial dos Direitos Humanos da Presidência
da República – a articulação
intersetorial das ações governamentais
nessa área.
Para Isabel, os conselhos
profissionais têm papel importante no
sentido de implementar, fiscalizando e fazendo
entender as normas técnicas que visam
a melhorar o acesso das pessoas portadoras
de deficiência, que somam, segundo o
último senso do IBGE (2000), 24,5 milhões
de brasileiros. “Isso significa que
14,5% da população é
beneficiária das leis e dos programas
relacionados à melhoria da qualidade
de vida desse segmento”, disse.
E leis, não
faltam. O marco legal do acervo é a
Constituição da República,
mas existem ainda: a Lei 7853/89, o Decreto,
nº 3298/99, as Leis nº 10048/00
e 10098/00, as Normas Técnicas da ABNT
e as legislações estaduais e
municipais. A coordenadora lembra também
a necessidade da melhoria da formação
profissional no que se refere ao estabelecimento
de linhas de pesquisa para esse setor.
Trânsito
O presidente do Instituto Rua Viva, arquiteto
Nazareno Stanislau, defendeu efetiva mudança
na cultura de transporte. Segundo ele, é
imprescindível que se pare de falar
de trânsito, de transporte e se passe
a falar de mobilidade. A diferença
não é só nominal, traz
no seu bojo a intenção de dar
prioridade ao ser humano em detrimento do
automóvel.
Segundo dados apresentados
pelo arquiteto, os automóveis hoje
utilizam 40% do espaço público,
produzem 40 mil mortos por ano e 360 mil feridos,
dos quais 120 se tornam portadores de deficiência
permanente. Ele atribui tudo isso à
prioridade de investimento e ação
que é dada às necessidades do
automóvel nos grandes centros urbanos,
onde pedestre e ciclista são cidadãos
de segunda classe.
Novo paradigma
A arquiteta Sandra Fagundes Fernandino, especialista
do Ministério Público de Minas
Gerais, falou sobre uma sociedade inclusiva,
planejada para a diversidade, portanto com
acessibilidade a todos. Ressaltou que ocorreu
uma mudança nos conceitos que definem
essa problemática, transformação
que implica positivamente a questão
cultural.
Até a década
de 80, falava-se em integração,
tratamento e reabilitação, esforço
pessoal e unilateral, adaptação
pontual, sociedade imutável. A partir
de então, os termos são inclusão,
modelo social de deficiência, equiparação
de oportunidades, esforço coletivo
bilateral, adequação, mudança
estrutural e administrativa, inserção
total e incondicional. De acordo com novo
paradigma, a deficiência física
é resultante do desajuste entre as
características físicas e o
meio, e este último é que tem
de ser adaptado.
O arquiteto José
Antônio Lanchotti, membro da Corde,
discorreu sobre a capacitação
técnica para acessibilidade ao meio
físico e sobre as barreiras arquitetônicas
e a cidade. Sua palestra visou a despertar
os profissionais, ligados à elaboração
e à execução de projetos,
para as dificuldades de acesso, levando em
conta, entre outras coisas, que nenhum modelo
de cidade é igual a outro.
Mitos e realidades
A coordenadora do programa de capacitação
da Fundação Municipal Francisco
de Paula, Ethel Rossenfeld, deficiente visual,
que tem como olhos o cachorro labrador Jan,
enfatizou os mitos e realidades sobre as pessoas
com deficiência, levantando questionamentos
sobre o que é ser defi-ciente. “Quem
é deficiente, as pessoas ou a sociedade?”,
provocou.
“Deficiência
não é doença, é
geralmente seqüela de uma doença
e não modifica o ser humano em sua
essência, apenas o limita em alguns
aspectos”, fez questão de ressaltar,
endossando as palavras da coordenadora da
Corde, ditas no início da oficina.
Rossenfeld encerrou
sua palestra lembrando que os deficientes
são diferentes, e os espaços
não podem ser iguais. Foi mais fundo
ainda, lembrando que um espaço adaptado
para um cadeirante não é adequado
para um deficiente visual. “Para superar
os preconceitos, é indispensável
esclarecer e envolver a sociedade. É
necessária uma consciência única
de que o país, o mundo, é para
todos”, disse. |
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“O FSM precisa ser entendido como uma usina do
pensar” |

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“As entidades podem ser um excelente espaço
para aglutinar esses profissionais, encubar a formação
de grupos que possam atuar nas áreas de favelas,
de exclusão social” |
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“Quem é deficiente, as pessoas ou a sociedade?” |
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