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  “O agronegócio é a solução”

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Prestigiado politicamente e com grande apoio do setor agrícola, o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues é o atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Nascido em Cordeirópolis, interior de São Paulo, foi um dos organizadores do primeiro Congresso Nacional de Economia Rural, que há 18 anos definiu linhas de desenvolvimento para o agronegócio no Brasil. Este ano, organizou o 1º Congresso Brasileiro de Agribusiness, que discutiu políticas para aumentar a competitividade do país interna e externamente. Nesta entrevista exclusiva para a Revista do Confea, o ministro fala da importância do agronegócio para o Brasil e a posição do governo sobre o tão polêmico assunto dos alimentos transgênicos.

Revista do Confea - Quais medidas estão sendo tomadas para estimular ainda mais o agronegócio, que hoje representa 1/3 do PIB brasileiro, já que sabemos da  sua importância para o Brasil?
Roberto Rodrigues – A marca do agronegócio no governo Lula é um agronegócio forte, sem distinção entre pequenos e grandes, eficiente e competitivo, multifuncional e sustentável. Nossa meta é gerar emprego e riqueza para o país, distribuir renda no campo e na cidade. Vamos trabalhar para ampliar a oferta de alimentos tanto para o mercado interno como para aumentar nossas exportações. O agronegócio brasileiro tem potencial para dar esse salto. Além de representar 29% do PIB nacional, gera 30% de todos os empregos e é responsável por 41% das nossas exportações. A estratégia do governo para estimular ainda mais o crescimento do agronegócio inclui grandes grupos de ações: políticas públicas que garantam renda ao produtor rural; uma organização privada capaz de assumir as responsabilidades que o mercado global exige, de uma forma compartilhada com a ação pública e com uma firme negociação internacional, nos fóruns multilaterais ou bilaterais em que o Brasil defenderá o acesso ao mercado do nosso agronegócio contra o protecionismo dos países. Os desafios nesse caminho também são muitos, e o principal é reduzir as duas principais vulnerabilidades do Brasil: a social e a externa. São fatores que estão segurando o avanço do Brasil rumo ao desenvolvimento sustentado e ampliando os desníveis econômicos e sociais da população. Para vencer esses desafios, as ações do governo, via Ministério da Agricultura, passam pela aproximação com os produtores rurais, usando melhor nossas delegacias federais e ampliando os canais de comunicação interna. Também vamos modernizar os processos técnicos e administrativos, capacitando e aperfeiçoando os recursos humanos e realizando novos concursos públicos. Daremos atenção especial às complexas questões ligadas à sanidade animal e vegetal, condições básicas para a inserção dos produtos do agronegócio no mercado mundial, com rastreabilidade e certificação. Com relação à agricultura familiar, vamos enfatizar a pesquisa agrícola de modo a transferir tecnologias modernas para esse importante segmento do agronegócio. Outro ponto em que o Ministério da Agricultura vai trabalhar é na aprovação da lei do seguro rural, instrumento fundamental para gerar renda no campo.

Revista do Confea - Hoje, quais são as principais barreiras que o Brasil enfrenta para aumentar ainda mais suas exportações nesse segmento? E quais serão os nossos principais mercados?
Roberto Rodrigues – Além das barreiras tarifárias, temos o grande desafio que é derrubar o protecionismo dos países ricos. A visão que temos hoje é de que não há um horizonte claro de redução desse protecionismo. Ao contrário, a Farm Bill americana imposta em 2002 aumenta o protecionismo. Por isso mesmo, tenho dito que o Brasil deve participar da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), desde que os mercados sejam efetivamente liberalizados, principalmente o mercado agrícola. Diante das dificuldades de acordos via Alca, temos como alternativa os acordos bilaterais. Para isso, precisamos investir em tecnologia e na sanidade dos nossos produtos. Isso permitirá que o Brasil conquiste a confiança de mercados importantes como o asiático, que, a partir das dificuldades da inserção dos nossos produtos nos mercados norte-americano e europeu, transformou-se numa nova alternativa viável. Estamos negociando a ampliação do comércio com a China, que é o maior potencial de consumo de alimentos do mundo, com uma população de mais de 1 bilhão de pessoas. Além disso, também temos como potenciais parceiros comerciais países do Oriente Médio.

Revista do Confea - O senhor acredita que o agronegócio seria uma alternativa para os altos índices de desemprego do país?
Roberto Rodrigues – Claro que sim. Hoje, temos no Brasil, 17,7 milhões de pessoas ocupadas na agricultura, cerca de 21% da População Economicamente Ativa (PEA). Mas temos o maior potencial agrícola do mundo. O Brasil cultiva hoje apenas 56 milhões de hectares e tem pelo menos mais 90 milhões de hectares que estão sendo cultivados sem nenhuma incorporação à tecnologia nova, usando a que já está disponível no Brasil, podendo aumentar extraordinariamente sua produção rural. Estamos falando em gerar emprego, porque, a partir da atividade rural, é possível incrementar vários processos industriais.

Revista do Confea -  O sr. tem grande prestígio e apoio por parte dos cooperativistas e produtores rurais, além da sua larga experiência presidindo e liderando associações nessa área. Como acredita que esse apoio irá facilitar a sua gestão?
Roberto Rodrigues – São 30 anos de atuação no setor. Quando o presidente Lula me convidou para assumir o ministério, ele disse que queria priorizar a agricultura e o cooperativismo e via em mim uma pessoa que unia as duas condições. O fato de eu vir do setor rural e cooperativo, acumulando experiências como produtor e dirigente de entidades ligadas ao cooperativismo e ao agronegócio, permite-me uma ampla compreensão sobre a agropecuária brasileira e suas necessidades. Eu fui presidente da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), órgão que congrega 800 milhões de pessoas, através de 250 organizações nacionais de cooperativas. Visitei 79 países e pude perceber as mudanças, sobretudo nos países pobres, no crescimento da exclusão e da concentração da riqueza. São fatores de risco para a manutenção do sistema democrático. O cooperativismo é o contraponto. E o mecanismo capaz de reduzir as desigualdades. E como ministro da Agricultura vou utilizar todo o meu conhecimento para contribuir nesse sentido.

Revista do Confea - Falando sobre os polêmicos alimentos transgênicos, qual é a posição do atual governo em relação a isso, já que a cada ano esse assunto é apresentado com maior ênfase?
Roberto Rodrigues – Atualmente, há um decreto presidencial que cria procedimentos para rotulagem de alimentos com mais de 4% de ingredientes originários de organismos geneticamente modificados (OGM). Mas o governo está tratando o tema com muita cautela. É preciso haver uma definição científica sobre o cultivo de produtos geneticamente modificados. Enquanto não se comprova os efeitos do consumo dos produtos transgênicos, o plantio comercial continua proibido. Foi criado um grupo de trabalho formado por representantes dos ministérios da Agricultura, Meio Ambiente, Segurança Alimentar, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Saúde, Desenvolvimento Agrário e Justiça, sob coordenação da Casa Civil, que terá como tarefa municiar o governo quanto à viabilidade ou não dos transgênicos. O assunto será tratado sem levar em conta questões políticas ou ideológicas. Além dos aspectos da saúde e do meio ambiente, é preciso estudar como o mercado internacional aceita os produtos, haja vista a crescente demanda por alimentos orgânicos. O que sabemos é que o cultivo de transgênicos em todo o mundo cresceu 12% no ano passado, alcançando uma área de 52,6 milhões de hectares.

Revista do Confea - O Brasil é uma das terras mais férteis para se plantar no mundo. Fugir dessa tecnologia da plantação dos alimentos transgênicos, em que ainda não somos tão desenvolvidos quanto outros países, apostar nos alimentos naturais e até mesmo sem agrotóxicos,  não seria uma grande “mina de ouro” para o Brasil?
Roberto Rodrigues – Alguns países da União Européia e da Ásia já manifestaram seu interesse por produtos convencionais. A China, por exemplo, maior importador mundial de soja, importa o grão geneticamente modificado, mas, entre o convencional e o transgênico, dá preferência ao convencional. O Brasil é uma grande potência agrícola, e creio que há espaço para os dois sistemas. Entretanto, é necessário definir claramente as regras para plantio e comercialização, de forma que quem consumir o produto saiba das suas características por meio da rotulagem.

Revista do Confea - Como o sr. vê a importância de profissões nas áreas da engenharia, agronomia e arquitetura e como esses profissionais e o Sistema Confea/Crea poderão contribuir com o Ministério de Agricultura?
Roberto Rodrigues – Eu sou agrônomo de formação e tenho a exata noção da importância dessa categoria na agricultura brasileira. Essa importância também está afeita aos profissionais de arquitetura e engenheira civil. Em mercados como o brasileiro, onde a demanda por novas tecnologias e o aprimoramento daquelas existentes é cada vez maior, os profissionais engenheiros, arquitetos e agrônomos têm alavancado de forma inequívoca o processo produtivo. No Brasil, onde se conta com escolas de excelente nível que privilegiam o aprender e o ensinar, temos nos deparado com uma comunidade técnica de engenheiros e arquitetos do mais alto gabarito. São profissionais que atuam, efetiva e decisivamente, tanto no campo da pesquisa, desenvolvendo a modelagem de novos processos e equacionando novos problemas, quanto na implementação de soluções que aliam técnicas e conhecimentos de vanguarda. A agricultura brasileira tem se valido, continuamente, do espírito de pesquisa, empreendedorismo e visão privilegiada desse tipo de profissional. É de fundamental importância a participação de todos os seguimentos da sociedade civil organizada na formulação das políticas públicas. O governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, dispensará atenção especial aos projetos que impliquem o crescimento da produção agrícola e que, necessariamente, viabilizem, também, seu escoa-mento de forma racional e com custos reduzidos. Nesse sentido, a parceria  Sistema  Confea/Crea  e Ministério da Agricultura renderá, com toda a certeza, muitos bons frutos, ou grãos, se assim o desejarem.

Roberto Rodrigues

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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