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  Centro-Oeste: o coração do Brasil

A última reportagem da Série Estradas, que mostrou a realidade da malha viária estadual e federal nas cinco regiões do país, revela que Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul sofrem do mesmo problema que aflige o restante do Brasil: as precárias condições das rodovias, a falta de verbas para manutenção e a absoluta necessidade de novos investimentos no setor

Importante elo de ligação com a maioria das regiões brasileiras, o Centro-Oeste tem uma localização estratégica: está bem no coração do Brasil. As rodovias federais que passam por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal são responsáveis pela integração entre as regiões produtoras de grãos e a agropecuária e os principais centros consumidores do país. É no Centro-Oeste que estão alguns dos maiores números da agricultura e da pecuária nacional. O Estado do Mato Grosso, por exemplo, é o campeão nacional de produção de soja (10,5 milhões de toneladas) e de algodão em plumas (380 mil toneladas).

Para escoar toda essa produção, é preciso uma malha rodoviária eficiente, o que não reflete a realidade da região. No Mato Grosso do Sul (MS), dados do documento oficial do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transporte (DNIT) elaborado pelo Sistema de Gerência de Pavimentos, mostram que 43,9% das rodovias apresentam más condições de trafegabilidade e 38,2% apresentam condição regular. No MS, como nos outros Estados da região, a necessidade de um sistema que defina os recursos para obras na rodovia é uma das principais prioridades.

Para o engenheiro José de Castro, da 19ª Unidade de Infra-Estrutura Terrestre (UNIT), a falta de manutenção das rodovias, no que diz respeito à pista e à sinalização, decorre da falta de recursos para a execução desses trabalhos. “Os recursos consignados no Orçamento Geral da União não são liberados, impossibilitando uma eficiente programação de sua aplicação”, afirma. Castro ainda destaca o principal problema das estradas. “Em nosso Estado, as rodovias estão em média com 20 anos de uso, sem restauração e com a manutenção deficiente. Assim, não se pode esperar outra coisa, ou seja, rodovias com defeitos causando aumento de consumo de combustível, desgaste prematuro dos veículos, aumento do tempo de percurso e acidentes”, afirma.

Goiás e Distrito Federal, com suas grandes dimensões territoriais, dependem e muito, do transporte rodoviário para atender à demanda de transporte de cargas e passageiros. A malha rodoviária que corta o Estado possui relevância econômica, política e estratégica. Compreendidas pela 12ª UNIT circulam mercadorias vindas do Sul e do Sudeste do país em direção às regiões Norte e Centro-Oeste.

No sudoeste goiano, as rodovias beneficiam as áreas mais produtoras dos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e escoam boa parte da produção. De acordo com José Olímpio, coordenador da 12ª UNIT, cerca de 80% das rodovias têm mais de 15 anos e necessitam de restauração urgente. “De um modo geral, as estradas de Goiás e do Distrito Federal apresentam condições boas e regulares. É claro que em determinados trechos das rodovias principais, como a BR-060 e a BR-153, a situação é péssima. Mas nosso principal problema é o desgaste e a falta de balanças”, destaca.

O coordenador da 11ª UNIT – órgão responsável pelo gerenciamento das rodovias federais no Estado do Mato Grosso –, José da Silva Tiago, diz que o principal problema das rodovias do Estado é a ocorrência de buracos, irregularidades e deformações nas pistas e deficiências de sinalização. “Esses defeitos decorrem de fatores como idade avançada dos pavimentos, altos índices de chuvas, grande tráfego, percentual elevado de veículos de carga, excesso de peso transportado por caminhões e carretas e, principalmente, falta de contratos de manutenção e insuficiência de recursos orçamentários”, salienta.

De acordo com Tiago, a partir da Constituição de 1988, a falta de recursos para a manutenção das estradas ficou ainda pior. Até 1988, existia o recurso vinculado ao setor, os impostos cobrados sobre combustíveis e outras operações, como, por exemplo, troca de óleo e abastecimento, seguiam para o Fundo Rodoviário Nacional. Depois de 88, ficou proibida a vinculação de recursos. “Essa proibição dificultou muito as ações do setor no país, pois os recursos se tornaram escassos”, destaca. No Mato Grosso, 7,52% das rodovias federais estão em péssimas condições, 17,76% estão em situação considerada ruim e 31,62% são consideradas regulares.

Um dos motivos do estado precário de alguns trechos de rodovias do Mato Grosso é a falta de um controle de peso das cargas. A única balança do Estado foi reativada apenas recentemente e está fora da rota de escoamento de grãos. “Isso é um grande problema para o Estado que em 2003 produzirá safra recorde de 13,5 milhões de toneladas e que, em 2002, moeu 12,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar”, afirma José da Silva Tiago.

Para o presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Mato Grosso (Crea-MT), engenheiro civil, Sátyro Pohl de Castilho, o problema no Estado é ainda maior. “Uma pesquisa da Confederação Nacional comprova que a distribuição de recursos no Brasil está equivocada. Das dez melhores ligações rodoviárias do país, nove estão nas regiões Sul e Sudeste. A exceção se encontra no Nordeste. Por outro lado, das dez piores ligações rodoviárias no país, somente uma se encontra nas re-giões Sul e Sudeste. A conclusão é óbvia: a falta de recursos atinge mais os Estados que não estão nas regiões Sul e Sudeste”, garante.

A falta de ligações rodoviárias com Estados da região Norte também entra nas discussões sobre as rodovias do Mato Grosso. “Sem essas estradas pavimentadas, é impossível o escoamento da produção via Amazonas. Assim, a maior parte da produção precisa trafegar cerca de 2,5 mil quilômetros para os portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR). O grão mato-grossense, por ter de ser escoado pelo sul do país, fica ainda mais distante do mercado europeu e perde em competitividade”, destaca o presidente do Crea-MT.

PRINCIPAIS RODOVIAS FEDERAIS DO CENTRO-OESTE:

BR-163 - Passa por todo o Mato Grosso do Sul. Em Rondonópolis, encontra-se com a BR-364 (vinda de Goiás). Após Cuiabá, a BR-364 segue para Comodoro, e a BR-163 vai em direção a Santarém (PA). O problema surge aí, após a divisa do Mato Grosso com o Pará, onde a rodovia não é mais asfaltada. O principal canal de escoamento da produção do MS está em péssimo estado, principalmente ao norte de Cuiabá.

BR-158 - É de grande importância estratégica. Não está inteiramente pavimentada. Único acesso para os municípios da região do Araguaia. Atravessa o Mato Grosso do Sul em 275,8 quilômetros, o Mato Grosso em 803,6 quilômetros e Goiás em 276,9 quilômetros.

BR-060 - Faz a divisa do Distrito Federal com Goiás, passa por 476 quilômetros dentro do Estado goiano. A maior parte da rodovia dentro do Estado está em boas condições. Atravessa o Mato Grosso do Sul em 681,2 quilômetros e em sua maior parte está em condições regulares.

BR-070 - A BR-070 está presente em 825 quilômetros dentro do Estado do Mato Grosso e tem a maior parte dos trechos em bom estado de conservação. Passa por Cuiabá e Cáceres e faz divisa com Goiás em Barra do Garças.

Sátyro Pohl de Castilho
“...a falta de recursos atinge mais os Estados que não estão nas regiões Sul e Sudeste”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    
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