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  Filhos da terra

Geólogos, geógrafos e engenheiros cartógrafos têm suas datas comemorativas no mês de maio. O maior elo de integração desses três profissionais não está na data e sim no elemento terra, matéria-prima fundamental para o trabalho

Desde o descobrimento do Brasil, em 1500, as riquezas minerais existentes
no país sempre foram exploradas. Ouro, prata, diamantes, cobre e petróleo (posteriormente) são alguns dos minérios mais procurados até hoje. Da fabricação de moedas às lentes de óculos, da grafite do lápis ao amálgama das obturações dentárias, os minerais estão presentes no cotidiano de qualquer pessoa e na lista de matérias-primas de muitos segmentos industriais. Como qualquer recurso natural, os bens minerais são passíveis de extinção, por isso é importante usá-los de forma racional e planejada.

O papel dos geólogos, que têm como data comemorativa o dia 30 de maio, é justamente inventariar o potencial mineral e petrolífero de uma determinada área e subsidiar à sociedade esses insumos. Além da prospecção mineral, o geólogo atua em diversas outras áreas, como, por exemplo, a gestão territorial em geotecnia e a prevenção contra riscos de desastres geológicos.

De acordo com a Febrageo – Federação Brasileira de Geólogos –, os Estados brasileiros que mais concentram atividades relacionadas à geologia são os localizados no Sudeste. O Rio de Janeiro, que abriga o complexo petrolífero da Bacia de Campos, também é, junto do Espírito Santo, um dos maiores produtores brasileiros de pedras ornamentais. Já Minas Gerais é o principal Estado minerador brasileiro, concentrando a maior parte das jazidas de minérios preciosos. E o Estado de São Paulo, coração industrial do Brasil, é responsável pelo fornecimento de grande parte dos insumos minerais de apoio à construção civil e à agricultura. Devido a essas características, a Região Sudeste é a que mais concentra geólogos em atividade em todo o país.

O mercado de trabalho recebe em média, a cada ano, de 200 a 300 novos profissionais, que se formam nas 19 instituições de ensino superior existentes no país. De acordo com Ricardo Latgé Azevedo, presidente da Febrageo, os geólogos vêm enfrentando um mercado restrito, porque a profissão é diretamente relacionada à esfera governamental. “O Brasil carece, desde a década de 1970, de investimentos na área de infra-estrutura, o que dificulta o trabalho dos profissionais”, comenta Azevedo. Por outro lado, cresceu a atuação dos profissionais geólogos em áreas relacionadas ao meio am-biente, como, por exemplo, a expedição de laudos de impacto ambiental. “Somos profissionais que compreendem a dinâmica da Terra e contribuem diretamente para a gestão de recursos naturais do planeta”, explica. Para Azevedo, o diferencial da profissão está na forma consciente em que o profissional aborda a problemática da extração de recursos naturais e contribui com a provisão de recursos minerais à sociedade.

Júlio César Martins Resende
“O Brasil carece, desde a década de 1970, de investimentos na área de infra-estrutura, o que dificulta o trabalho dos profissionais”

 

 

Integração nacional

No dia 6 de maio, comemora-se o Dia do Engenheiro Cartógrafo, profissional responsável pelo cadastro e utilização de técnicas para elaboração de projetos de construção de barragens e estradas, monitoramento de safras, trabalhos de proteção ambiental e em campos de mineração, dentre outras atividades. O engenheiro cartógrafo também exerce funções administrativas e políticas na demarcação de áreas e fronteiras, colaborando com a integração nacional.
Cerca de 240 engenheiros cartógrafos ingressam no mercado de trabalho a cada ano, oriundos das oito instituições de ensino superior existentes no Brasil. Esses profissionais concentram-se, em sua maioria, nas regiões Sudeste e Sul. A situação enfrentada pelos engenheiros cartógrafos, hoje, segundo Paulo César Trino – presidente da SBC (Sociedade Brasileira de Cartografia) e vice-presidente da Academia Nacional de Engenharia –, é equilibrada, se tomar mos como base a demanda contingenciada pela política monetária e orçamentária. “Se a situação de falta de mapeamentos, projetos parados e falta de gestão e ordenação do território fosse oposta, a oferta de oportunidades seria muito maior”, observa Trino.
Assim como outras profissões que possuem cursos de formação técnica, os órgãos do Sistema Cartográfico Nacional formam técnicos e tecnólogos para atender às necessidades estabelecidas. Mas para ter o direito do exercício profissional é necessário ingressar em um curso superior específico.
Mesmo com a falta de investimentos governamentais e com a forte restrição orçamentária provocada pelas sucessivas crises econômicas, a profissão não perde a sua importância perante a sociedade. “Ninguém transita ou viaja pelo país sem as obras de infra-estrutura que são todas baseadas na cartografia”, explica Paulo César Trino.

 

Pluralidade

Comemorando seu dia em 29 de maio, o geógrafo vem, nos últimos anos, sendo integrado em equipes multiprofissionais para atuar em diversas esferas. Planejamento urbano e territorial, gestão e preservação do meio am- biente, desenvolvimento local e regional (urbano e/ou rural) e educação ambiental são apenas alguns dos muitos campos em que um geógrafo devidamente capacitado pode atuar.

Segundo Renato Emerson dos Santos, que representa a AGB (Associação dos Geógrafos Brasileiros) no Colégio de Entidades Nacionais do Confea e leciona na Uerj, o profissional que lida com a geografia vem sendo cada vez mais valorizado. Esse reconhecimento se dá pela importância dos conhecimentos do espaço geográfico para o planejamento e intervenção dos diversos agentes da sociedade. A valorização do profissional, de acordo com Santos, ocorre não somente na área de coleta e mapeamento de dados georreferenciados (utilizados, por exemplo, no controle de epidemias e doenças), mas também na interação e inter-relação com informações de naturezas distintas – dados sociais com os fenômenos ambientais, por exemplo – que abrem ao profissional novas frentes de atuação.

As estimativas da AGB apontam para o ingresso de 1.700 a 2 mil novos geógrafos no mercado de trabalho brasileiro, a cada ano. E as perspectivas profissionais, de acordo com Renato Emerson dos Santos, são cada vez mais estimulantes e promissoras. “O mercado já assumiu a multi e a interdisciplinaridade como princípios”, explica, “por isso, equipes multiprofissionais são compostas nas diferentes áreas, criando um ambiente onde as competências, ainda pouco exploradas e desenvolvidas, são descobertas e muito valorizadas”, completa. Sem contar ainda o fato de que muitos profissionais de outras áreas vinculadas ao Sistema Confea/Crea, como engenharia, arquitetura, geologia, agronomia – e mesmo as não-vinculadas, como economia e biologia –, vêm reconhecendo a importância dos conhecimentos da geografia e ingressando em programas de Pós-Graduação em Geografia. “Esse contato”, explica Santos, “muitas vezes conduz a oportunidades de trabalho a jovens geógrafos, abrindo espaços para nossa atuação”, comenta. Assim sendo, diversas instituições, da esfera go- vernamental ou não, vêm incorporando geógrafos em seus quadros.
Uma das características mais interessantes da profissão está no tocante à graduação. Renato Emerson dos Santos explica que a formação do geógrafo se dá na graduação, mas as atribuições que competem a esse profissio-nal também são conferidas a qualquer profissional que curse mestrado ou doutorado em Geografia. “Nossa avaliação é de que a geografia é vanguarda entre as profissões do Sistema Confea/Crea, no sentido de que ela já incorpora a tendência atual de uma formação profissional continuada”, comenta. Para ilustrar sua teoria, Santos cita o exemplo de Milton Santos, considerado o maior expoente da geografia brasileira e nome de expressão mundial, que era graduado em Direito – mas possuía mestrado e doutorado em Geografia.

Apesar da crise econômica por que o país atravessa, o campo de trabalho destinado aos geógrafos é considerado promissor pela AGB. A grande dificuldade enfrentada por alguns profissionais, de acordo com a associação, está no relativo desconhecimento das capacidades e competências por parte dos decision makers do mercado de trabalho. Ainda segundo dados da AGB, a Região Sudeste é a que concentra a maior quantidade de profissionais, embora existam trabalhos muito importantes sendo desenvolvidos por geógrafos fora do eixo RJ–SP, que contribuem para um crescimento em escala nacional da atuação do geógrafo.

Além da importância da geografia para o planejamento de ações do Estado, o que está na sua própria origem enquanto campo de conhecimento, outra contribuição fundamental que valoriza o profissional é a consciência de que é preciso pensar a relação das sociedades com a natureza. “O geógrafo tem uma formação privilegiada para essa maneira de abordar e solucionar as questões que nos são colocadas neste início de milênio”, sentencia Ricardo Emerson dos Santos.

Assim como os geógrafos, os engenheiros agrimensores – que comemoram seu dia em 4 de junho – também possuem um campo de atuação muito diversificado. Podem trabalhar desde as áreas de geodésia, astronomia, avaliações & perícias e topografia, passando pelas de loteamentos, construções de estradas, demarcações, perícias técnicas, definição de limites e avaliação de espaços até as de geoprocessamento e geoinformação. O engenheiro agrimensor pode ainda trabalhar nos sistemas de telefonia (projeção de cabos subterrâneos de fibra óptica) e também nos sistemas de formações geográficas.

Existem, no Brasil, cursos para a formação de técnicos em agrimensura, mas apenas os profissionais que cursaram os cursos de graduação podem exercer a profissão de engenheiro agrimensor. De acordo com Júlio César Martins de Rezende, que preside a Fenea (Federação Nacional dos Engenheiros Agrimensores), existem atualmente 11 cursos superiores em todo o Brasil e outra boa quantidade de cursos técnicos, que destinam em média 300 novos profissionais ao mercado a cada ano. Para Júlio César, “o mercado é um dos mais promissores, e hoje só quem está desatualizado não encontra oportunidades de trabalho”. A profissão, segundo Júlio César, “exige muitos conhecimentos em matemática e exatidão”, o que acaba por desanimar alguns profissionais.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos engenheiros agrimensores está na falta de uma fiscalização mais eficaz – no sentido de coibir profissionais que não têm qualificação para trabalhar na área e que acabam atuando como engenheiros agrimensores. Essa forma de “corporativismo”, de acordo com o presidente da Fenea, acaba prejudicando a atuação do profissional “realmente qualificado”. Os Estados brasileiros que concentram maior atividade dos engenheiros agrimensores são Minas Gerais, São Paulo, Sergipe, Bahia, Piauí e Santa Catarina (na região de Criciúma).
Para Júlio César Martins de Rezende, a profissão, que faz o uso puro da matemática e da lógica, deve ser exercida com seriedade e com afinco, ou em suas próprias palavras, “firmando um compromisso com a verdade e com a sociedade”.

 

“O mercado para o engenheiro agrimensor é um dos mais promissores, e hoje só quem está desatualizado não encontra oportunidades de trabalho”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    
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