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Agrônomo governa um dos maiores pólos agrícolas brasileiros


Blairo Maggi, agrônomo e governador do Mato Grosso, destaca suas ações no Estado e afirma que a profissão foi de importância extrema em sua candidatura

O agrônomo Blairo Maggi, governador eleito nas últimas eleições do Mato Grosso, é mais um dos profissionais do Sistema Confea/Crea que integram a série de matérias sobre os profissionais eleitos para governar os Estados brasileiros. São dez ao todo. Blairo Maggi nasceu em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, e é formado em Agronomia pela Universidade Federal do Paraná. Iniciou sua carreira acompanhando o pai, o pequeno produtor André Maggi, que na década de 70 deixou o Paraná disposto a investir no cerrado mato-grossense. A iniciativa deu certo. A família acabou constituindo o grupo A Maggi, que em 2001 apresentou um faturamento global de US$ 400 milhões, cultivando soja, milho e algodão. Além de atuar na produção, beneficiamento e comércio de grãos, o grupo também investiu em logística, passando a atuar no transporte voltado para a exportação.

Blairo Maggi completou 23 anos de atuação no Estado do Mato Grosso e acredita que sua formação em agronomia e suas atividades como empresário do meio rural contribuíram de forma decisiva para que ele passasse a conhecer muito bem o Estado, identificando suas necessidades e elaborando propostas de solução para os problemas. “Isso, sem dúvida, motivou e auxiliou em minha candidatura”, destaca o governador. A carreira também o ajudou a elaborar os planos de governo, e, segundo ele, um grande número de projetos tem a ver com a agronomia.

“Tanto no que diz respeito ao clima e ao relevo, quanto a sua história recente, Mato Grosso é um Estado com vocação para a agricultura”, ressalta Maggi. O Estado é o maior produtor de soja e algodão do Brasil e o segundo maior produtor de arroz e milho. “Como engenheiro agrônomo, vejo claramente o quanto esse setor ainda pode crescer no Estado, e queremos, de fato, nos tornar um celeiro para o mundo”, explica o governador. Entre outros projetos do governo do Mato Grosso ligados à agronomia, Maggi destaca a reestruturação das ações de pesquisa, assistência técnica e extensão rural; promoção do zoneamento ecológico-econômico; incentivo das cadeias produtivas e da agricultura familiar; capacitação de técnicos agrícolas e de pequenos proprietários; e a atração de agroindústrias para a região.

Maggi considera o desenvolvimento tecnológico outro ponto importante de seu governo. Segundo ele, toda a alta competitividade conquistada pelo Brasil nos últimos anos, com o sucesso de diversos produtos na economia global, deve-se a esse desenvolvimento. “Uma das razões pelas quais o Mato Grosso possui uma grande produtividade de soja e algodão se deve aos investimentos que o setor tem feito em pesquisas e desenvolvimento de cultivares adaptadas ao nosso clima e ao nosso solo”, ressalta o governador, acrescentando que o Estado tem tudo para desenvolver novas tecnologias nas áreas de biotecnologia, transporte, agropecuária, energia, saneamento e habitação.

Para isso, o governo Maggi está programando investimentos nas áreas de ciência e tecnologia, com a criação de uma Secretaria de Estado para tratar especificamente desses assuntos, além de fomentar o desenvolvimento tecnológico na área de agropecuária. O governo já está, inclusive, recuperando a Empresa Mato-Grossense de Pesquisas, Assistência e Extensão Rural, a Empaer. “Além de voltá-la para atuar junto aos pequenos e médios produtores, queremos a Empaer também de braços dados com a Embrapa e outras instituições, como as fundações de pesquisas criadas pelos produtores e desenvolvimento de pesquisas”, explica Maggi.

 

Educação

O governo de Blairo Maggi também prioriza a educação. “Não podemos falar em oferecer à população acesso a novas tecnologias, sem antes promover a universalização e a melhoria do ensino público em todos os níveis”, ressalta o governador. O governo do Mato Grosso está construindo uma rede estadual de ensino profissionalizante, que inclui ações como a implantação de centros de formação tecnológica nas principais cidades do Estado e de cursos de formação profissional nas cidades menores. “Além disso, estamos também aprofundando parcerias com as universidades públicas e particulares, com as escolas técnicas federais e com o sistema “S” das empresas — Senai, Sesi, Sest, Senar, Senac e Sebrae —, uma vez que tais instituições têm ampla experiência nas áreas de pesquisa e de formação profissional”, explica Maggi.

 

Fome Zero

E como nem educação, nem desenvolvimento tecnológico sobrevivem em meio à fome, Blairo Maggi também lidera algumas ações que visam a combater o problema. Uma das primeiras medidas do governo foi decretar a isenção de ICMS da carne, do arroz e do feijão. Isso aconteceu justamente para reduzir o custo desses produtos da cesta básica e ajudar no combate à fome.

O Mato Grosso tem uma das maiores produções agrícolas do país. Junto com essa agricultura forte, cresce a agroindústria e o comércio. É o agronegócio, que gera emprego, renda e desenvolvimento para a região. “Nossa meta é estimular mais ainda essa vocação e gerar mais emprego e renda”, destaca Maggi. Outro potencial de grande destaque no Mato Grosso é a agricultura familiar, para a qual estão sendo criadas ações de desenvolvimento. “Estamos montando estratégias inteligentes com esses pequenos produtores, relativas tanto à questão da produção como, principalmente, à questão da comercialização, para que eles possam produzir para seu sustento e também para ganhar mercado”, explica Maggi, que crê que essas iniciativas no setor agropecuário ajudam a combater a fome. Outra iniciativa, coordenada pela Secretaria de Agricultura, é mobilizar os produtores para participarem com doação de alimentos. Há também as questões emergenciais – para as quais o programa Fome Zero, do governo federal está apontando. “Mato Grosso não foi incluído nesta primeira etapa do programa, embora tenhamos municípios com populações muito pobres e que necessitam dessa ajuda imediata”, afirma Maggi. Mas, segundo o governador, estão sendo estudadas, junto aos municípios, medidas para solucionar não apenas o problema da fome como também da falta de moradia, que é considerada muito grave na região.


Blairo Maggi

 

“Não podemos falar em oferecer à população acesso a novas tecnologias, sem antes promover a universa-lização e a melhoria do ensino público em todos os níveis”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Outro potencial de grande destaque no Mato Grosso é a agricultura familiar, para a qual estão sendo criadas ações de desenvolvimen-to”

 

 

 

ARTIGO - É urgente a redução das perdas na produção agrícola brasileira


Tão logo se tornou público o projeto Fome Zero do presidente Lula, vieram declarações de autoridades indicando a necessidade de se aumentar a produção agrícola brasileira. Tais menções soam bem óbvias visto que, ao se aumentar o consumo, mantendo-se o mesmo nível de produção, fica matematicamente evidente que deverá faltar alimentos. Há então dados sempre esquecidos pelas autoridades e que são uma grande vergonha nacional: as perdas na agricultura brasileira. Curiosamente, o texto do projeto dedica parcos quatro parágrafos ao assunto, mostrando que desconhece em parte os índices de desperdícios que ocorrem nesse setor, da produção à comercialização. Muitas sub-regiões do país estão em franco processo de incremento agrícola, principalmente a área dos cerrados brasileiros, que representa a única região do mundo com possibilidades de expansão agrícola de terras agricultáveis. Essa área representa cerca de 130 milhões de hectares contidos nas regiões Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sudeste. Hoje, 25% da produção atual de grãos do país vem do cerrado. Entretanto, regular essa expansão de maneira que se consiga uma produção sustentável é um desafio de grandes proporções, que o Brasil está longe de vencer. Reduzir as perdas do que já se produz parece uma solução mais viável no curto e médio prazo.

Para que se entenda melhor, convém separar tais dados por partes, primeiro o plantio de grãos, onde a perda beira os 8%, causadas por inadequação das máquinas; depois, nas etapas seguintes de colheita e armazenagem, os valores podem chegar a 10 e 12%, respectivamente. Advindas também de mau uso de maquinarias, muitas vezes por falta de treinamento adequado de operadores e de estocagem deficiente (embora o país outrora tenha gastado milhões em treinamento e construção de silos e armazéns, muito desse patrimônio encontra-se obsoleto e/ou degradado). No transporte, em tempos de chuvas, – nas estradas vicinais, sempre à beira de completo abandono –, as perdas na qualidade podem atingir 15%. Há, entretanto, quem contabilize a perda total na produção de grãos no Brasil em torno de 50%. Se for mencionado o caso das frutas e hortaliças, considerando o tempo de vida de prateleira muito menor do produto, as perdas beiram os 19% em média. Aqui, o curioso é que essas perdas podem ser estimadas em alimentos, considerando que, com um quilo de grãos, pode-se obter 140 g de carne bovina, 250 g de carne suína ou caprina, meio quilo de carne de frango ou pescado, meia dúzia de ovos, ou ainda, um copo de leite. Sendo o país um dos maiores produtores de grãos do mundo, a perda advinda da sua produção é simplesmente inaceitável.

E a coisa vai mais além. Considerando que a indústria de produção animal é um ciclo de transformação de grãos, ao chegar a ração animal, que foi estocada, processada e distribuída, na maioria das vezes ela perde qualidade no transporte e armazenamento e, em outras, pode até ser comprometida com exposição a fungos ou a outras contaminações. Isso resulta não somente em perdas, mas também em foco de doenças, comprometendo a questão de segurança alimentar. O alojamento de animais então é um verdadeiro despropósito. A produção animal brasileira é praticamente dividida em dois níveis tecnológicos de acordo com manejo e instalações: extensiva e intensiva. A primeira é extensamente encontrada no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, enquanto a segunda ocupa importante espaço nas regiões Sul, Sudeste, e hoje, acompanhando a produção de grãos, move-se para o Centro-Oeste. Em termos de agronegócio ou do uso de processos mecanizados, a produção animal intensiva no Brasil encontra-se no mesmo nível tecnológico que os países desenvolvidos, competindo nos preços finais no mercado internacional. Até os anos 90, havia uma estimativa de que o alojamento de animais no Brasil era tão inadequado que, em uma semana de temperatura ambiente beirando os 30 °C, representava uma perda de cerca de US$ 100 milhões em carne, leite e ovos. Esse valor advém da morte de animais, ovos sem casca ou com casca quebradiça, decréscimo na produção de leite e baixo teor de gordura etc. E não se trata de inadequação de genética importada, afinal, representa a falta de investimento mínimo em instalações e manejo adaptados ao nosso clima tropical. Esses dados não são muito diferentes de hoje, e, embora a pauta de exportação brasileira de carnes seja das mais importantes, muito pouco mudaram as instalações para se adequarem às necessidades de conforto térmico. Convive-se com a perda quase como uma fatalidade incontrolável. As dimensões continentais do país associadas à má distribuição de terras agricultáveis em algumas regiões levam à concentração de grandes fazendas em áreas de fronteiras, persistindo problemas de infra-estrutura, tais como a falta de armazenamento apropriado de produtos e de distribuição de produtos a mercados consumidores.

Na questão de qualidade, por exemplo, na cadeia da carne, principalmente no abate de aves e suínos, as operações são quase totalmente mecanizadas e os frigoríficos, inspecionados pelos sistemas de vigilância e inspeção federais. Tais procedimentos são utilizados também na produção de leite, embora grande parcela da produção ainda resida em pequenas propriedades com sistemas semi-intensivos ou até extensivos. A produção de ovos é mecanizada em cerca de 80% de suas operações, embora esses produtos ainda possam ser adquiridos diretamente do produtor em pequenas cidades rurais, onde o grande comércio de produtos se dá nos mercados de rua. Nesse ponto, a qualidade é amplamente questionável, e são freqüentes os casos de contaminação. Ainda na questão da produção de leite, a grande defasagem nos níveis tecnológicos leva a produção brasileira a ter um dos maiores rebanhos do mundo com uma média baixa de produção de 4 kg/dia/vaca, enquanto nos países desenvolvidos a média de produção situa-se em cerca de 20 kg/dia/vaca. Na produção de gado de corte, as genéticas adaptadas garantem uma maior sobrevivência no pasto, devido a sua rusticidade, entretanto sua permanência prolongada em pastagens e o baixo desfrute do rebanho levam a que a atividade não promova um intenso roteiro no agronegócio. Em se tratando da cadeia da carne bovina, as oportunidades seriam mais expressivas se o ciclo produtivo fosse mais curto, por exemplo.

A expansão urbanística, a industrialização, a agricultura e a pecuária intensivas e ainda a produção de energia elétrica – que estão estreitamente associadas à elevação do nível de vida e ao crescimento populacional – passaram a exigir crescentes quantidades de água. Assim, atingir as necessidades de água impõe, na tualidade, sérios problemas às comunidades. Além disso, é bem conhecida a poluição provocada pelo seu uso doméstico, público e industrial. Considerando que a água é alimento, suprir as necessidades de água da população crescente, com qualidade, é sem dúvida, outro grande desafio brasileiro. Estima-se que sejam utilizados mil litros de água para se produzir um quilo de grãos. Os adubos e os pesticidas utilizados intensamente na agricultura atual são prejudiciais à qualidade da água, mesmo quando não se pratica a rega. Com efeito, aqueles produtos são transportados pelo escoamento resultante da precipitação para os aqüíferos ou para os rios e lagos naturais ou artificiais. Os pesticidas em geral são nocivos por si, e os adubos originam um excesso de substâncias nutrientes nas massas de água (eutrofização), que produz a proliferação de algas e plantas aquáticas. Associada a esse fenômeno, verifica-se freqüentemente a decomposição da matéria orgânica e a conseqüente carência de oxigênio. Há dificuldade na quantificação dessas perdas, porque aí deveria ser computada a degradação do ambiente e suas conseqüências nos vários prazos.

O Brasil tem atualmente um rebanho aproximado de 150 milhões de bovinos de corte e leite, um contingente de aproximadamente 40 milhões de suínos, e aloja cerca de 700 milhões de aves de postura, corte e reprodução. Em condições de exploração nos trópicos, pouco se conhece do consumo da água, em função das variações climáticas, e a literatura, em sua grande maioria proveniente de países de clima temperado, mostra a estimativa de consumo em situação bem adversa das brasileiras. Nesse tema sequer é possível quantificar as perdas.

Se realmente houver vontade política de acabar com o contingente de famintos brasileiros, e disponibilizar alimentos sem reduzir a cota de exportação, o caminho mais curto será o investimento na redução de perdas, nas várias cadeias da produção agrícola. Por aí passam também os investimentos na educação e em infra-estrutura para escoamento da produção interna. O país vem preparando profissionais e desenvolvendo tecnologia para os trópicos desde os anos 80, que hoje atuam nas instituições de pesquisa e universidades. O curioso é que esses mestres e doutores não conseguiram participar ativamente de programas de transferência de tecnologia, que alavancassem o desenvolvimento de soluções efetivamente adotadas por produtores. O potencial brasileiro disponível na área técnica é grande e único no mundo agrícola tropical, entretanto encontra-se dormente e sem motivação no atual processo de desenvolvimento, enfrentando o encontro com tecnologias acabadas, de alto investimento nos países de origem e, muitas vezes, inadequadas para utilização nas condições brasileiras.

É imprescindível que se diminuam esses níveis de perda na agricultura brasileira para que efetivamente se possa implementar o Programa Fome Zero. O desperdício e a perda precisam ser contidos ou estaremos fadados todos à pobreza. Será apenas uma questão de tempo.

* Presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola, presidente da Asociación Latino Americana y Del Caribe de Ingeniería Agrícola e professora titular da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp

 


Irenilza de Alencar Nääs
    
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