O Projeto Lula e o seu ponto
crucial
Freqüentemente
cobra-se um “projeto” do governo como se devesse
estar consubstanciado num documento que estabelecesse,
de forma consistente e bem definida, diretrizes, prioridades
e metas, sujeitas a um acompanhamento permanente e a um
processo de correção de desvios. Tivemos,
na história do país pelo menos dois exemplos
de projeto governamental desse tipo, com o Plano de Metas
de Kubitschek, abrangendo somente setores estratégicos,
e o II PND de Geisel, muito mais completo.
O governo Lula pretende que o
Plano Plurianual, o PPA, venha a se tornar a baliza de
suas ações, acompanhado ao longo dos seus
quatro anos, como um documento de Estado, mais que de
governo.
É importante ressaltar,
porém, que o conceito de projeto pode ser mais
amplo, não exigindo, necessariamente, a existência
de um documento com essas características. O projeto
de um governo pode ser um conjunto de poucos compromissos
essenciais definidores de uma visão geral dos problemas
e de algumas diretrizes a serem seguidas no desdobramento
das ações.
O governo Vargas, abrangendo os
seus dois períodos, não teve planos documentados,
mas definiu um projeto nacional com uma nitidez que poucos
conseguiram dar. O projeto foi marcado por duas diretrizes:
1) racionalizar o Estado e colocá-lo na liderança
e na promoção do crescimento da economia
fundado na construção de uma infra-estrutura
industrial; 2) tratar a questão social com prioridade
e pela primeira vez com justiça, e não com
a polícia.
O período FHC editou e
colocou na estante o plano “Avança Brasil”,
mas adotou por inteiro o Projeto “Modernização-Globalização”,
iniciado nos anos Collor, atendendo às exigências
do mercado – especialmente a de eliminar a presença
do Estado planejador e investidor –, na convicção
de que este responderia com um grande fluxo de investimentos.
Os investimentos vieram, sim, mas para comprar a bom preço
patrimônio já constituído pelos brasileiros,
e a economia nacional continuou estagnada por mais uma
década.
Lula chegou então com três
diretrizes fortes, bem acentuadas durante a campanha:
1) resgatar a soberania nacional, tirando o Brasil da
situação de grave dependência, vulnerabilidade
e subserviência; 2) retomar a distribuição
de renda e de riqueza entre os brasileiros; 3) restaurar
a presença organizadora e ativa do Estado, nos
limites necessários à retomada do dinamismo
indispensável da nova economia. Efetivamente, no
primeiro ano do governo Lula, ressaltou-se o empenho com
a primeira das três diretrizes, compreendendo um
grande esforço de ajuste macroeconômico interno
com vistas à consolidação de uma
base para a redução da vulnerabilidade e
a restauração da soberania.
E é importante reconhecer
que o êxito na consecução desse objetivo
levará a uma nova configuração da
economia mundial com uma presença ainda incipiente,
mas bem mais importante, do conjunto das nações
emergentes.
Aquele esforço de ajuste
interno, entretanto, comprometeu pesadamente o avanço
pela segunda diretriz, de caráter eminentemente
social. E este comprometimento não pode persistir
com a mesma intensidade no segundo ano, sob pena de tornar
“tarde demais” qualquer tentativa posterior
de retomada não só da diretriz social como
da econômica que lhe é condição
necessária.
E a tranca mais forte que está
detendo o desdobramento positivo do processo econômico
e social está na manutenção do superávit
fiscal no superpatamar de 4,5% do PIB, que limita muito
o gasto público.
Essa tranca tem de começar
a se abrir, com a prudência indispensável
para não permitir a reversão da tendência
de queda da dívida relacionada ao PIB, mas se abrir
o suficiente para recuperar o investimento público
em infra-estrutura, sem o qual o crescimento ficará
restrito a limites medíocres, incompatíveis
com o avanço social. Eis uma questão que
é crucial, que está no coração
da proposta de revisão do PPA que o Congresso Nacional
vai discutir e votar.
Roberto
Saturnino Braga
Senador (PT-RJ)
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