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Sempre preocupado em se
fazer entender, o professor catetrático,
nascido em Valencia, na Espanha, não cansa
de se desculpar por não saber falar português.
O engenheiro José Medem, atual presidente
da Federação Mundial das Organizações
de Engenharia, foi um dos painelistas durante a
60ª SOEAA realizada em Brasília. Atualmente
vivendo em Madri, veio exclusivamente ao Brasil
para participar do evento que celebrou os 70 anos
do Sistema Confea/Crea. É doutor onoris causa
pela Universidade de Bringston, na Grã-Bretanha,
e uma de suas mais recentes demonstrações
de apreço pela classe que representa mundialmente
e pelo Brasil foi a articulação para
realizar o II Congresso Mundial dos Engenheiros
em território nacional, em 2008. Nesta entrevista
exclusiva, para a Revista do Confea, ele falou sobre
desigualdade social, consciência ambiental,
importância da mulher como força de
trabalho e sobre consumo desigual de riquezas naturais.
Revista
do Confea
- Como a preservação dos recursos
naturais afeta o desenvolvimento econômico
de um país?
José Medem - Vou te responder
com uma estimativa não muito boa e ao mesmo
tempo perfeita para ilustrar a tua pergunta. Atualmente,
25% da população mundial consome 80%
dos bens produzidos pela natureza. O desenvolvimento
de uma nação está diretamente
ligado à capacidade de abastecer a sua população
com bens de primeira necessidade, como a água,
por exemplo.
Revista
do Confea
- O desperdício também contribui para
este cenário?
José Medem - Sem dúvida.
O consumismo se constitui no maior desafio do futuro.
E com o consumismo, temos o desperdício.
É preciso investir em tecnologia para que
a reciclagem seja algo primordial e não um
modismo. No Brasil, os exemplos de projetos de usinas
de reciclagem mostram como é possível
começar um projeto completamente novo e fazer
com que este passe a integrar a cultura da sociedade.
Revista do Confea
- Existem fatores culturais que são também
determinantes para o desenvolvimento mundial. O
que o senhor pensa dos conflitos terroristas e quais
os efeitos na economia brasileira?
José Medem - O fundamentalismo
islâmico está provocando ataques terroristas
que representam uma ameaça à estabilidade
das nossas raízes. O terrorismo acaba contribuindo
para que a pobreza se alastre pelos países
em desenvolvimento, e a pobreza é um dos
maiores entraves para o crescimento. Uma sociedade
desigual não tem condições
de se equilibrar, muito menos avançar em
termos econômicos. O Brasil também
sofre as conseqüências destes conflitos
e ataques terroristas. O mundo está globalizado,
internacionalizado, e não existe mais conflito
isolado.
Revista do Confea
- Qual o principal aspecto humano que impede um
crescimento mais equilibrado e como isso pode melhorar
o cenário do Brasil no futuro?
José Medem - O crescimento
dos paísess em desenvolvimento é imperativo
para erradicação da pobreza, para
melhoria da condição de vida e para
gerar oportunidades de emprego. Um dos maiores entraves
é a falta de perspicácia para entender
que o capital humano é a chave de tudo. Existe
uma questão importante que devemos estar
atentos, e no Brasil isso é muito visível.
Para otimizar o crescimento, devemos resolver as
questões de gênero no mercado de trabalho.
As mulheres representam quase 50% da população
economicamente ativa do país. Por isso é
preciso criar condições para que tanto
a remuneração quanto a aceitação
social sejam justas. Criatividade também
é uma arma importante. É preciso encontrar
caminhos para novos negócios. Fazer mais
com menos recursos.
Revista do Confea
- E quanto à questão da mão-de-obra?
Como o senhor vê o profissional do futuro?
José Medem - Cada vez mais,
os países precisam de profissionais capazes
de atuar em outros lugares e com outros profissionais.
Este exemplo que tivemos do acordo entre Brasil
e Portugal, por exemplo, mostra como as instituições
comprometidas com o desenvolvimento devem agir para
viabilizar o intercâmbio cultural e de informações
entre seus mercados. A qualificação
da mão-de-obra garante competitividade, e,
para ser competitivo no mundo internacionalizado,
o mercado deve dispor de profissionais também
internacionalizados, capazes de solucionar problemas
em qualquer parte do mundo. O acordo entre o Confea
e a Ordem dos Engenheiros de Portugal é uma
iniciativa louvável que serve de exemplo
para todos os países do mundo.
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