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  Exilados ambientais

O efeito estufa e o derretimento das calotas polares já começaram a atingir os mais lindos paraísos do mundo. Ilhas como Maldiva e Tuvalu podem se transformar num paraíso submerso. A principal pergunta é: para onde vai a população dessas localidades? Nasce a figura dos exilados ambientais

    Os cientistas estimam que o nível do mar pode subir dois metros até o ano 2050, em conseqüência do aquecimento da terra. O derretimento das calotas polares eleva o nível do mar, devora áreas da terra e contamina os reservatórios de água doce. A população das regiões atingidas está assustada e desconhece o seu destino. O fenômeno já começou a alcançar as nações insulares do mundo. Nas ilhas Maldivas, por exemplo, a elevação do nível do mar já criou um problema sério para os moradores, que acabam por consumir água contaminada. Nas ilhas Samoa, utilizadas para as filmagens da famosa cena onde Brooke Shields nadou nua em “Lagoa Azul”, alguns recifes e praias começam a desaparecer.
    Há pelo menos meia dúzia de países que simplesmente poderão deixar de existir se o aquecimento terrestre provocar a elevação de mais de um metro do nível do mar. A maior parte deles está no Oceano Pacífico, mas há um caso grave no Índico, as ilhas Maldivas, a menor nação asiática. O país fica a sudoeste da Índia e é um colar de 1.200 ilhas de corais, 200 delas habitadas. Em Tuvalu, a água salgada inundou áreas baixas, contaminou reservas de água potável, comprometeu a agricultura e, com sua força, causou a erosão da costa das nove ilhas do pequeno arquipélago. Em 2002, os 11 mil habitantes começaram a arrumar as malas e partir rumo à Nova Zelândia, que vai acolher todos os migrantes. Em todos os estudos apresentados e discutidos sobre esta questão, nenhuma trata da responsabilidade de outras nações e futuras gerações que estão por vir.
    Em algumas regiões, a elevação dos oceanos parece inevitável, mas, mesmo que todo o gelo dos pólos derreta, o mar nunca alcançaria as regiões mais elevadas e países montanhosos, como a Suíça, o Peru ou os planaltos como o planalto central brasileiro. Segundo avaliação do Banco Mundial, realizada em 2000, com um metro a mais, o mar arruinaria metade dos arrozais de Bangladesh. Isso também colocaria em risco o cultivo de arroz em diversas regiões da Índia, Tailândia, Indonésia, China e Vietnã. A população desses países não se mede em milhares, mas em dezenas e até centenas de milhões de habitantes.
    O impacto das mudanças climáticas também atinge o reino animal. Os períodos de reprodução já deixaram de coincidir com o período de abundância de alimentos. gerando dificuldade na obtenção de comida para os filhotes. As aves migratórias estão mudando a intensidade de suas viagens. O impacto deixa vários biólogos assustados com a ameaça à sobrevivência das espécies. Os cientistas descobriram que um ano de seca intensa na Amazônia reduz o crescimento das plantas e as deixa mais vulneráveis ao fogo. A combinação de calor com queimadas pode transformar um terço da Floresta Amazônica em um imenso cerrado. “Com esse cenário, muitas espécies deixarão de existir na Amazônia”, afirma a engenheira sanitária e ambiental, Ana Virgínia Muniz Machado, membro do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes).

PARA ENTENDER
Aquecimento A temperatura média aumentou 0,6º C durante o século 20, o que é atribuído principalmente à atividade humana. Os anos 1990 são a década mais quente de que se tem registro.
Geleira

Camada de neve: diminuiu 10% desde a década de 60.
Camada de gelo no mar: 10% a 15 % mais fina desde a década de 50.

Aquecimento

Temperatura média: projeções indicam que aumentará entre 1,4º C e 5,8º C globalmente. A América do Norte e a região centro-norte da Ásia poderão atingir temperaturas 40% mais altas do que a média global.

Secas

A frequência e a intensidade aumentarão na África e em partes da Ásia.

Chuvas

1% de aumento por década no hemisfério norte. Estão previstas precipitações mais intensas.

Nível do mar Nível do mar: aumento de 88 cm até 2100. Terras em risco – grande parte de Bangladesh está nesta situação. Algumas ilhas do Pacífico já submergiram.

    O efeito estufa é provocado pelo aumento do metano e do dióxido de carbono na atmosfera. Esses gases aprisionam o calor do sol, impedindo que ele se irradie para o espaço durante a noite, o que torna a terra cada vez mais quente. O aumento do calor aumenta a violência e a freqüência dos furacões e tempestades tropicais. O metano é produzido pelo gado e pela cultura do arroz. Já o dióxido de carbono escapa dos automóveis e das chaminés das fábricas. Várias conferências internacionais já foram realizadas para tentar conter a emissão desses gases, mas os países industrializados se opõem a um acordo.
    A engenheira admite que, mesmo que as emissões fossem contidas agora, levaria quase um século para a atmosfera se recuperar. “O processo é ainda agravado pela queima de combustíveis fósseis, como a gasolina e o diesel, que produzem gás carbônico.” O efeito estufa é tido como o grande responsável pelo aquecimento do planeta.
    E na tentativa de minimizar os efeitos é que foi criado, em 16 de março de 1998, o Protocolo de Kyoto. O documento prevê a redução da emissão de gases causadores do efeito estufa. O ponto principal do documento é que os 38 países considerados maiores poluidores devem diminuir, entre 2008 e 2012, seus níveis de emissão de dióxido de carbono e outros cinco gases que contribuem para o efeito estufa. Mas existem certos países que não querem assinar o Protocolo. Os EUA e a Rússia são os principais opositores. O presidente George W.Bush alega que o protocolo é uma forma injusta e ineficiente para abordar o aquecimento global. Diz ainda que sua administração, através da Lei Clean Air Act, aborda a questão das mudanças climáticas muito seriamente. Mas, além de os EUA serem responsáveis por mais de 20% de todo o CO2 produzido no mundo, não reconhecem em sua legislação o dióxido de carbono (CO2) como um poluente.
    Mesmo com tantas discussões em torno do protocolo, alguns países já estão desenvolvendo projetos e investindo em outros que possam amenizar o problema do aquecimento global. O governo brasileiro, através do ministério do Meio Ambiente, assinou uma portaria que cria o Grupo de Trabalho Ozônio, no âmbito da Secretaria de Qualidade Ambiental do Ministério e ainda destinou investimentos de US$ 26,7 milhões (cerca de R$ 80 milhões), até 2008, para o Programa Brasileiro de Eliminação da Produção e Consumo das Substâncias Que Destroem a Camada de Ozônio. Em 2003, foram liberados US$ 9,5 milhões. Para o treinamento de 35 mil técnicos em refrigeração serão destinados US$ 3,7 milhões. O treinamento de 109 oficiais de alfândega e autoridades de portos e aeroportos dispenderá US$ 141,2 mil nos próximos três anos. A ministra garante que o grupo terá as funções de contribuir para a implementação do Programa Brasileiro, para proteção da camada de ozônio, difundir boas práticas no uso de equipamentos que contribuam para a proteção ambiental, orientar o mercado na aplicação de leis e regras para preservação da camada de ozônio e incentivar o uso de produtos, serviços e tecnologias que levem à eliminação dos CFCs e à efetiva proteção da camada de ozônio. “É fundamental trabalharmos pela preservação e recuperação daquilo que é de todos”, disse a ministra.
    Mas a obrigação não se restringe às atitudes governamentais. Segundo a engenheira Ana Virgínia, é preciso criar consciência sobre a necessidade de se preservar a natureza, não só pelo nosso bem, mas pelo dos animais. “É imprescindível conceber novas formas e estratégias para gestão e uso sustentável dos ecossistemas. Este é o papel dos profissionais do Sistema Confea. Desenvolver tecnologias para manter o bom andamento nas questões ambientais”, finaliza Ana Virgínia.

 

Histórico


    A redução da camada de ozônio foi detectada pelos cientistas no início da década de 1970. Em 1987, reunida em Montreal, a ONU estabeleceu um programa de ação internacional denominado Protocolo de Montreal sobre Substâncias Que Destroem a Camada de Ozônio. Por esse protocolo, as nações signatárias comprometeram-se a instituir medidas para eliminar a produção e o consumo das substâncias que destroem a camada de ozônio (SDO). O protocolo de Montreal teve sua implementação garantida após a criação do Fundo Multilateral, ou seja, um fundo de depósitos de países desenvolvidos. Por meio dele, podem ser custeados, a fundo perdido, projetos que visem à eliminação da produção e ao consumo de substâncias controladas. O Brasil se beneficiou desse fundo, internalizando recursos da ordem de US$ 55,5 milhões que foram investidos no parque industrial brasileiro, essencialmente para conversão de plantas industriais individuais em vários setores: refrigeração comercial e doméstica, solventes e espumas, entre outros.
    A camada de ozônio presente na atmosfera protege os seres humanos de algumas radiações solares nocivas à saúde. A utilização dos CFCs destruiu uma parte dessa camada em alguns pontos. Desde 1987, os CFCs estão sendo substituídos por outras substâncias, o que deverá resultar na reversão desse processo no futuro, com o “fechamento” do buraco na camada. A constituição da camada de ozônio, há cerca de 400 milhões de anos, permitiu o desenvolvimento de vida na Terra, já que o ozônio, um gás rarefeito cujas moléculas se compõem de três átomos de oxigênio, impede a passagem de grande parte da radiação ultravioleta emitida pelo sol. Como a composição da atmosfera nessa altitude é bastante estável, a camada de ozônio manteve-se inalterada por milhões de anos. Nas últimas décadas, entretanto, vem ocorrendo uma diminuição na concentração de ozônio, causada pela emissão de poluentes na atmosfera. O mundo chegou a produzir 750 mil toneladas de clorofluorcarbonos (CFCs) ao ano.

Por Simone Ferreira

 
 
“É imprescindível conceber novas formas e estratégias para gestão e uso sustentável dos ecossistemas.”

 

 

 

 

    
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