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Software está
sendo instalado em 250 revendedoras no Mato Grosso.
No segundo semestre deste ano estará recebendo
informações e monitorando toda a entrada,
distribuição e aplicação
de agrotóxicos no Estado, que é o
terceiro maior consumidor do país.
O programa custou cerca de R$ 13,5 mil para os cofres
públicos estaduais
Apartir do século
20, iniciaram-se es tudos sistemáticos buscando
o em-
prego de substâncias inorgânicas para
a proteção de plantas. Com isso, os
produtos à base de cobre, chumbo, mercúrio,
cádmio e outros foram sendo desenvolvidos
comercialmente e empregados contra a grande varie-dade
de pragas, porém com limitada eficácia.
Mais tarde, depois da Segunda Guerra Mundial, deu-se
início à grande disseminação
dessas substâncias na agricultura. Nos anos
60, os agrotóxicos passaram a ser amplamente
difundidos como parte fundamental da agricultura
moderna e passaram a ser chamados de “revolução
verde brasileira”, sendo cada vez mais incorporados
nas lavouras do país, muitas vezes incorretamente,
e o resultado acaba chegando à mesa dos brasileiros.
Na maioria dos casos, os
agrotóxicos têm um efeito retardado,
aparecendo ao longo do tempo. De acordo com o estudo
realizado pelo dr. Flávio Zambrone, do Centro
de Intoxicação da Unicamp, essas substâncias
causam redução de fertilidade, lesões
no sistema nervoso central, reações
alérgicas, formação de catarata,
lesões no fígado e até intoxicação,
que pode levar à morte. Os problemas mais
sérios causados por intoxicação
estão relacionados aos métodos de
aplicação, na freqüência
e na quantidade de produtos utilizados. Estas substâncias
normalmente são aplicadas sem receita e,
o que é pior, muitos trabalhadores rurais
não respeitam a lei e não cumprem
as recomendações contidas nos rótulos.
É importante ressaltar que, embora com riscos
diretos e indiretos para os agricultores, formuladores
e comerciantes, os agrotóxicos estão
presentes no nosso dia-a-dia, através de
resíduos nos alimentos. Os hortifrutigranjeiros
são os alimentos que representam o maior
perigo para a população.
Para o presidente da Confederação
das Federações dos Engenheiros Agrônomos
do Brasil (Confaeab), Antônio de Pádua
Angelim, falta mais orientação para
o homem do campo, pois não basta apenas o
trabalho que vem sendo realizado pelos agrônomos,
que percorrem as plantações e falam
da necessidade de cumprir a lei e respeitar o intervalo
de segurança exigido entre a aplicação
do agrotóxico e a venda. “Eles querem
vender logo o produto porque não têm
dinheiro e acabam não respeitando o tempo
de espera, levando o alimento direto para a feira”,
afirma Angelim.
Com essas medidas, é
possível que o produtor seja classificado
como vilão da história. Para que isso
não aconteça, os agrônomos querem
treinar os agricultores, mas estão encontrando
dificuldade de material. Em 1998, o governo lançou
um programa de treinamento por CD-ROM que infelizmente
deixou de ser atualizado e foi cancelado no mesmo
ano. “Com ajudas como essas, os nossos agrônomos
poderiam estar bem mais atualizados”, diz
Angelim.
Hoje, o Brasil é um
dos maiores importadores de agrotóxicos do
mundo, em função da grande produção
de alimentos, só perde para os Estados Unidos,
Japão, França e China. O Mato Grosso
é o terceiro maior consumidor de agrotóxicos
do país, ficando atrás do Paraná
e de São Paulo.
No Estado do Mato Grosso,
técnicos do Instituto de Defesa Agropecuária
(Indea), órgão que faz parte da Secretaria
de Desenvolvimento Rural (Seder), criaram um software
para controlar a entrada, a distribuição
e a aplicação de agrotóxicos.
“Com o software, será possível
saber de onde vem o produto, para onde foi distribuído,
qual o nome do agricultor que comprou, qual o agrônomo
que receitou o produto e ainda se depois de usadas
as embalagens estão sendo levadas para as
centrais de recolhimento”, explica o presidente
do Indea, Décio Coutinho.
De acordo com Coutinho, quando
o software de monitoramento estiver funcionando,
muito será melhorado. Atualmente, ele está
em processo de instalação nas revendas,
mas a intenção é que até
março elas já estejam com o equipamento
em uso. No mês de abril deste ano, será
possível coletar as primeiras informações
e se necessário fazer as adaptações
do produto.
A expectativa dos técnicos
é que, para o segundo semestre de 2004, o
Indea tenha todos os dados do uso dos produtos que
foram produzidos e até mesmo quais e a quantidade
daqueles que foram importados. A instalação
do software poderá ser feita por todas as
lojas de revenda que estão cadastradas, basta
que o navegador acesse o site do instituto. O uso
é totalmente gratuito, sendo que, no final
de cada mês, os revendedores têm apenas
o compromisso de encaminhar os dados obtidos para
os agricultores ou para os escritórios locais
do Indea. Para que o Programa de Monitoramento de
Entrada, Distribuição e Aplicação
de Agrotóxicos no Estado pudesse ser realizado,
houve uma forte parceria com o governo estadual.
Foram aplicados recursos que giraram em torno de
R$ 13,5 mil, um investimento que representa benefícios
ilimitados para a preservação ambiental
do Mato Grosso. A instalação em todo
o país depende dos resultados obtidos.
Outra forma de inibir o uso
indiscriminado dos agrotóxicos é através
da aplicação de multas e construção
de centrais de recolhimento. Hoje, o valor da multa
varia de acordo com o produto, a área de
aplicação e a utilização
e fica entre R$ 1,2 mil e R$ 200 mil. Neste último
caso, a pessoa é multada quando está
aplicando na sua plantação um produto
não registrado no Estado.
De acordo com o coordenador
de fiscalização de agrotóxicos
do Ministério da Agricultura, Sergio Britto,
o governo desenvolve vários projetos de controle
no uso de agrotóxicos com a ajuda da Polícia
Federal, que fiscaliza todo o processo de importação
e exportação. “Apesar de fazermos
este trabalho de acordo com a lei, a competência
de fiscalizar o comércio e toda a sua área
de utilização é do Estado”,
informa Britto. Outra dificuldade para controlar
o uso indiscriminado de agrotóxicos está
relacionada ao contrabando. Britto afirma que o
uso de produtos contrabandeados é um risco
para o agricultor, mas ainda é muito comum
nas plantações. “Faltam produtos
que atendam os pequenos agricultores. Há
para os grandes produtores de soja, milho e arroz,
mas falta para aqueles que cultivam acerolas ou
hortifrutigranjeiros. Assim, eles acabam usando
substâncias inadequadas ou contrabandeadas”,
relata.
Quanto ao recolhimento de
embalagens vazias, pode-se dizer que a situação
está sob controle. No Mato Grosso, as centrais
de recolhimento fazem a coleta, a embalagem passa
por uma tríplice lavagem e vai para a indústria
de reciclagem. No Brasil, cerca de 40% das embalagens
já estão sendo recolhidas. Segundo
dados dos sindicatos das indústrias responsáveis
por esta área, durante os oito primeiros
meses do ano passado, o Mato Grosso continuava em
primeiro lugar no ranking de recolhimento de embalagens
no país. Em 2003, o índice era de
28% a mais do que o Paraná (23,1%) e São
Paulo (15%), representando 1.322.355 embalagens
ou 50% do total comercializado. Hoje, o Estado tem
nove centrais de recolhimento e dois postos. O projeto
é implantar mais 23 centrais e 14 postos.
“Precisamos descobrir onde estão as
outras embalagens, pois certamente foram descartadas
sem o menor cuidado, em alguma propriedade do país”,
conclui Décio Coutinho.
O uso de alternativas não-químicas
também tem o apoio do governo federal. “Utilizar
um manejo adequado e integrado, com produtos biológicos,
é muito importante. Estamos apoiando o desenvolvimento
aqui mesmo no país de produtos menos agressivos”,
afirma Sérgio Britto.
Nesta briga de gigantes,
quem ganha são os produtores de alimentos
geneticamente modificados, os transgênicos.
O motivo é que as lavouras de transgênicos
exigem uma quantidade bem menor de agrotóxicos
e são mais fáceis de tratar. Tomando
como exemplo a soja transgênica, podemos dizer
que ela é um dos produtos mais rentáveis
para o agricultor, pois é extremamente resistente
a um herbicida usado para exterminar ervas daninhas.
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