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Miséria, tecnologia e religiosidade
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Quem anda pelas ruas
de Mumbai, a capital econômica da Índia,
não imagina que por trás de tanta
miséria, caos social e analfabetismo extremo
exista tanta tecnologia de ponta e coleções
de Prêmio Nobel. A sede do IV Fórum
Social Mundial foi, por si só, uma aula sobre
os contrastes sociais do mundo moderno
Uma das civilizações mais antigas
do nosso planeta - a Índia - é um
país
de contrastes. A diversidade de línguas,
hábitos e modo de vida não impede
que haja uma grande unidade na cultura do país.
Ao mesmo tempo em que cada Estado tem seu próprio
modo de expressão, como na arte, música,
linguagem ou culinária, o indiano é
profundamente arraigado ao sentimento de amor à
sua nação. Muitas coisas dessa civilização
ancestral parecem extremamente estranhas ao mundo
ocidental. Isso ficou claro na expressão
de espanto de muitos visitantes de primeira viagem
àquele país e participantes do IV
Fórum Social Mundial (FSM), realizado na
cidade de Mumbai, capital econômica da Índia,
de 16 a 21 de janeiro deste ano.
A Índia não
hospedou o IV FSM por acaso. Pesaram na decisão
as enormes desigualdades sociais e a baixa qualidade
de vida – numa visão ocidental, é
claro – latentes naquele país. Problemas
cujas soluções são a bandeira
de luta do fórum. E uma das coisas que causou
mais estranheza ao olhar ocidental é a forma
serena de o o indiano se comportar diante da miséria
explícita nas ruas de cidades como Mumbai,
a menos mística cidade indiana.
A questão era latente:
como podem ser tão resignados? Lixo na rua,
trânsito caótico, ausência de
saneamento básico, desemprego em alta, enorme
déficit habitacional, mais de 300 milhões
de analfabetos... E ao mesmo tempo, como podem ter
tecnologia de ponta em softwares, pesquisas avançadas
na área de saúde, uma elite científica
com coleções de Prêmio Nobel?
Depois de conhecer a Índia, qualquer um quer
retirar do Brasil o título de “país
dos contrastes”.
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Miséria
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O
déficit social da Ìndia é
enorme. Ela ocupa o 127º lugar no Índice
de Desenvolvimento Humano da ONU, onde o Brasil
é o 65º colocado. Cerca de 350
milhões de indianos sobrevivem com
menos de um dólar por dia.
Milhares de indianos
nascem e morrem nas ruas. Alguns até
têm uma forma de ‘”ganhar
a vida”, mas não têm onde
morar. O déficit habitacional é
muito grande. É comum no centro comercial
de Mumbai trouxas penduradas em árvores
com objetos de pessoas que simplesmente não
têm casa e usam dessa prática
para guardar coisas pessoais.
Muitos bairros de Mumbai,
cidade que tem 17 milhões de habitantes,
são enormes favelas com tendas de pano
remendado que servem de abrigo para famílias
inteiras. Saneamento básico não
existe, o esgoto corre a céu aberto.
E ratos – que junto com a serpente e
a vaca são adorados porque segundo
a religião Hindu podem ser a reencarnação
de alguns familiares – transitam livremente
pelas ruas. Pelas mesmas ruas onde o comércio
ferve durante o dia e cujas calçadas,
forradas com papelão, servem de cama
para muitos indianos, inclusive crianças,
durante a noite.
Na Índia, existem
três vezes mais ratos que a população
do país. Eles são responsáveis
pela destruição de um quarto
de toda a colheita da nação
e por espalhar várias doenças.
É difícil caminhar um quarteirão
em Mumbai ou parar o carro num engarrafamento
sem ser abordado por vários e insistentes
pedintes. Eles exibem sua miséria sem
orgulho e sem violência. Pedem muito,
mas não roubam nada.
Se um grande número
de indianos não tem onde morar, os
que têm raramente possuem geladeira,
videocassete ou chuveiro elétrico em
casa, e poucos, muito poucos mesmo, almejam
esses itens essenciais para nós ocidentais.
Aliás, eles não almejam muito
além da comida de todo dia e um espaço
para dormir.
O trânsito é
uma grande confusão. Pouco asfalto
nas ruas, menos ainda sinalização,
muita poeira e uma balburdia enlouquecedora
orquestrada pelo barulho de buzinas, objeto
que parece essencial para eles se entenderem,
já que está escrito na traseira
dos carros: “buzine, por favor”.
Mas raramente se vê motorista reclamando,
brigando ou xingando. Eles continuam dirigindo
calmamente em meio àquele caos.
Líderes trabalhistas
indianos, no Encontro das Confederações
Mundiais de Trabalhadores, que antecedeu o
IV FSM, disseram que a situação
do trabalhador na Índia é insegura
e indigna. Eles informaram que o Tribunal
Superior do Trabalho daquele país decidiu
no ano passado tirar dos trabalhadores o direito
de se manifestar. “A situação
do trabalhador indiano está se degenerando
e se encontra nas mãos dos empresários
que pressionam os trabalhadores a trabalhar
em condições quase escravas.
Nossa reivindicação principal
hoje é pelo direito de falar, de se
manifestar”, desabafaram.
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Tecnologia
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Apesar
da população de mais de um bilhão
de habitantes e da enorme pobreza que pode
ser considerada consequência disso,
o indiano tem boa escolaridade e normalmente
fala mais de uma língua. Além
do alto nível de espiritualidade, o
grande propósito da cultura indiana
é o conhecimento.
Eles têm como
princípio que o objetivo da vida na
terra é sair da escuridão da
ignorância e chegar à luz do
conhecimento. Exemplo disso é o fato
de que a primeira universidade do mundo, no
exato sentido da palavra, existiu em Nalanda,
Estado de Bihar, nos tempos ancestrais.
Os fundamentos da Matemática
nasceram na Índia. Além da Filosofia,
a grande contribuição desse
país para o mundo são os avanços
na tecnologia de informação.
A Índia hoje exporta PhDs na área
de softwares para a Europa e para os Estados
Unidos.
No campo da pesquisa
espacial, o telescópio Chandra da Nasa
leva o nome do físico indiano e é
superior em tecnologia na área das
telecomunicações. A Índia
também tem superioridade sobre muitos
países na área de biotecnologia.
Seis indianos já receberam prêmio
Nobel. Fora o de Madre Teresa de Calcutá,
que foi da paz, todos os outros foram na área
de ciências.
Matéria publicada
na revista Veja, na semana seguinte ao IV
FSM, quando aconteceu a visita do presidente
Luís Inácio Lula da Silva àquele
país, mostrou que a Índia é
o único lugar, além dos Estados
Unidos, onde a Intel, empresa líder
na fabricação de chips de computador,
montou, além das fábricas, um
avançado centro de pesquisas e desenvolvimento
de novos chips.
A Índia forma
quase 300 mil profissionais da área
tecnológica por ano e está liderando
a colonização da Internet. Do
total de US$ 78 bilhões exportados
pelas empresas indianas, 6 bilhões
vieram da venda de softwares e de serviços
de comunicação e de alta tecnologia.
A matéria diz ainda que a cidade indiana
de Banglore emprega 150 mil engenheiros de
software, computação e comunicação,
enquanto o Vale do Silício, nos Estados
Unidos, emprega somente 120 mil. E que a Índia,
junto com a China, atraiu a maioria dos 950
mil empregos de alta tecnologia que saíram
dos EUA desde 2001.
De acordo com expectativas
de analistas até 2005, os Estados Unidos
devem exportar um milhão de postos
de trabalho de alta tecnologia e com bons
salários. A previsão é
que a Índia fique com um terço
desses empregos.
Com certeza, é preciso conhecer muito
profundamente a história desse país
e o processo de modernização
pelo qual ele está passando para poder
entender tantos contrastes. Eu não
me atrevo. Essas linhas são apenas
impressões de uma primeira visita. |
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O
peso dos Dogmas
Como
o povo indiano assimila sua condição
de vida através da religiosidade |
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O modo de vida dos indianos pode, em parte,
ser explicado pelos dogmas religiosos seguidos.
Muito embora haja enormes conflitos também
nesse setor. O principal deles é a
disputa entre hindus e mulçumanos.
É uma profusão de deuses adorados
por diferentes segmentos da sociedade. O Hinduísmo
ainda é a religião com maior
número de seguidores. De um
bilhão de habitantes do país,
450 milhões são hindus. A segunda
maior religião é o Islamismo,
seguido do Budismo.
São muitos símbolos,
muitos rituais. A flor de lótus, por
exemplo, presente em muitas imagens, devido
ao fato de crescer na água pantanosa
e não ser afetada por ela, representa
que devemos ficar acima do mundo material,
apesar de viver nele. Talvez isso dê
alguma pista do que ocidentalmente rotula-se
de “resignação”
nos indianos.
Uma coisa que é
absolutamente importante para entender a cultura
indiana é a crença na reencarnação,
que para os hinduístas, assim como
para muitas outras religiões, é
um preceito básico e incontestável.
Na filosofia indiana, “a vida é
um eterno retorno, que gravita em ciclos concêntricos,
terminando no seu centro, coisas que os iluminados
atingem”.
Para os praticantes
do Hinduísmo, as dificuldades enfrentadas
na vida material não são motivos
de raiva, de revolta, assim como os erros
não são uma questão de
pecado, mas sim de imaturidade da alma. Eles
entendem também que o ciclo completo
da vida deve ser percorrido, e a posição
das pessoas em cada vida é transitória.
É o sistema de castas que implica uma
hierarquia. Antigamente, esse sistema era
seguido como lei, mas Mahatma Gandhi, o grande
personagem da libertação indiana,
contestou isso em nome dos direitos humanos
e hoje a mobilidade social já é
mais presente na Índia.
O Islamismo é
fundamentado sobre a crença de que
a existência humana é submissão
e devoção a Allah, Deus onipotente.
Para os mulçumanos, a sociedade humana
não tem valor em si, mas o valor dado
por Deus. A vida é uma oportunidade
de benção ou penitência.
A Índia é
a terra onde nasceu Buda e onde o Budismo
começou. Alguns não o denominam
de religião e sim de filosofia, pois
não existe adoração a
Deus. O ser humano é levado a conquistar
a paz interior pelo que os praticantes chamam
de caminho do meio, ou seja, o equilíbrio.
No Budismo, o sofrimento é causado
pelo desejo, e a prática da meditação
é usada para aquietar a mente e procurar
atingir o Nirvana, estado de perfeita paz.
O indiano dá
grande importância ao conhecimento e
à espiritualidade. Tanto que sua juventude
é absolutamente dedicada aos estudos
e a velhice, à realização
espiritual.
Por
Bety Rita Ramos
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“A vida é um eterno
retorno, que gravita em ciclos concêntricos, terminando
no seu centro, coisas que os iluminados atingem”. |
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