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  A terra como fonte de conhecimemto
 

Utilizando a terra como fonte para desenvolver conhecimento e gerar novas tecnologias, os engenheiros cartográficos, geólogos, geógrafos e engenheiros agrimensores têm suas datas comemorativas nos meses de maio e junho. Entre a falta de investimentos na profissão e avanços em alguns cursos, eles vão contribuindo para o processo do país

Desde que os gregos iniciaram suas expedições militares e de navegação e criaram o principal centro de conhecimento geográfico do mundo ocidental, a confecção de mapas faz parte da história. Normalmente, a confecção de um mapa começa a partir da redução da superfície da Terra em seu tamanho. Em mapas que figuram a Terra por inteiro, em pequena escala, o globo se apresenta como a única maneira de representação exata. A transformação de uma superfície esférica em uma superfície plana recebe a denominação de projeção cartográfica. Portanto, é a arte e a ciência de graficamente representar uma área geográfica em uma superfície plana como em um mapa ou gráfico (normalmente no papel ou monitor). As representações de área podem incluir superimposições de diversas informações sobre a mesma área através de símbolos, cores, entre outros.

A cartografia data da pré-história, quando era usada para delimitar territórios de caça e pesca. Na Babilônia, os mapas do mundo eram impressos em madeira, num disco liso, mas foram Eratosthenes de Cirene e Hiparco (século III a.C.) que construíram as bases da moderna cartografia com um globo como forma e um sistema de longitudes e latitudes. Hoje em dia, a cartografia é feita através de fotometria e de sensoreamento remoto por satélite. Com a ajuda de computadores, mais informações podem ser visualizadas e analisadas pelos geógrafos, fazendo mapas que chegam a ter precisão de até 1 metro.
O engenheiro cartográfico tem sua data comemorativa no dia 6 de maio, exerce funções administrativas e políticas como na demarcação de áreas e fronteiras, além de ser responsável pelo cadastro e utilização de técnicas para elaboração de projetos de construção de barragens e estradas, monitoramento de safras, trabalhos de proteção ambiental e trabalhos em campos de mineração, dentre outras atividades. Os cursos formam ainda técnicos e tecnólogos, mas que para ter o direito do exercício profissional necessitam ingressar em um curso superior específico.

Cerca de 150 engenheiros cartógrafos ingressam no mercado de trabalho, a cada ano, oriundos das oito instituições de ensino superior existentes no Brasil. Esses profissionais concentram-se, em sua maioria, nas regiões Sudeste e Sul. A situação enfrentada pelos engenheiros cartógrafos hoje, segundo Paulo César Trino, presidente da Sociedade Brasileira de Cartografia, “se for analisada pelo lado da demanda de infra-estrutura e do ordenamento territorial, tem perspectivas de um futuro promissor, mas, se for avaliada pelos planos e orçamentos previstos, remete a uma série de desastres setoriais de grandes proporções”. Isso acontece, de acordo com Trino, porque os investimentos governamentais no nível federal têm sido feitos no sentido de se manter as instituições existentes, carecendo de maiores investimentos na área de aprimoramento tecnológico.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cartografia afirma que existe uma falta de profissionais especializados para atender às diversas demandas da nação e de seus cidadãos. “Há falta de um projeto nacional consubstanciado por planos setoriais nas áreas de transporte, mineração, energia, telecomunicações, saneamento e controle ambiental, e a não-existência ou o contingenciamento dos orçamentos correspondentes criam a ilusão de que temos hoje o número de profissionais necessários”, conclui.

 

Mercado promissor

Outro profissional que merece destaque é o geógrafo. Com o seu dia comemorado em 29 de maio, tornou-se uma figura fundamental no que se refere aos projetos de desenvolvimento territorial, aos planos diretores municipais e aos estudos de impactos ambientais, isso porque este não é apenas um trabalho técnico, mas exige escalas mais amplas que outros profissionais. Por exemplo, quando o geógrafo trabalha em um projeto de desenvolvimento territorial, é preciso pesquisar e conhecer diferentes fatores socioeconômicos e políticos para melhor propor políticas públicas. Para que esse profissional possa realizar um trabalho eficiente, a qualificação profissional vem sendo exigida cada vez mais. Portanto, o mercado é crescente para os bacharéis. Essas possibilidades são ampliadas quando esses profissionais possuem mestrado e doutorado.

Para o presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), Bernardo Mançano Fernandes, esta profissão exige dedicação total, pois é preciso compreender os processos geográficos e atuar no desenvolvimento de projetos territoriais. Isso exige muito trabalho e estudo constante. Segundo Fernandes, há uma tendência em ascensão, que é o desenvolvimento de políticas territoriais em diversas escalas. Um exemplo é a Alca. Hoje, há diversos profissionais atuando nessa área, como, por exemplo, os economistas, sendo que os geógrafos vêm atuando cada vez mais nesse espaço.

Atualmente, existem no Brasil em torno de 200 cursos de geografia, além de 28 cursos de pós-graduação. Há, assim, uma ampla e significativa produção técnico-científica de Geografia, o que pode ser atestado pelo número de publicações de livros, boletins e revistas. A estimativa da AGB é de que 5 mil geógrafos sejam formados todos os anos. De acordo com o presidente da AGB, os investimentos nos cursos de pós-graduação e também na criação de novos cursos são constantes. Todavia essa é uma tendência para diversos cursos. Com o aumento da escolarização de uma fração da sociedade, há muitas pessoas interessadas em fazer o curso superior. Para os próximos anos, a expectativa da Associação dos Geógrafos Brasileiros para o setor é promissora. “A idéia de território vem sendo cada vez mais utilizada nos planos de governo e por conseguinte nas políticas públicas. Essa condição aumenta as perspectivas para os geógrafos”, afirma Bernardo Mançano Fernandes.

Entre os dias 18 e 23 de julho de 2004, será realizado o 6º Congresso Nacional, com o tema: 70 Anos da AGB: as Transformações do Espaço e a Geografia do Século XXI. Durante o evento, serão apresentadas as novas perspectivas de acordo com as tendências presentes hoje na realidade brasileira.

 

Falta de investimentos

O Dia do Geólogo é comemorado em 30 de maio. Com uma média de 200 novos profissionais entrando no mercado todos os anos, estima-se que existam hoje no país 8 mil geólogos. Ao todo, são 19 universidades no país, sendo que o maior número está em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo apenas uma delas de ensino privado. Mas, apesar deste número, segundo o presidente da Federação Brasileira dos Geólogos (Febrageo), Ricardo Latgé de Azevedo, países similares ao Brasil em dimensão territorial e características geológicas têm contingentes de profissionais bem superiores ao nosso, apesar de já terem o seu subsolo e potencialidades dos seus territórios razoavelmente investigados. Segundo Azevedo, as oportunidades de emprego ainda estão reduzidas pelas limitações de ordem política e econômica. “O Brasil certamente demanda um número maior de geólogos, o que implicará o futuro no aumento do número de cursos e vagas”, conclui.

O presidente da Febrageo diz ainda que o investimento do governo em especialização para os profissionais está muito aquém do necessário. As universidades federais e estaduais sofrem as agruras do brutal esforço para garantir o superávit fiscal das contas públicas e suas conseqüências na gestão do setor público. Segundo Ricardo Latgé, a formação de um geólogo exige investimentos relativamente elevados não só em laboratórios, com seus equipamentos e custeio, como em trabalhos de campo, onde boa parte dos futuros profissionais exercerá a sua profissão. O caráter abrangente de geologia contribui também para exigir um contingente maior de docentes por aluno. Para tentar resolver o problema, a comunidade acadêmica vem discutindo como melhor aproveitar as competências de saber e infra-estrutura material na formação dos futuros profissionais, a integração com as empresas e em outras ações em benefício da sociedade.

O geólogo conta que a crise econômica na segunda metade dos anos 1980 e a implementação da política do “Estado Mínimo” reduziram sobremaneira a oferta de postos de serviço nessas áreas. Restou aos geólogos a alternativa de se tornarem profissionais prestadores de serviços, especialmente em atividades ligadas à pesquisa de água subterrânea e à gestão do meio ambiente, duas áreas que muito se expandiram nos últimos 15 anos. Por sua vez, as entidades classistas seguem defendendo a ampliação dos quadros de geólogos nas prefeituras e nos órgãos estaduais e federais, onde ainda é muito reduzido o número de profissionais que atua na gestão territorial.

De acordo com Ricardo Latgé de Azevedo, a geologia tem um campo vastíssimo a ser explorado, além daqueles onde o exercício dos seus profissionais já é mais conhecido. Por ter interfaces com várias áreas de conhecimento, o formado em Geologia pode atuar em atividades como geotecnia, geoquímica, geomatemática, geofísica e paleontologia. Para Azevedo, conhecer a geologia de um país é, fundamentalmente, uma decisão estratégica, pois assegura os insumos necessários para o seu desenvolvimento. Assim, quando um geólogo descobre um novo campo de petróleo, uma jazida de ferro, de areia, ou de um outro bem mineral, está oferecendo indiretamente a oportunidade a milhões de cidadãos para usarem a energia, bens e serviços demandados pela vida moderna. Estas descobertas de riquezas naturais facilitam a interiorização do progresso e a geração de novos empregos.

 

Expansão

O papel dos engenheiros agrimensores, que comemoram seu dia em 4 de junho, é bastante vasto, e isso se deve à quantidade de cursos existentes hoje no país. Ao todo, são 11 cursos superiores e uma grande quantidade de cursos técnicos, que destinam em média 350 novos profissionais ao mercado a cada ano. De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Engenheiros Agrimensores, Julio César Martins de Rezende, os Estados brasileiros que concentram maior atividade dos engenheiros agrimensores são Minas Gerais, São Paulo, Sergipe, Bahia, Piauí e Santa Catarina (na região de Criciúma).

Para o presidente da Fenea, a profissão de engenheiro agrimensor exige um profissional altamente qualificado e de reconhecimento, com especialização na Ciência da Terra e atualizado com as novidades do mercado. Segundo Rezende, a profissão, que faz o uso puro da Matemática e da Lógica, deve ser exercida com seriedade e com afinco, firmando um compromisso com a verdade e com a sociedade.

Entre as áreas que o engenheiro agrimensor pode atuar está a geodésia, astronomia, avaliações & perícias e topografia, passando pelas áreas de loteamentos, construções de estradas, demarcações, perícias técnicas, definição de limites e avaliação de espaços até as áreas de geoprocessamento e geoinformação entre outras atividades autorizadas pelo sistema.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos engenheiros agrimensores está na falta de uma fiscalização mais eficaz – no sentido de coibir profissionais que não têm qualificação para trabalhar na área e que acabam atuando como engenheiros agrimensores. De acordo com o presidente da Fenea, “o espaço territorial brasileiro é muito grande, tornando fundamental a criação de novas escolas de graduação, pois assim a sociedade deixará de ser enganada pelos profissionais inabilitados que querem exercer atividades sem a menor qualificação acadêmica e profissional”, conclui Julio César Martins de Rezende.

 

Ricardo Latgé
de Azevedo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bernardo Mançano Fernandes

 

 

    
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