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  São Luís: enfrentando desafios rumo à sustentabilidade
 

A cidade que vai receber a 61a SOEAA mostra que encara seus problemas e limitações com seriedade e planejamento. A visão que fica é de um município em desenvolvimento, cujas oportunidades estão despontando e cujo potencial não pode ser ignorado pelo resto do país

Conhecida como a cidade dos azulejos e a Atenas brasileira, São Luís se prepara para receber a 61ª SOEAA e ser palco do encontro das discussões reunidas em todo o Brasil sobre “exercício profissional e cidades sustentáveis”. Mais do que a cidade anfitriã do evento, a capital maranhense revela-se um destino interessante para os profissionais do sistema Confea/Crea analisarem na prática o tema do encontro. Com sua geografia, história e economia particulares, São Luís mostra que é um exemplo de cidade brasileira que está encontrando meios para se tornar um município sustentável.

É impossível falar da São Luís de hoje sem conhecer sua história. Isso porque sua colonização foi fundamental para o desenvolvimento da configuração atual da cidade. São Luís é a única capital brasileira que foi francesa, holandesa e portuguesa e conserva vestígios e heranças de todos esses povos. Além disso, a cidade recebeu influência das populações nativas, representadas pelos Tupinambás e por suas variações mestiças como os mamelucos e os caboclos. A partir do século XVII, São Luís foi marcada pela chegada de massas de escravos africanos que vinham principalmente das costas da Mina e de Angola.

Nessa época, também chegavam dos Açores casais de colonos que tentavam introduzir nas terras de São Luís culturas de exportação como açúcar e algodão. Para atrair mais investimentos e imigrantes para a região, foi lançada uma campanha de imprensa com o mote “Relação Sumária das Coisas do Maranhão”, dirigida aos “pobres” do reino de Portugal. São Luís passou a se desenvolver e começou a ser vista como um objetivo estratégico para as potências do antigo continente que tiveram a capital do Maranhão como a primeira fundação européia na tórrida zona equatorial e na entrada da floresta Amazônica. O desafio para o homem branco se adaptar ao clima e ao ambiente desconhecido fez surgirem problemas totalmente novos. Os imigrantes que chegaram à cidade precisavam então criar uma cidade equatorial capaz de prover suas necessidades e definir uma função urbana que garantisse sua visibilidade, continuidade e crescimento.

Essa nova cidade começou a aparecer a partir da metade do século XVII, quando surgiram os primeiros palácios de São Luís. No começo do século XIX, apareceram os famosos sobrados com portas e janelas amplas para se adaptarem ao clima da região equatorial. Aproximadamente em 1830, começou a fervilhar na cidade a moda de revestir as fachadas com quadrados de cerâmica, os azulejos. São Luís tornou-se então “la petite ville aux palais de porcelaine”, como a chamou em 1847 um viajante francês. O sucesso dessa febre foi tamanho que passou a virar mania também para os moradores de Porto e Lisboa. Pela primeira vez, uma invenção artística da colônia influenciava a metrópole.

A moda de revestir as casas com azulejos foi também um reflexo da agitada vida cultural da cidade. São Luís foi a primeira cidade brasileira a receber uma companhia italiana de ópera e uma das primeiras a ter ruas calçadas bem iluminadas. Os navios traziam toda semana as últimas novidades da literatura francesa e as famílias ricas mandavam seus filhos estudarem na Europa. Por causa dessa efervescência cultural, a capital do Maranhão ficou conhecida também como a “Atenas brasileira”.

 

Os desafios do patrimônio histórico

A cidade dos azulejos conserva hoje um centro histórico com cerca de 6 mil prédios. É um dos maiores acervos mundiais de arquitetura civil de origem diretamente européia, adaptada a um meio ecológico único, ao clima e às necessidades específicas da zona equatorial. Além de patrimônio histórico, os casarões dividem a cidade em duas partes: o antigo e o moderno, que exigem tratamentos diferenciados por parte da administração municipal. “A recuperação da parte histórica de São Luís é um exemplo de como podemos desenvolver o moderno sem prejudicar o patrimônio”, destaca o presidente do Crea do Maranhão, engenheiro civil José Pinheiro Marques.

Muito mais do que preservar a história local, os casarões movimentam o turismo da cidade que é um setor estratégico da economia de São Luís. Isso se observa no Plano Estratégico de Desenvolvimento Industrial do Maranhão, elaborado pela Federação das Indústrias do Maranhão (FIEMA), que coloca a atividade turística na Ilha de São Luís como uma das cadeias produtivas da cidade. É o que destaca o presidente da Federação, Jorge Mendes. “Nos últimos anos, o setor do turismo recebeu uma maior atenção e, conseqüentemente, investimentos por parte do governo e de diversas entidades. Entretanto, ainda são necessárias diversas ações em prol do turismo, como a elevação do nosso aeroporto a status de internacional, o que só acorreu recentemente, e investimentos em grande escala para capacitação de todos os agentes envolvidos na cadeia, o que vai desde a conscientização da própria comunidade quanto à atividade até a capacitação de pessoas envolvidas diretamente no trade turístico.”

O aprimoramento das pessoas é outra preocupação da prefeitura municipal. “O principal desafio do turismo hoje é a capacitação de mão-de-obra para vários setores de atendimento aos visitantes”, resume o secretário de Turismo da cidade, Narcio Daz. “São Luís é uma cidade muito bonita. Por isso, apesar dos problemas de ser a capital de um Estado pobre e de um país ainda em desenvolvimento, temos muitas vantagens a oferecer aos nossos turistas. Temos as belezas naturais, um centro histórico que guarda o maior patrimônio de azulejos portugueses da América Latina e casarões inesquecíveis. Temos também uma culinária maravilhosa e um povo caloroso e hospitaleiro que fazem com que todos que aqui vêm tenham vontade de voltar”, acrescenta.

A iniciativa é apoiada pela Associação Comercial do Maranhão, como destaca o presidente Luiz Carlos Cantanhede Fernandes. “Estão sendo feitos investimentos, que acreditamos ser estratégicos para o desenvolvimento sustentável da cidade de São Luís.”

 

Uma cidade particular

O potencial turístico e a preocupação com a preservação histórica são apenas alguns aspectos que caracterizam a cidade de São Luís. Com cerca de 930 mil habitantes e uma das três capitais brasileiras localizadas em ilhas, a maior delas em território, São Luís precisa ser analisada de acordo com as suas especificidades. “Por ser uma ilha, tem uma forte preocupação com o meio ambiente e recebe influência direta das marés que chegam a atingir oito metros, a segunda maior maré do mundo. O município também é marcado pelos rios e lagos que intercortam a região. Além disso, a cidade é bastante próxima da Base Militar de Alcântara, uma área de segurança nacional. Todos esses aspectos impõem alguns critérios para o mecanismo de ocupação e para as restrições do desenvolvimento da cidade”, explica o presidente do Confea, Wilson Lang, que tem o título de cidadão de São Luís.

As preocupações ambientais ressaltadas por Wilson Lang ganham mais espaço pela degradação provocada pelas migrações para a capital do Maranhão. “O Estado tem baixos índices de desenvolvimento humano nas cidades do interior, o que provoca uma ocupação urbana desordenada em São Luís”, esclarece o secretário de Turismo Narcio Daz.

O crescimento acelerado da cidade dificulta a oferta de serviços de saneamento básico. “Alguns rios da cidade estão poluídos pelo sistema de esgoto antigo que era ineficiente. As estações de tratamento agora precisam ir mais longe”, destaca o presidente do Crea Maranhão. Suprir a carência de serviços básicos como o saneamento também é defendido pelo presidente da Associação Comercial do Maranhão como um dos desafios para a cidade.

“São Luís é uma ilha encantadora, cercada de mistérios e lendas e de um rico acervo histórico, cultural e arquitetônico. Entretanto, a cidade ainda enfrenta problemas no sentido de corrigir a exclusão social existente, além de questões como o acesso e o atendimento no sistema público de saúde e educação e geração de empregos.”

Outro problema que está sendo trabalhado pela prefeitura é a coleta de lixo do município. São Luís já foi considerada uma cidade suja, mas de acordo com o secretário de Turismo atualmente a quantidade coletada em São Luís corresponde a 92% da população. “Isso significa um bom resultado. Mas temos um projeto de chegar a 100% da coleta e vamos dar um passo adiante agora, iniciando a coleta seletiva para o tratamento do lixo de nossa cidade. Uma solução que tanto é extremamente positiva do ponto de vista ambiental como também representará a possibilidade de aumento de renda para muitas famílias”, acrescenta Pinheiro, presidente do Crea.

Na Câmara Municipal de São Luís, o também engenheiro civil e vereador, José Joaquim Guimarães Ramos, resume qual é o perfil da cidade de São Luís que está sendo trabalhado através dos projetos dos vereadores. “Uma cidade urbanizada com saneamento, áreas verdes, espaços de esporte e lazer, avenidas e ruas que permitam segurança para pedestres e motoristas, facilidade de deslocamento para usuários de transporte coletivo, ordenação do espaço urbano, áreas com ocupação planejada que se antecipam às invasões, escolas e hospitais em áreas de fácil acesso e segurança.” E completa: “Mas o que dou maior destaque é à solução da falta de segurança, emprego e renda”.

 

Uma ilha de oportunidades

Sede do desenvolvido Porto de Itaqui, que recebe os maiores navios graneleiros do mundo, e anfitriã da instalação de quatro grandes siderúrgicas, a cidade de São Luís é considerada por alguns a “bola da vez” do setor econômico brasileiro. No total de ICMS arrecadado no Maranhão, São Luis é responsável por 64%, segundo informações da Secretaria da Receita Estadual em 2003. Além disso, a cidade é responsável por 53% do total da receita do Estado.

Segundo a Associação Comercial do Maranhão, em São Luís predomina o setor terciário. Cerca de 89% das empresas existentes estão nesse setor – 54% na área de comércio e 35% na área de serviços –, enquanto os setores de apoio (escola, hospitais, bancos, associações, entre outros) concentram 7% e  os estabelecimentos industriais, somente 4% do total das empresas, segundo dados do Sebrae. A cidade também é destaque em minero-metalurgia, minerais não-metálicos e construção civil.

A importância econômica do município é reconhecida pela Federação das Indústrias do Maranhão, mas precisa de alguns investimentos como afirma o presidente Jorge Mendes. “A cidade oferece um Distrito Industrial, mas a estrutura deve ser melhorada. Estamos presenciando ações por parte da iniciativa pública e privada e ainda a chegada de novos investimentos, o que com certeza trará um avanço na eficiência da estrutura disponível.” Segundo o cadastro de 2002 da federação, de um total de 2.492 indústrias no Maranhão, São Luís possui 1.061indústrias.

O vereador José Joaquim Guimarães Ramos destaca a importância da ação dos profissionais vinculados ao Crea. “É preciso maior acompanhamento e participação dos engenheiros, arquitetos, agrônomos e técnicos nos grandes, médios e pequenos projetos que estão sendo implantados em nosso município.”


A participação dos profissionais

A participação dos profissionais também é defendida por Wilson Lang como um catalisador das ações desenvolvidas para estimular o desenvolvimento de São Luís e de outras cidades brasileiras. “É preciso que o profissional tenha espírito coletivo para poder influenciar nas ações políticas e públicas do município”, diz.

No Maranhão, são cerca de 12 mil profissionais atuando na área de tecnologia, sendo que 80% estão empregados em São Luís. As áreas de atuação são as mais variadas, como a agricultura no interior, a extração de minério, o porto de Itaqui e a construção de estradas. Esses nichos de mercado absorvem a mão- de-obra que sai das seis instituições de ensino que formam profissionais da área de tecnologia no Estado do Maranhão. Diante desses dados, as expectativas com a realização da 61ª SOEAA são as melhores possíveis. “A semana vai coroar o trabalho dos profissionais, além de fortalecer o sistema Confea/Crea”, acrescenta Lang.

São Luís como cidade anfitriã também deve se beneficiar muito com a realização do evento. “Todos os debates e discussões da Semana poderão ser aplicados a São Luís, em especial o curso que vai abordar a questão do patrimônio histórico”, destaca o presidente do Confea. E São Luís deve receber de braços abertos o evento. “A cidade já se preparou e está toda colorida para a Semana”, brinca o presidente do Crea Maranhão.


Adriane Pereira

José Pinheiro Marque


“A cidade dos azulejos conserva hoje um centro histórico com cerca de 6 mil prédios.”










































Wilson Lang




“Por ser uma ilha, tem uma forte preocupação com o meio ambiente e recebe influência direta das marés que chegam a atingir oito metros,...”


 

    
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