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Digitalmente correto


A inclusão digital já é um imperativo neste século, mas muito mais do que isso ela é sinônimo de desenvolvimento social e sustentabilidade

Um pequeno município do interior do Rio de Janeiro – Piraí – tornou-se um modelo de cidade digital e mostrou que com vontade e parcerias é possível transformar uma cidade. Em sete anos, a prefeitura do município “conectou” praticamente toda a sua população ao mundo da internet. As 18 escolas e a Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae) têm computadores conectados à internet em sistema de banda larga. Dos 500 professores da rede pública municipal, 300 já foram capacitados para trabalhar com o mundo digitalizado e com a internet. Os habitantes de Piraí contam, hoje, com quatro cursos universitários de ensino a distância.

“Não diria um diferencial. Precisa de vontade política, competência e acreditar na realização” – isto foi o que respondeu o prefeito de Piraí, Luiz Fernando de Souza, conhecido por ‘Pezão´, quando lhe foi perguntado sobre a necessidade de um diferencial humano no projeto, já que este tranqüilamente pode ser duplicável, mas as pessoas envolvidas não.
Piraí está a 70 quilômetros da capital do Estado e tem cerca de 22 mil habitantes. O município é o primeiro do país a ser considerado digital e é exemplo na América Latina no programa de inclusão digital. Todo o seu processo de informatização rendeu prêmios. Neste ano, o projeto Piraí Digital foi escolhido “Melhor Projeto de Cidade Digital da América Latina em Cidades de Pequeno Porte”, concedido pelo Instituto para a Conectividade das Américas (ICA) e pela Associação Hispano-Americana de Instituições de Pesquisa e Empresas de Telecomunicações (Achiet) e ganhou o “Prêmio Gestão Pública e Cidadania” (Fundação Ford, Fundação Getúlio Vargas e BNDES). O pequeno município fluminense é considerado o mais avançado de toda a América Latina no que diz respeito à inclusão digital.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 12% da população brasileira tem computadores em casa e, destes, apenas 8% estão conectados à internet. Apesar desta realidade, o Brasil ainda ocupa a segunda posição entre os países mais informatizados da América Latina perdendo, apenas, para o Uruguai.


O início da história

Internet para todos

Mexendo com a auto-estima

@educação

@governo

Parcerias otimizaram investimentos iniciais

Efeito muitiplicador

Novas tecnologias podem acelerar o processo de inclusão



O início da história

Em 1997, com a privatização da Companhia de Energia Elétrica Light, mais de 1.300 trabalhadores de Piraí foram demitidos. Com isso, a prefeitura resolveu desenvolver um estudo sobre as potencialidades da região e novas alternativas de emprego. A partir da definição dos principais indicadores da realidade local foi que surgiu a idéia de fazer um programa abrangente, que fosse além da questão econômica, social, cultural e ambiental, dentro de um contexto maior de inclusão digital que pudesse otimizar o acesso ao mundo virtual.

De acordo com o prefeito “Pezão”, desde o seu primeiro mandato a prioridade foi a inserção de novas tecnologias na administração. “Em 1997, fizemos um plano diretor de informática, no qual foram treinados 300 servidores. Havia também um comprometimento de iniciar um processo de informatização das escolas. A partir do “Prêmio Gestão Pública e Cidadania”, que recebemos em 2001, partimos para um projeto de inclusão digital como fator de inclusão social e no primeiro momento elaboramos o projeto educacional, para depois ampliarmos para as outras áreas de atuação”, esclarece o prefeito.



Internet para todos

Segundo o prefeito, o objetivo de Piraí – Município Digital - é a democratização do acesso aos meios de informação e comunicação, gerando oportunidades de desenvolvimento econômico e social. “Com o projeto, nós buscamos ampliar os horizontes da cidade no sentido de utilizar e gerenciar conhecimentos por meio da implantação de uma rede de transmissão de voz e dados que permite o acesso à internet em banda larga. Assumimos a visão estratégica de uma sociedade de informação local, um lugar onde o cidadão se torna o principal ator na produção, gestão e usufruto dos benefícios de novas tecnologias de informação e comunicação”, explica Pezão.

Na elaboração do projeto Piraí Digital, três focos principais foram trabalhados: arquitetura de rede, desenho de gestão e desenho do controle social. A arquitetura de rede foi trabalhada no sentido de garantir o acesso universal e constituir uma nova infra-estrutura municipal através de um serviço de comunicação digital. Esse processo rompeu com os limites dos processos tradicionais de inclusão digital ponto a ponto e constituiu uma nova rede, integrando as redes de infra-estrutura já existentes, como energia elétrica, saneamento, etc.

O coordenador-geral do projeto, o engenheiro eletrônico Franklin Dias Coelho, explica que o resultado foi a criação de um sistema SHSW (sistema híbrido com suporte wireless usando cabos e fibra ótica) que permite com um baixo custo e com tecnologia flexível ser aplicado e replicado em pequenos municípios. O sistema foi inaugurado em fevereiro deste ano e está funcionando com cobertura em todo o município. A partir da infra-estrutura física, foi consolidado um desenho de gestão com a constituição de quatro grandes áreas de atividades com seus objetivos específicos: GOV, EDU, ORG e COM. O primeiro deles – GOV – trabalhou o desenvolvimento do e-governo e da governança eletrônica. O EDU desenvolveu uma nova pedagogia nos laboratórios das escolas, adequando os parâmetros curriculares atuais. O ORG implantou telecentros com serviços e cursos. O COM disponibilizará o acesso à internet para a população a preços baixos. (Áreas de interesse social, definidas pelo plano diretor que irão receber a internet social, por um custo de R$ 35,00. As inscrições para a população do município já começaram e em pouco tempo começam as instalações nos domicílios.)

O terceiro foco – o controle social – é realizado a partir da criação do conselho da cidade (formado por 70 membros) que acompanha o impacto territorial dessa transformação na cidade. Além disso, o município tem um sistema de informação, ouvidoria e geoprocessamento por bairros, integrando-se perfeitamente ao plano diretor do município. “Hoje são seis quiosques em toda a cidade, mas a idéia é termos um por bairro e um telecentro por cidade, já que estamos replicando este projeto para todo o sul fluminense com apoio do governo do Estado”, conclui o engenheiro eletrônico.



Mexendo com a auto-estima


O prefeito de Piraí afirma que desde o início acreditava que o projeto tinha um caráter inovador, era totalmente original e tinha ampla abrangência social. “A dimensão do que estamos fazendo não é mensurada de imediato pela população, mas de qualquer maneira estamos monitorando este impacto e ele se dá em vários níveis: na educação, na parte de governo e em termos de emprego, mas a maior mudança é a auto-estima do cidadão”, assegura Luiz Fernando “Pezão”.

Todo o processo de informatização foi feito com “software livre” o que, segundo o prefeito, barateou os custos. Ele ainda lembra que a digitalização é apenas um instrumento para o desenvolvimento econômico e social dos municípios. Ressaltou que 80% dos municípios brasileiros têm menos de 50 mil habitantes e, se não estiverem incluídos no mundo digital, não terão oportunidades de crescimento e de educação de qualidade.


@educação


As novas tecnologias foram utilizadas como ferramenta para a melhoria de qualidade de ensino, na construção de uma nova escola com participação mais ativa dos alunos. O que segundo o prefeito e o coordenador do projeto tem um envolvimento que é relatado pelos próprios estudantes. Além disso, aqueles alunos com maior dificuldade de integração são atraídos e se integram de forma mais permanente com a possibilidade de uso da internet, de produção de conhecimento, da possibilidade de falar sua própria linguagem utilizando esse meio de comunicação. No caso do pré-vestibular social, abriu a possibilidade de a grande maioria que termina o segundo grau na cidade ingressar nas mesmas condições que um aluno de escola particular de fora do município.


@governo


Os terminais públicos (quiosques) garantem acesso a um conjunto de serviços que antes a população só poderia obter se deslocando de seu bairro. Como antes o município não tinha nenhum tipo de conexão banda larga e o acesso discado era muito ruim, a introdução da rede tem o impacto de gerar uma nova cultura, e é sensível a mudança dentro da cidade.

“Desde o produtor rural de bermudas e descalço, abrindo a internet num quiosque para participar de um projeto de produção da Tilápia, até um motorista de ônibus da rodoviária que pára para ver seu horóscopo e seus e-mails. Lembrando, ainda, que em termos de emprego o projeto gera um campo de ocupações novo na cidade, o que permite o surgimento de microempresas”, destaca Coelho.

O prefeito do município explica que o Piraí Digital iniciou com recursos próprios da prefeitura de Piraí e utilizou o apoio de parceiros como a Universidade Federal Fluminense (UFF), com a qual a prefeitura fez um convênio de cooperação, e com a Instituição de Ensino Superior a Distância (Cederj), consórcio de todas as universidades públicas localizadas no Estado. “Como a prefeitura já tinha um recurso inicial do próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para modernização tributária, iniciamos uma nova consulta ao banco para a possibilidade de, além das secretarias colocadas em redes, incluir, com o mesmo montante, as escolas e os terminais públicos. Iniciamos desse modo o processo de implantação da rede SHSW com recursos do banco e contando com investimento de uma empresa de telecomunicações especializada em internet sem fio (Taho)”, conta o prefeito.


Parcerias otimizaram investimentos iniciais


A conexão e a manutenção da rede de Piraí foram assumidas pela Rede Rio, que é uma rede de computadores integrada por universidades e centros de pesquisa localizados no Estado do Rio de Janeiro. Os equipamentos de escolas, quiosques e telecentros foram fornecidos pelas empresas Schweitzer, que equipou o laboratório do distrito de Santanézia, e Itautec, o telecentro do distrito de Arrozal. O Banco Real e o Sebrae disponibilizaram quiosques para acesso gratuito à internet em pontos centrais das cidades e dos distritos. “Com o apoio das universidades e dos técnicos de empresas, como foi o caso da Cintra, desenvolvemos o processo de otimização da rede, que reduziu os custos do projeto, e o desenvolvimento de programas de capacitação e de produção de conteúdos digitais”, detalha o prefeito de Piraí.

Para a captação de recursos ao projeto, a prefeitura criou um Fundo Municipal de Ciência e Tecnologia. Um das formas de captação deste fundo é a doação de direitos autorais de livros para a utilização em atividades de inclusão digital do projeto. O governo federal, através do Ministério de Ciência e Tecnologia, concedeu suporte financeiro, que viabilizou a aquisição de 130 computadores para os laboratórios das escolas. O orçamento total em dólares foi de 41.200 em 2002, 126.700 em 2003 e 92.624 em 2004.

De acordo com o prefeito “Pezão” e com o coordenador do projeto de Piraí, Franklin Coelho, uma das principais dificuldades encontradas foi disponibilizar computadores baratos para a população. Mas o grande problema diz respeito aos conteúdos digitais em uma cidade em rede. “Estamos procurando fazer parcerias com outras instituições para desenvolvê-los”, salienta o engenheiro eletrônico.


Efeito muitiplicador


Para os responsáveis pelo primeiro município digital brasileiro, um dos aspectos mais instigantes do projeto é a sua possibilidade de replicabilidade em outros lugares. Segundo o plano de outorga da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a previsão para a entrada de acesso à internet em municípios com até 50 mil habitantes está estimada para depois de 2010 e sujeita a um plano de outorga no qual não há espaço para pequenas e médias empresas. “O município de Piraí, com seus 22.218 habitantes, não tem ADSL, acesso via cabo e só recentemente duas empresas especializadas em rede wireless se instalaram em função do ambiente inovador gerado pelo projeto. Nesse sentido, podemos afirmar que saímos de uma ausência completa de conexão de banda larga para a possibilidade de acesso universal à internet em banda larga. Este é um caminho que não está colocado apenas para o município de Piraí”, finaliza Luiz Fernando “Pezão”.
A informação da equipe técnica do Piraí Digital constatou que o projeto desenvolvido no município é inédito. Existem processos semelhantes no mundo, mas a rede é privada, com uma dimensão pública, e a de Piraí é considerada única.

Ellen Sezerino



Novas tecnologias podem acelerar o processo de inclusão
A Cianet Networking está lançando uma solução tecnológica que será capaz de aumentar o acesso das comunidades à rede mundial de computadores. Isso porque, a partir de agora, a conectividade estará mais rápida e mais barata. Com plataforma HPN, similar à conhecida ADSL, este sistema é capaz de transmitir dados e fornecer acesso à internet a uma velocidade de até 128 MBPS – cerca de 100 vezes maior que o atual padrão de banda larga. “O HPNv3 é um serviço inovador e pode acelerar o processo em municípios que estão implantando programas de inclusão digital”, afirma o diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresa, Ricardo May.

Entre as principais aplicações do sistema, estão a possibilidade de receber sinal de vídeo de alta definição, interatividade via linha telefônica e realização de videoconferências com maior qualidade de áudio e vídeo. “O uso em escolas, hospitais e órgãos públicos poderia ajudar muito no desenvolvimento das cidades”, salienta May. As soluções HPNv3 também são úteis em sistemas de segurança, pois possibilitam aproveitar a rede telefônica para transmissão de imagens geradas no interior de condomínios a centrais de vigilância eletrônica. Outra vantagem, além da velocidade, é a facilidade de instalação, já que o sistema aproveita a fiação existente.

O produto, cujo protótipo foi lançado na Futurecom 2004, a maior feira de telecomunicações da América Latina, deve chegar ao mercado no final do primeiro trimestre de 2005.

Luiz Fernando de Souza




“...a digitalização é apenas um instrumento para o desenvolvimento econômico e social dos municípios.”

 

 

 

 

 

 


















“...alunos com maior dificuldade de integração são atraídos e se integram de forma mais permanente com a possibilidade de uso da internet,...”

 

 

    
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