Foz do Iguaçu, 06 de agosto de 2015.
Pouco conhecidas fora do mundo agrícola, são inúmeras no país as empresas obtentoras – especializadas em desenvolver programas de melhoramento genético de produtos agrícolas. As de porte médio investem cerca de 10 a 20 milhões de reais por ano para serem viáveis. As de Biotecnologia, por sua vez, investem 100 vezes mais para ter um único produto. Essa informação foi fornecida pelo diretor-administrativo da Coodetec (Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola de Cascavel) e presidente da Braspov (Associação Brasileira de Obtentores Vegetais), Ivo Carraro, um dos palestrantes dessa quarta-feira (5) do XXIX Congresso Brasileiro de Agronomia, realizado de 04 a 07 de agosto em Foz do Iguaçu (PR). A seguir, acompanhe trechos de sua palestra:
Sementes de conhecimento
“A semente é um chip que carrega conhecimento tecnológico”, ensina o mestre e doutor das ciências agronômicas. “Temos 23 associadas que, com investimentos privados, criam muitas variedades de sementes em função das diferenças de solo e clima entre as regiões do país. Apesar da grande quantidade de variedades, todas precisam ser resistentes a pragas e doenças e capazes de gerar uma produção com qualidade e quantidade. O governo, por sua vez, mantém a Embrapa e os institutos estaduais que se destacam pela capacidade técnica de seus profissionais, mas não visam a lucros econômicos em seus resultados”.
Pulverização e paciência
Para Ivo, uma das questões a ser resolvida é o acesso do pequeno e médio produtor a esse tipo de conhecimento. “Outra está na área científica, em sua base, que é a pulverização de projetos pequenos e individuais, quando deveriam focar em um ou dois produtos”.
O presidente da Braspov também alerta para as intervenções políticas no segmento: “Empresas e universidades do governo, em geral, têm um veio político que atrapalha. Em muitos círculos, é crime pensar que um produto dará lucro para alguém e o trabalho não evolui. O mercado precisa de produtos em toneladas”, defende.
Falando sobre mercado de trabalho, o especialista afirma que é imenso, “mas o agrônomo precisa se dedicar e ter paciência, uma característica rara nos jovens de hoje”. Ivo diz que “é preciso madurar, tem que bater carreador e porteira”.
Sobre os produtos orgânicos, o diretor da Coodetec acredita que o setor “precisa estar aberto a novidades e que o selo de produção orgânica não é, necessariamente, sinônimo de qualidade”.
Quanto ao crescimento do consumo, Ivo define que os consumidores em grande maioria decidem suas compras com base no preço e esse não é o ponto forte dos produtos orgânicos. “Esses produtores precisam se integrar a outros segmentos. Do contrário, terão sempre um mercado consumidor restrito, já que seus preços são cerca de 50% mais altos que o dos produtos transgênicos ou convencionais”.
Diálogo e vontade política
Segundo Ivo, os produtores orgânicos precisam admitir que transgenia é Biologia: “Podem aumentar seu negócio sem perder as características de sua produção. É preciso um diálogo respeitoso entre os diferentes pensamentos. Senão, só dá em briga e isso não leva a nada”, alerta.
Sobre a produção brasileira de agrotóxicos, Ivo Carraro coloca nas costas do governo a responsabilidade pela indefinição de normas de exploração, produção e comercialização de fósforo e potássio, por exemplo, com jazidas já mapeadas e com grande capacidade de produção. “Tudo o que está embaixo da terra pertence ao governo e, na ausência de uma legislação pertinente de decisão política, o país deixa de produzir agrotóxicos que considerem na composição, as características de solo, clima e temperatura nacionais. O Brasil não tem normativos sobre isso”.
Sobre segurança alimentar, Ivo Carraro é taxativo: “A principal questão da segurança alimentar não está na produção, e sim na distribuição dos alimentos. O problema é distribuir”.
Cooperação: chave do sucesso
Girando em torno do tema central “Associar e cooperar – Os desafios profissionais frente às novas tecnologias”, Ivo defendeu que engenheiros agrônomos e os profissionais da cadeia produtiva devem sempre se atualizar e trabalhar em conjunto, numa grande cooperação em busca das melhores soluções. Para Carraro, integrar e associar é a melhor forma para resolver grandes problemas. “Um exemplo é a questão da erosão, com programa das microbacias e o plantio direto, que deu muito trabalho para ser implantado, mesmo com a participação e cooperação de todos, tanto de entidades públicas como as privadas”, disse. “Integrar e associar para gerar grandes soluções. A atitude da cooperação em si é fundamental, sem necessariamente estar vinculada às cooperativas. Juntos, somos mais fortes”, afirma.
Manejo integrado
“A busca de atualizações também deve ser uma constante”, alerta. “O principal desafio agora é saber lidar com o avanço rápido das tecnologias, se informar bastante e ser eclético, mas nunca se esquecer dos aprendizados históricos. No plantio direto, por exemplo, já tem muita gente relaxando. Precisamos resgatar o manejo de pragas, mesmo com o plantio de culturas resistentes. Essa filosofia do manejo integrado tem que ser mantida”, conclui.
Maria Helena de Carvalho
Equipe de Comunicação do Confea e Assessoria CBA
