Não é água, mas rima cada vez mais alegria com engenharia

Brasília, 9 de fevereiro de 2026.

De norte a sul do país, destilados e cervejas são os primeiros “acessórios” para a maior parte dos foliões. Tanto que muita gente se refere ao hábito, falando em "comer" água. Para garantir a segurança dessa turma que não abre mão da descontração até mesmo antes de enxergar ou ouvir o primeiro bloco, a engenharia entra em cena ao longo de todo o ano. E aí, os métodos mais tradicionais de produção da “branquinha” acabam sendo complementados ou até atualizados pelo uso de tecnologias de ponta que são comuns também na produção de vinhos ou da cervejinha que “anima” a maioria. Afinal, antes, durante e depois do primeiro gole ou do primeiro passo, a prioridade deve ser a saúde. Felizmente, apesar dos recentes casos de contaminação por metanol (veja a matéria “Profissionais da Engenharia Química esclarecem sobre a crise do metanol”), a expectativa é de que a alegria e a tranquilidade predominem nos quatro dias do Carnaval.

 

Roda d’água instalada em 1860 continua movendo a produção da Barra Grande, fazenda paulista que produz cachaça e outras alegrias, unindo tradição e inovação com engenharia
Roda d’água instalada em 1860 continua movendo a produção da Barra Grande, fazenda paulista que produz cachaça e outras alegrias, unindo tradição e inovação com engenharia



Da fazenda de 165 anos em Itirapuã (SP), com um engenho movido a uma roda d’água instalada em 1860, saem mais de 40 mil litros das cachaças Barra Grande e Santo Grau (80% da produção), esta fruto de uma parceria com uma vinícola espanhola. Uma produção crescente desde 2004, quando o registro da Barra Grande foi feito no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Desde 2002, a quinta geração da família é representada pelo engenheiro agrônomo Maurílio Figueiredo Cristófani.

Embora a Barra Grande atue com pecuária e madeiras nobres e produza também café, carne de lata, fubá, milho e cana-de-açúcar, vendida para usinas de etanol e da qual são feitos açúcar mascavo, melado e rapadura, foi a fabricação de cachaça que se tornou a principal porta de entrada para um turismo rural e histórico que atrai cerca de sete mil visitantes todos os anos. “Acabamos de apresentar versões reduzidas de rapadura e de carne de lata e também a nossa primeira cerveja artesanal, uma Pilsen, em uma parceria com uma cervejaria de Franca, a Sacramalte”, diz o diretor da Barra Grande. 
 

Novas tecnologias
A integração entre passado e novas tecnologias é uma das marcas da fábrica, desde que Maurílio retomou (e expandiu) a produção familiar, interrompida algumas vezes, a última por um incêndio na fiação externa da sede da fazenda, em 1998, que não atingiu o engenho. Em 2007, foi inaugurada a loja da fazenda. Em 2018, o primeiro restaurante. “Começou a ter demanda e, em 2022, dois anos depois de um incêndio na cozinha, ele passou por um aumento da estrutura”. 

 

Outras alegrias da Barra Grande: turismo e incremento das vendas em constante atualização
Outras alegrias da Barra Grande: turismo e incremento das vendas em constante atualização



Após concluir uma pós-graduação na área e três anos depois do registro no Mapa, Maurílio promoveu uma série de melhorias como a troca das dornas (recipientes para a fermentação do caldo de cana) de madeira por dornas em polipropileno.  “A pós me fez entender melhor esse universo. Tivemos um salto de qualidade entre 2007 e 2009, que se intensificou depois da parceria com a Santo Grau, em 2010”.  

A ponto de a empresa dispor de um selo de qualidade, descrevendo seu processo de produção e algumas de suas premiações. “A exportação é feita via marca Santo Grau. Na cachaça agora, temos o IPI na tampa da garrafa, o que ajuda o consumidor a saber que tem um registro”, diz Maurílio, considerando ainda que “poderiam vir mais elementos para agregar credibilidade aos produtos, para não ter problemas com falsificações. Estamos também fazendo lacres, rótulos e tampas mais personalizadas para não serem fáceis de ser substituídos, apesar de ser difícil falsificar marcas que não tenham um grande giro”.

 

Além da substituição das dornas, a Barra Grande atualizou suas caixas de coleta, seu decantador de caldo de cana e seu deflegmador (equipamento que aumenta a concentração de álcool) e também o recipiente inoxidável onde se faz a separação da “cabeça”, “coração” e “cauda” da cachaça (frações separadas em função do ponto de ebulição dos compostos voláteis presentes na mistura, durante o processo de destilação das bebidas alcoólicas, das quais apenas o “coração” é aproveitado, gerando o etanol e outras concentrações congêneres); e ainda fez adaptações nas tubulações de resfriamento do condensador “para poder deixar a serpentina de condensação sempre com água para que não houvesse risco de contaminação por cobre na cachaça”. Segundo Maurílio, essas inovações melhoraram a qualidade do produto como um todo. “As dornas deram uma assepsia ainda maior”.
 

Tecnologias usadas na Fazenda Barra Grande (SP)
•    100% de energia de origem solar (fotovoltaica); 
•    Aplicativos e drones em processos de gestão; 
•    Produção artesanal das cachaças; 
•    Polinização de abelhas;
•    Nutrientes inovadores, matéria orgânica, inseticidas biológicos, compostos orgânicos líquidos e sólidos, uso de adubo de liberação gradual;

As tecnologias de produção e de sustentabilidade, premiadas pelo Globo Rural, Banco Santander e outras entidades, são apenas algumas das expressões do trabalho conduzido pelo engenheiro agrônomo na Barra Grande. No dia a dia da fazenda, entram em cena ainda aplicativos para monitoramento da usina solar e monitoramento por câmeras, monitoramento via satélite para levantamento de áreas e outras iniciativas. 

 

O engenheiro agrônomo Maurílo Figueiredo Cristófani vem renovando a Barra Grande, apontando para a melhoria da qualidade de seus produtos com novas tecnologias e parcerias
O engenheiro agrônomo Maurílio Figueiredo Cristófani vem renovando a Barra Grande, apontando para a melhoria da qualidade de seus produtos com novas tecnologias e parcerias



“A gente preserva. Algumas matas são cercadas das áreas de preservação permanente e das áreas de pecuária para que o gado não acesse áreas de nascente, promovendo a regeneração natural da mata. Temos sempre novas mudas para plantios de árvores para ter madeira para uso da própria fazenda, como os meus antepassados fizeram. Temos hoje toras de eucaliptos plantados pelos meus bisavós para que outras gerações do futuro possam usufruir disso. Também plantamos mogno africano, cedro australiano, acácia. Eu mesmo assumo o manejo florestal. Não aplicamos a agrofloresta por causa da nossa topografia, uma região ondulada onde as áreas férteis não são planas. Nossa principal cultura é o café, nas partes mais altas, enquanto nas partes mais baixas plantamos cana. Investimos muito na irrigação nas lavouras de café porque temos sofrido com as mudanças climáticas, a oscilação das chuvas”, descreve o diretor responsável técnico da fazenda, que garante um produto diferenciado.

Apreciadores da “branquinha” podem estar lamentando não haver nenhuma referência à produção de Minas Gerais, mas, calma. Na próxima matéria, vamos apresentar a formação de especialistas na “marvada” do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). Depois de ser o primeiro curso de graduação dedicado à qualidade, sustentabilidade e controle de alambiques para formar profissionais com o título de tecnólogos em Produção de Cachaça, ele agora tem fila para formar especialistas na pinga, cana, branquinha, dourada, água que passarinho não bebe, aguardente, birita, celular. Confira. E lembre-se: beba com moderação. “A danada da cachaça”, como diz a famosa marchinha desde o Carnaval de 1953, tem mais engenharia, mas continua despertando a alegria e pedindo um pouco de água para reduzir seus danos eventuais.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea

Serviço:
Cachaça Barra Grande. Tel. (16) 99131-2032 - cachacabarragrande.com.br - @cachacabarragrande

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