Brasil corresponde a 3% do total de desperdício de alimentos do mundo

Brasília, 27 de janeiro de 2015

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente no mundo. O Brasil representa 3% dessa fatia. O presidente da Associação Brasileira de Engenheiros de Alimentos (Abea), Gumercindo Ferreira, considera o indicador 3% como “extremamente alto”. Ele argumenta que basta uma visita aos centros de distribuição de produtos de hortifruti para evidenciar o desperdício. “O descarte de alimentos que podem ser processados é enorme, na maioria das vezes por questões comerciais e não de saudabilidade”.

"Gumercindo Ferreira é engenheiro de alimentos, preside a Associação Brasileira de Engenheiros de Alimentos, e é coordenador do Colégio de Entidades Nacionais do Sistema Confea/Crea"

O presidente da Abea acredita que o Brasil tem as condições de reverter o quadro do desperdício. Entretanto, ele aponta que seria necessário um esforço de vários órgãos da sociedade, incluindo-se governo e empresariado. “Esta questão é diretamente relacionada à valorização profissional, pois um governo, ou empresário, que não valoriza o profissional atuante na área, não consegue valorizar a necessidade de desenvolvimento e utilização de métodos, equipamentos e pesquisas para aprimoramento e redução do índice”.

Em entrevista à equipe de Comunicação do Confea, Gumercindo assinalou que o governo precisaria se envolver nos centros de distribuição, criar regramentos e promover a inclusão do engenheiro de alimentos, investir valores em sistemas de utilização de produtos descartados por questões comerciais e, assim, otimizar o ciclo de aproveitamento dos alimentos, reduzindo o quadro de desperdício. “Com certeza, o engenheiro de alimentos é um dos profissionais qualificados para a adequação”, afirma.

Gumercindo lembra, ainda, que o desperdício começa na colheita do produto, pela falta de mão de obra qualificada e pelos baixos investimentos em equipamentos e condições de aquisição de equipamentos pelos produtores. “Ou seja, precisamos de políticas que incentivem a melhor manipulação dos produtos desde a sua colheita até o processamento e consumo”.

Regulamentação
O presidente da Abea destaca que a atividade de desenvolvimento de regras (leis) e fiscalização no setor produtivo é de conhecimento de várias formações profissionais. “Assim, tanto na esfera pública, quanto na iniciativa privada, as equipes devem ser provocadas à sua pluralidade. Não se pode conceber uma equipe de fiscalização da Anvisa ou do Ministério da Agricultura sem a presença de um engenheiro de alimentos. Porém, essa é a prática do governo no Brasil”. Para Gumercindo, a falta do uso de conhecimentos da Engenharia de Alimentos nos processos de desenvolvimento de regras e fiscalização pelo governo faz com que o mercado se desinteresse pela questão de aproveitamento. “A ausência da Engenharia de Alimentos nos órgãos de fiscalização e controle, bem como a falta de investimentos governamentais para o setor, cria uma situação apenas momentânea e comercial (financeira). Precisamos olhar a questão de desperdício como social, e assim promover o aproveitamento, dentro dos conceitos da segurança alimentar, do máximo permitido pelas técnicas existentes no mercado, e também, promover a revisão destas”.

De acordo com Gumercindo Ferreira, a Abea está envidando esforços para a realização de um encontro que proporcione a discussão do tema entre as lideranças profissionais, os profissionais, os acadêmicos e os reguladores da atividade. Dos debates, resultará um documento que norteará as atividades da Abea. “Essa atividade deve ocorrer em junho, paralelamente à Feira Fispal (Feira Internacional de Processos, Embalagens e Logística para as Indústrias de Alimentos e Bebidas) e acreditamos em sucesso de evento e de ideias para a abordagem do tema e melhorias na atuação dos egressos”.

Colégio de Entidades Nacionais destaca segurança alimentar
No âmbito do Sistema Confea/Crea, o Colégio de Entidades Nacionais (Cden) aborda o tema por meio de seu Comitê de Políticas Públicas, que trata, entre outros assuntos, de segurança alimentar. “O conceito ‘Segurança Alimentar’ é muitíssimo amplo, indo desde a produção do alimento, seja de origem animal ou vegetal, até o consumo pela população. Assim, ao tratarmos o tema, devemos considerar todas as profissões registradas em nosso Sistema. O ponto principal para o comitê sobre o assunto é entender e divulgar, quebrando paradigmas sociais e governamentais, promovendo o  reconhecimento pelo governo e sociedade de que nossas profissões são da área de saúde e que somente é possível oferecer qualidade de vida, saúde e segurança alimentar com nossas atuações”.

O Comitê de Políticas Públicas deve propor para este ano o desenvolvimento de ações que visem atingir o objetivo de reconhecimento e envolvimento do Sistema Confea/ Crea, Mútua e Entidades de Classe na área de Saúde Pública. “O objetivo é auxiliar o país a conduzir de forma sistêmica a questão de Segurança Alimentar”. Com assento no Cden, a Associação Brasileira de Engenheiros de Alimentos procura desenvolver suas atividades de acordo com o ritmo de provocação recebido pelos profissionais, promovendo o relacionamento dos mesmos com o mercado de trabalho, os conselhos profissionais, órgãos governamentais e a sociedade. “O grande desafio para 2015 é fazer com que todos os envolvidos - profissionais, conselhos profissionais, governo, empresários, sindicatos, acadêmicos e sociedade - reconheçam e promovam a valorização do engenheiro de alimentos como um profissional ligado à área da saúde. Temos mais de 70 mil profissionais formados e 50 mil atuando na Engenharia de Alimentos. Assim, é preciso unir esforços para conseguirmos pressionar o governo e revertermos este quadro”, concluiu.

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De acordo com dados da FAO, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente no mundo. 54% desse desperdício anual do globo se dá na fase inicial da produção do alimento, manipulação pós-colheita e armazenagem. Os outros 46% ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e no momento do consumo.

1 - Alimentos de origem vegetal - O engenheiro de alimentos envolve-se com o processo alimentar após a colheita. Pode colaborar com o desenvolvimento de equipamentos, práticas de transporte, manipulação e armazenamento destes produtos. O desperdício ocorrido antes da chegada à indústria deve ser tratado por equipe multiprofissional. No processamento dentro da indústria, o desperdício somente ocorre quando há falha de processo, o que é extremamente indesejável pelo engenheiro de alimentos responsável e pelas empresas. Assim, o objetivo do processamento é o maior aproveitamento entre o produto inicial e final, garantindo a saudabilidade do alimento produzido. Após a industrialização, o engenheiro de alimentos consegue oferecer conceitos de armazenamento e manipulação de embalagens para minimizar o desperdício. Vale identificar, aqui, que o comportamento do consumidor no momento da aquisição do produto, seja em uma feira ou dentro de um ponto de venda, é outro grande influenciador na questão desperdício, o que nos remete à formação social oferecida pelas nossas escolas, pela sociedade e pelo governo.

2 - Alimentos de origem animal - A divergência deste grupo para o anterior é, principalmente, que o processamento ocorre (em sua maioria) logo após o abate e que temos no Brasil uma restrição ao profissional da Engenharia de Alimentos. Viu-se no ano passado, na imprensa nacional, matéria sobre o abate de animais autorizado por municípios em total descomprometimento com a segurança alimentar. "Destaco que a participação do engenheiro de alimentos em todos os aspectos daquela matéria não é autorizada pelo governo. No processamento de produtos de origem animal, temos a utilização de toda a parte comestível dos animais com o desenvolvimento e criação de produtos de alta penetrabilidade no hábito alimentar do consumidor brasileiro", completou Gumercindo.

“Como podemos observar, o desperdício de alimentos tem no processamento o menor indicador. Este é o segmento que mais envolve a participação do engenheiro de alimentos. Ou seja, a presença desse profissional é importante para iniciar o processamento de um alimento, seja de origem animal ou vegetal”, explicou.

Equipe de Comunicação do Confea