Vitória (ES), 21 e maio de 2007
No dia 16 de maio, a cidade de Vitória (ES) viveu mais uma manhã de caos urbano. Duas passeatas - uma contra a violência e outra promovida pelos pequenos agricultores - paralisaram a cidade. Quem vinha no sentido Serra-Vitória perdeu mais de uma hora dentro do carro ou do ônibus, no trecho entre o Aeroporto de Vitória e a Ponte da Passagem, em Goiabeiras.
Na semana passada, um acidente na entrada da Segunda Ponte provocou um engarrafamento de mais de três quilômetros. Em outro ponto da cidade, uma manifestação do Sindipúblicos, em frente ao Ministério Público Estadual (MPE), na Enseada do Suá, transformou a entrada da Terceira Ponte em uma grande confusão de carros, com os motoristas tentando fugir do protesto.
Mas, engarrafamentos nas avenidas Fernando Ferrari e Dante Michelini, no sentido Serra-Vitória e na Terceira Ponte no sentido Vila Velha-Vitória pela manhã e nos sentidos contrários no final da tarde, são corriqueiros, diários. Nos horários de pico, as principais vias da Capital ficam tomadas pelos veículos por horas e se estendem por quilômetros. Em artigo publicado nessa terça-feira (15), no jornal "A Gazeta", sob o título "Lenha na Fogueira", o professor Roberto Garcia Simões fala da explosão de automóveis em Vitória: "Na virada do século, o Plano Diretor de Transporte Urban (PDTU) estimava para Grande Vitória 240 mil veículos, em 2005; hoje está em 350 mil." Para piorar a situação, obras de duplicação da Fernando Ferrari e emergenciais na Ponte de Camburi, embora fundamentais, vão coincidir, provocando assim um grande transtorno para os usuários dessas vias.
Obras
A partir do dia 2 de junho, a Ponte de Camburi (foto, em obras) será interditada por quatro meses no sentido Jardim da Penha-Praia do Canto. Com isso, o trânsito nos dois sentidos será feito pelo outro lado da ponte, que foi reformado em 2006. O investimento inicial para a reforma da ponte é R$ 1,8 milhão, mas esse valor pode chegar a R$ 2,7 milhões se as obras não forem cumpridas no tempo previsto (novembro deste ano) ou se surgirem mais demandas ao longo desse período. No ano passado, a reforma do outro lado da ponte demorou 72 dias, os engarrafamentos neste período se estendiam ao longo de toda a avenida, começando na altura da entrada da Rodovia Norte-Sul, no final de Camburi, pela manhã.
À tarde a fila tinha início em frente ao Hortomercado, na Praia do Suá. Construída em 1969, a ponte não passa por reforma desde 1987. Ela terá a estrutura central reforçada. Com isso, a capacidade de carga passará de 36 toneladas para 46. Do outro lado da Cidade, a ponte Florentido Avidos (foto) também passa por reformas. Desde meados de 2006, o roteiro e os horários de tráfego liberados para carros e transporte público em uma pista ocorrem da seguinte forma: das 5h às 14h no sentido Vila Velha-Vitória e das 14h às 5h horas no sentido Vitória-Vila Velha, o tráfego fica liberado para pedestres e ciclistas apenas em uma das passarelas.
Nesse período das atividades de restauração da Florentino Avidos, a recomendação do governo do Estado é que o usuário utilize a Segunda Ponte e a Terceira Ponte para transpor o canal da baía de Vitória. Levantamentos feitos pela equipe técnica de restauro indicaram que a cada minuto passam pela ponte um ônibus e três veículos de passeio. Com isso, o volume na Segunda Ponte aumentou consideravelmente. A situação se agrava nos horários de pico, porque ao chegar ao Centro há um afunilamento das vias, sobretudo em frente ao palácio Anchieta, onde há dois pontos, um municipal e outro do Sistema Transcol.
Em abril último foi assinada a ordem de serviço para início das obras de construção da nova Ponte da Passagem entre a prefeitura e o governo do Estado. Orçada em R$ 65 milhões, a previsão é de que a nova ponte seja entregue em março do próximo ano. Inaugurada em 1989, a Terceira Ponte também não suporta mais a carga viária. Com capacidade para suportar 7,2 mil carros, tem recebido um fluxo de 5,7 mil veículos por hora, em períodos mais críticos. Se a média de crescimento de três mil veículos/ano for mantida, em breve a ponte vai atingir sua capacidade máxima.
Saturação e poluição
Em seu artigo, o professor Roberto Simões questiona a discussão genérica dada ao tema da mobilidade urbana na agenda metropolitana. Além da saturação das vias - o problema da explosão automobilística na Grande Vitória -, há a questão da contribuição desse fenômeno para a poluição do ar e o aquecimento global, com a emissão de CO2.
Entre as soluções para a diminuição dos efeitos catastróficos, revelados recentemente pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), figura o investimento em transporte público, criação de impostos na aquisição, registro e uso de veículos, além de metas para a economia de combustível e a emissão de CO2. O presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA-ES), Luis Fiorotti, defende a diminuição da frota em trânsito na Capital. Ele explica que metade dessa frota não é da cidade e sim dos municípios que circundam a ilha. Em um primeiro momento, ele defende a conscientização dos motoristas para a racionalização no uso de automóveis.
Mas, para isso, argumenta, é necessário o oferecimento de um transporte coletivo de qualidade e o transporte solidário entre os usuários, alem de um planejamento para as obras em vias públicas. "As obras da Fernando Ferrari, por exemplo, deveriam ter sido mais planejadas para diminuir o transtorno gerado para a população. Se o Estado tivesse um sistema de transporte coletivo de qualidade e se houvesse alternativas inteligentes, com certeza a frota em circulação diminuiria", explicou. O engenheiro aponta soluções para diminuir o impacto na malha viária.
A construção de ciclovias, por exemplo, que geralmente é vista como um apêndice ou um capricho na estruturação das vias, é, para Fiorotti, uma solução simples e eficiente para diminuir a circulação de veículos. "As ciclovias são fundamentais para desafogar o trânsito. Além disso, a bicicleta é um meio de transporte barato, eficiente e ecologicamente correto", afirmou. Quanto à proposta de campanha do prefeito João Coser, da criação de um metrô de superfície, em Vitória, Fiorotti acredita que o assunto é relevante e poderia ser incluído na agenda metropolitana, assim como a recuperação do sistema aquaviário.
"É claro que devemos saber a viabilidade financeira da implantação desses sistemas, mas esse tipo de alternativa deveria, sim, ser debatido pelos municípios da Grande Vitória, pois poderia contribuir muito para melhorar a circulação dos usuários das vias públicas." Fiorotti destacou que há um interesse do próprio governo federal nesse tipo de projeto. "Em um seminário recentemente realizado sobre mobilidade urbana em Vitória, um representante do Ministério dos Transportes destacou a importância do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Por isso, acho que, não só Vitória, mas os municípios deveriam se interessar mais pelo projeto", opinou.
O momento, segundo ele, é o mais apropriado, devido aos recursos da ordem de R$ 500 bilhões que o governo federal deve disponibilizar para a estruturação urbana. "Deram importância a outros enfoques, como a recomposição de rodovias, mas o projeto poderia ser incluído no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC)." Fiorotti não acredita que soluções como o rodízio de veículos sejam apropriados para diminuir o caos no trânsito. Isto porque, segundo ele, essa proposta não retira os veículos das ruas.
O que Vitória precisa, na sua opinião, é buscar formas de melhorar o tráfego e incentivar o usuário a deixar o carro em casa. O incentivo ao transporte solidário, ou seja, a carona para os vizinhos, seria uma proposta emergencial para diminuir o impacto no trânsito.
Transcol III
Uma das soluções pensadas pelo governo do Estado é o Programa Transcol III. Orçado em R$ 249 milhões, contempla a construção de quatro novos terminais de embarque e desembarque de passageiros nos municípios de Vila Velha, Cariacica e Serra.
A construção dos novos terminais tem o objetivo de criar novas alternativas de trajeto na Região Metropolitana e proporcionar a abertura de novas linhas. A intenção da Secretaria de Transportes é que, com a construção dos Terminais de Jardim América e de São Torquato, o Terminal Dom Bosco será desativado e retirará 84 ônibus de circulação do Centro. Isto porque, com a criação dos dois novos terminais, a integração, que hoje é feita no Dom Bosco, passará a ser realizada nos bairros de São Torquato e Jardim América, encurtando as viagens das linhas alimentadoras entre os bairros, possibilitando um número maior de viagens dos terminais aos bairros e otimizando o tráfego.
Os ônibus que hoje precisam vir a Vitória fazer a integração de passageiros não terão mais que percorrer essa distância. Passarão a circular mais entre os bairros, otimizando o atendimento aos usuários que até hoje precisavam seguir até o Dom Bosco para ter acesso a linhas troncais ou alimentadoras. O projeto do governo propõe também obras e intervenções para a melhoria de 46 quilômetros de ruas e avenidas nos municípios de Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra, além da construção de novas alternativas para o transporte, como a Leste-Oeste, que vai ligar a BR 262 ao Porto de Capuaba, pela Rodovia Darly Santos, em Vila Velha.
No sistema de transporte serão atendidos diretamente 324 bairros da Região Metropolitana da Grande Vitória, com melhorias da circulação de veículos individuais, de carga e de transporte coletivo. As melhorias dos serviços de transporte coletivo, em terminais de integração, conforto e tempo de viagens alcançarão uma população residente de 1.473.859 pessoas. Com o projeto, 183 linhas de ônibus serão afetadas, com uma frota de 969 veículos diariamente. A intenção é reduzir os congestionamentos de tráfego, melhorando a velocidade das viagens e a qualidade do piso com reflexos positivos para redução dos custos de operação e de tarifa. Para Fiorotti, melhorar as vias e construir terminais vão aliviar o trânsito, mas não resolver de todo o problema. Para ele, a oferta de coletivos, sobretudo nos horários de pico, deve ser ampliada e os veículos serem mais confortáveis, com uma tarifa justa.
Nerter Samora
Jonal Eletrônico Século Diáriora
