Brasília, 21 de junho de 2012.
“Para os produtos internos, que não são de exportação, a gente não tem o mesmo controle e o mesmo sistema que nos permitiriam um produto de melhor qualidade”. Para Lagenbach, o problema principal é o mal-uso de agrotóxicos na produção. “Uma solução seria a rastreabilidade. O produto teria que ter um código de barras. Ao chegar ao consumidor, rastreia-se quem produziu. Além disso, deve haver análises regulares, de rotina (e não por projeto) sobre a situação dos agrotóxicos nos alimentos. Se encontrar algo fora das especificações legais, o alimento é destruído e o produtor sofre prejuízo. Aí o produtor se adapta às regras”, defende. “No momento em que você tem um controle do produto final, eles entram na lei, não têm como sair”.
O completo banimento do uso de agrotóxicos é totalmente inviável, segundo Lagenbach, que exemplifica: no caso de uma proibição total dos agrotóxicos, a produção cairia, grosso modo, em metade. “Isso em um mundo que tem fome é politicamente inviável. Uma moratória do agrotóxico não é utilizada nem nos países onde isso já foi amplamente discutido, como Dinamarca e Suécia”, disse. É aí que entra, lembra Lagenbach, o desafio tecnológico de se conseguir produzir formas mais suaves de agrotóxico.
A tecnologia agrícola, no entanto, vai além do ramo dos agrotóxicos. Para Paulo Paes de Andrade, professor de genética molecular da Universidade Federal de Pernambuco e membro da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação), há duas formas de se reduzir o impacto ambiental: aumento da produtividade em menor área plantada e redução do impacto ambiental causado pelo manejo da cultura. “A tecnologia entra nessas duas vertentes. Antigamente você tinha uma cultura de cinco toneladas por hectare, hoje você chega a 12. Isso significa tecnologia. Se a gente abandonar a tecnologia e voltar para a enxada, a humanidade morre de fome”, afirma.
“A discussão de tecnologias, o intercâmbio de ideias sempre são bem-vindos. A partir do momento em que se consideram os profissionais da Agronomia e de outras Engenharias, Engenharia Ambiental principalmente, mostra-se que existe uma pré-disposição da sociedade no intuito de solucionar esse desafio que é alimentar a população cada vez crescente, cada vez maior demandadora de alimentos”. Assim acredita Anderson Galvão, representante no Brasil do International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications (ISAAA).
Liderança em tecnologia agrícola
Para Galvão, o Brasil é o responsável por mostrar ao mundo que é possível conciliar crescimento da produção agrícola com respeito ao meio ambiente. “O Brasil nos últimos dez anos praticamente dobrou sua produção de milho em menos hectares, utilizando tecnologias de produção mais eficientes. Então, nosso entendimento a respeito dos caminhos e alternativas para conciliar crescimento da oferta de alimentos para população e produção de biocombustíveis está diretamente ligado com o melhor uso das melhores tecnologias”, afirma. Segundo ele, o Brasil é hoje um dos países que consegue exportar tecnologia agrícola para Gana e outros países da África.
Já o professor da Universidade Federal de Pernambuco Paulo Andrade acredita que, por causa do Brasil, hoje o setor da agricultura é tão valorizado quanto a indústria. “O país sempre foi estimulado a ser um país industrial, mas nunca decolamos. Nós tínhamos uma população mal- instruída, havia muito imposto... De repente, o mundo começou a comer e o Brasil, dominando a tecnologia agrícola, evidentemente passou a ser um líder na coisa”, contextualiza. Para ele, no entanto, nós estamos atrasados no que tange à biotecnologia. “Com a regulação do jeito que está, não tem jeito de avançar”.
Jule Adams, da Michigan University e integrante do Programa de Sistemas de Biossegurança do International Food Policy Researches Institute, concorda com Andrade: “Nós temos no mundo agora o problema com o excesso de regulação. Quanto menor a regulação no mundo, maior é a importância de instituições de pesquisas nacionais e públicas”, explica.
Sobre a realidade brasileira de liderança no setor de tecnologia agrícola, o professor da UFRJ, Lagenbach, ressalta uma outra interpretação. “Vemos, da Cúpula dos Povos até o Rio Centro, os públicos muito diferentes, as situações diferentes. Historicamente convivemos com produtores de diversos tamanhos: grandes, médios e pequenos. Não há nenhuma indicação de que os pequenos ou os grandes estão desaparecendo. E, obviamente, o que interessa em termos de tecnologias para os grandes produtores não é o mesmo que interessa para os pequenos”, explica. Tal realidade abre espaço para a diversidade de abordagens tecnológicas brasileiras no campo agrícola. Além disso, com a quantidade de pequenos agricultores, Lagenbach lembra que o Brasil ganha força no mercado de produtos orgânicos.
Transgenia
“De nada adianta você pegar a última geração de milho transgênico, extremamente sofisticada, e colocar num solo que não foi devidamente preparado ou plantar na época errada”, exemplifica Anderson Galvão, do ISAAA. Com este exemplo, Galvão defende que a biotecnologia não é a solução para os problemas, mas sim parte do pacote de tecnologias que, unidas, devem resolver o problema.
O mesmo defende o biólogo molecular belga Marc Van Montagu. “É muito mais do que os genes. Nós temos que de fato estudar melhor o maquinário inteiro e quais as aplicações das plantas transgênicas”, afirmou em entrevista ao Confea. “No momento em que a população do mundo triplicou, quadruplicou, as soluções não vêm imediatamente, porque as plantas, a natureza e a evolução existem para si mesmas e não para os benefícios dos seres humanos”.
Paes de Andrade, Anderson Galvão, Jule Adams e Marc Van Montagu foram palestrantes do painel “United Nations Conference on Sustainable Development: PRRI-Biotechnology, sustainable agriculture and food security", na terça-feira, no Pavilhão 1 do Rio Centro, local onde ocorre a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável – Rio+20.
Beatriz Leal e Augusto Viana
Assessoria de Comunicação do Confea e Agência do Rádio Brasileiro
