Edgar Dutra Zanotto promove jornada ao futuro da Engenharia de Materiais

Brasília, 24 de junho de 2026.

A Engenharia de Materiais desenvolve e utiliza os mais diversos insumos para finalidades igualmente diversificadas, e tem no vidro o instrumento de pesquisa de toda uma vida por parte de Edgar Dutra Zanotto. Professor Sênior da Universidade de São Carlos (UFSCar), onde se formou na terceira turma do curso, em 1976, com estudos complementares na Universidade de São Paulo (mestrado em Física Aplicada); doutorado (em Tecnologia de Vidros) na Universidade de Sheffield (Reino Unido) e especialização (em Ciência de Polímeros) na Universidade de Ferrara (Itália), ele começa esse ano a montar, na Universidade de Wuhan, China, um laboratório (com seu nome) dedicado exclusivamente ao material, com algumas pesquisas já definidas.

 

Professor Edgar Dutra Zanotto ao lado de colegas que atuam em Wuhan, na China, responsáveis pelo reconhecimento oferecido com a sua liderança em torno de um laboratório com seu nome no prestigiado centro de estudos chinês
Professor Edgar Dutra Zanotto entre colegas de Wuhan, responsáveis pelo reconhecimento oferecido com sua liderança em laboratório com seu nome no prestigiado centro de pesquisas chinês



A partir de outubro, Zanotto deverá unir-se a alguns de seus alunos de pós-doutorado da UFSCar nesta nova fase da interação científica brasileira com esta tecnologia que envolve aspectos industriais, como o uso de pás eólicas e de placas de energia solar, a estudos em torno da sua assimilação pelo organismo em favor da medicina regenerativa. Este último aspecto já faz parte do imaginário há séculos (veja abaixo) e, apesar de não vir a ser tratado inicialmente em Wuhan, conforme Zanotto explica nesta entrevista, continuará sendo objeto de pesquisa pela universidade paulista e por empresas geradas por ex-alunos no país.
 

Vidro imaginário


O fascínio pelo uso do vidro no organismo humano não é novo, remete ao século XVII, quando o espanhol Miguel de Cervantes escreveu “O Licenciado Vidraça”, tradução para “El Licenciado Vidriera”. A novela descreve as sátiras sociais de Tomás Rodaja, após passar a sentir-se constituído pelo material, ao sofrer um envenenamento. À época, havia registros de um distúrbio psiquiátrico conhecido como “Delusão de Vidro”.

Já em “Memórias do Homem de Vidro – reminiscências de um obstetra humanista” (2004), do médico Ricardo Jones, o vidro se torna uma metáfora para destacar a atuação de médicos ao lado de parteiras, enfermeiras e doulas. Ainda mais recentemente, “O Homem de Vidro”, do também brasileiro Américo Venâncio Lopes Machado Filho, volta aos tempos medievais para acompanhar os passos de um peregrino em busca de algum sentido para a condição humana. Com uma pesquisa que inclui o uso do português arcaico, a obra venceu o Prêmio Ecos de Literatura em 2026.

 

Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o engenheiro paulista dedica-se à universidade são-carlense desde 1993 e até mesmo após sua aposentadoria, em 2019. Em 1977, montou o Laboratório de Materiais Vítreos (LaMav), onde ainda atua como coordenador do Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros (CeRTEV). Foi graças a um congresso organizado pelo Laboratório que foram renovados contatos com especialistas chineses como Jihong Zhang, levando à parceria que se aproxima de sua realização

Com prêmios ao redor do mundo, mais de 30 patentes depositadas e 450 artigos científicos, Zanotto desenvolve pesquisas relacionadas a processos dinâmicos em materiais vítreos (difusão, fluxo viscoso, relaxação e cristalização), novos vidros guiados por inteligência artificial e vitrocerâmicos especiais para aplicação em medicina, odontologia, balística e óptica. É sobre sua atenção aos biovidros e vitrocerâmicas direcionados à saúde, humana e animal, que conversamos com o pesquisador.

Essas pesquisas são voltadas à reparação de tecidos vivos lesionados como queimaduras, remineralização dental e de fraturas, inclusive em uma inovadora e consagrada perspectiva de regeneração óssea bem mais acelerada do que a possível hoje. Na ordem de centenas, as pesquisas envolvem o controle da cristalização da estrutura atômica dos vidros e a busca por uma maior resistência do material e contam com o acompanhamento, hoje mais indireto, do pesquisador, em favor da sua regulamentação e do desenvolvimento comercial desses materiais especiais.

 

O professor durante a assinatura do contrato com a Universidade de Wuhan: trabalhos começam oficialmente ainda em outubro próximo, focados em projetos industriais de interesse comum
O professor durante a assinatura do contrato com a Universidade de Wuhan: trabalhos começam oficialmente ainda em outubro próximo, focados em projetos industriais de interesse comum



Apenas em relação a algumas das diversas pesquisas desenvolvidas por Edgar Zanotto e equipe no Laboratório de Materiais Vítreos da UFSCar e em empresas criadas por ex-alunos seus, citamos o vidro bioativo F18 e o Biosilicato®, este descrito melhor ao final do texto interno a seguir. “O F18 é biovidro mesmo, enquanto o Biosilicato® é um material policristalino, uma continuidade da pesquisa com vitrocerâmicos”. Ambos são apontados como ultra eficazes na regeneração de tecidos, sendo osteoindutores, ou seja, estimulam a proliferação de células ósseas (osteoblastos). São ainda totalmente reabsorvíveis e contribuem para a formação de novos vasos sanguíneos em áreas de implante ou lesão. São também altamente bactericidas.

Confira abaixo, com base na entrevista e no artigo “Biosilicato®: histórico de uma vitrocerâmica brasileira de elevada bioatividade”, publicado em 2011 por Zanotto e pelo seu ex-aluno, o químico Renato Luiz Siqueira, parte da trajetória de quatro séculos em torno do uso de materiais diversos para auxiliar a saúde humana até as primeiras iniciativas com os biovidros e as pesquisas do grupo avançado da UFSCar em torno dos vidros bioativos.

Quatro séculos de intervenções rumo à bioatividade e à resistência mecânica

No início, era a porcelana. Usada no final do século XVIII para coroas dentárias e hoje presente nos aparelhos ortodônticos. Depois, o gesso. Usado no século seguinte para preenchimento ósseo. A partir de 1920, Albee e Morisson usaram cerâmicas de fosfato de cálcio para a reparação óssea e Nery et al, para a odontologia, na sequência. 

Nos anos 1960 e 1970, vieram as primeiras biocerâmicas mais resistentes e compatíveis e ainda os vidros bioativos, divisor de águas em termos de interação bioquímica com o tecido ósseo, mas que, há pelo menos duas décadas, vêm sendo substituídos, em testes, pela pesquisa do engenheiro de materiais Edgar Dutra Zanotto, professor da Universidade de São Carlos (UFSCar).

“Hoje, já é de conhecimento que outros materiais também podem ser bioativos, como, por exemplo, novas composições de vidros, vitrocerâmicas e as cerâmicas da família dos fosfatos de cálcio. Convém ainda citar alguns metais e ligas, desde que sob condições especiais de tratamento superficial”, descreveu ao lado de Renato Luiz Siqueira, no artigo “Biosilicato®: histórico de uma vitrocerâmica brasileira de elevada bioatividade”, publicado em 2011.

Uma das primeiras definições é o Índice de Bioatividade, que estabelece o tempo para a ligação de mais de 50% da superfície do material com as células do tecido. O que nem sempre determina sua indicação, devido às propriedades mecânicas que desempenham (baixa resistência). Mesmo assim, exige-se um índice superior a 8 para sua utilização.

“Biocerâmicas apresentando elevada biocompatibilidade e resistência mecânica, destinadas à elaboração de próteses ortopédicas para substituição de ossos ou parte deles que são submetidas, na sua atividade funcional, a esforços elevados, não foram atingidas antes de 1965, quando a primeira alumina densa, dedicada à reposição de articulações do quadril, foi desenvolvida”, registra o artigo.

 

Edgar Zanotto sendo apresentado aos pesquisadores chineses
Edgar Zanotto sendo apresentado aos pesquisadores chineses



Outro avanço se refere à constatação da possibilidade de interação de materiais bioativos de vidros com taxas rápidas de reação superficial com células do tecido conjuntivo, exercendo um controle genético sobre o ciclo de osteoblastos (células osteoprogenitoras) e uma rápida manifestação de genes que regulam a osteogênese e a produção de fatores de crescimento. Destaca-se a importância do silício para a mineralização do tecido. Por meio do processo denominado engenharia de tecidos, a bioatividade volta a ser considerada para potencializar o uso regenerativo dos bioativos. O que também vem sendo efetivado por meio do Biosilicato®.

As limitações mecânicas dos vidros bioativos se acresciam à fratura concoidal (cortante) e à limitada usinabilidade desses materiais para dificultar seu uso pela engenharia de tecidos. Com a contribuição inicial do criador do Bioglass, Larry Hench, Zanotto passou a desenvolver a cristalização controlada de vitrocerâmicas, buscando evitar a esperada limitação da sua bioatividade e aumentar a resistência mecânica. 

Patentes foram obtidas a partir da década de 1990 “até que, em 2003, uma vitrocerâmica particulada altamente bioativa foi desenvolvida no mestrado de Ravagnani (orientado por Zanotto), sendo denominada Biosilicato®. Resultado de uma longa evolução na área dos materiais bioativos, o Biosilicato® apresenta propriedades mecânicas distintas dos biovidros”.

E exemplificam, os autores: “na forma particulada, não exibe arestas cortantes e, na forma monolítica, é mais tenaz e possui melhor usinabilidade. Além disso, sua característica mais notável é que, diferentemente das outras vitrocerâmicas bioativas, atualmente disponíveis no mercado, o Biosilicato® possui cristalinidade próxima a 100%, exibe elevado índice de bioatividade e seu módulo de elasticidade é mais próximo ao do osso cortical”.

Ao comentar o uso de biovidro em pó para a regeneração de cavidades decorrentes de câncer dos ossos e osteomielites, com efetividade bactericida, Edgar nos revelou uma situação pessoal para explicar a regeneração óssea possibilitada pelos osteoblastos gerados por uma vitrocerâmica específica, o Biosilicato®. “Quando você extrai um dente para fazer um implante, também fica aquele buraco gigante. E eu autorizei meu dentista a usar Biosilicato® na minha própria boca. Depois de algum tempo, ele me disse que nunca viu um material que tenha regenerado a massa óssea tão rapidamente”, relatou.

Integrava-se, assim, no referido artigo, à minuciosa e interdisciplinar descrição técnica de outra aplicação odontológica dessa vitrocerâmica: a hipersensibilidade dentinária. Isso, 23 anos depois de sua aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia da USP de Ribeirão Preto. Além dessa pesquisa, outros sete produtos inovadores estavam sendo pesquisados pela empresa Vitrovita, que licenciou o Biosilicato®, envolvendo aplicações periodontais; reconstituição da cadeia ossicular; parâmetros de osteogênese.

 

Conhecidos comercialmente como Bioglasses, principalmente o Bioglass 45S5®, e usados desde a década de 1970, os biovidros convivem com outras aplicações clínicas já há cerca de 30 anos. Antes disso, Edgar Zanotto registra no referido artigo o uso de uma biocerâmica compatível e resistente em 1965. Desde então, o estudo em torno dos vidros bioativos (biovidros) vem sendo desenvolvido em todo o mundo, mas a pesquisa da UFSCar em torno do Biosilicato® contou com o próprio Larry Hench para dar mais um passo além. 

Por meio de mudanças na composição dos quatro elementos do Bioglass 45S5 (óxido de silício, óxido de cálcio, óxido de sódio e óxido de fósforo), o Biosilicato® seria responsável por tornar o vidro biocompatível (resposta imunológica atóxica), por promover a osteogênese na ligação com o tecido ósseo, atuar como guia para o crescimento ósseo, ser bioabsorvível no organismo, apresentar propriedades mecânicas compatíveis com o local de implantação, ser bactericida e facilitar a regeneração e a integração com o osso. 

 

Pesquisadores presentes à assinatura do contrato com o professor paulista, reconhecido por seus estudos para a cristalização de vidros, utilizada inclusive na medicina regenerativa
Pesquisadores presentes à assinatura do contrato com o professor paulista, reconhecido por seus estudos para a cristalização de vidros, utilizada inclusive na medicina regenerativa



A seguir, o professor Edgar Zanotto comenta alguns aspectos dessa jornada em direção ao presente e a um futuro bastante provável para a Medicina, a Odontologia, a Medicina Veterinária e a Engenharia de Materiais.
 

Confea – Fale um pouco sobre a continuidade da sua pesquisa em relação a tecnologias como o Bioglass ®.

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – O Bioglass, que foi desenvolvido pelo professor Larry Hench, na década de 1970, mudou o paradigma. O pessoal usava alumina ou hidroxiapatita, pouco bioativa. O Bioglass 45S5®, quando em contato diretamente com o corpo humano, em cerca de 12 horas começa a formar hidroxi carbonato-apatita na superfície. Então, ele é muito mais bioativo que qualquer outro material que existia até então. O nosso Biosilicato® não é um biovidro, é uma modificação do 45S5, nós mudamos um pouco a composição química e aí damos um tratamento térmico e cristalizamos o vidro, mudamos a estrutura. Vidros são materiais de estrutura desordenada, de estrutura atômica amorfa. Nós cristalizamos uma modificação do 45S5, o Biosilicato® tem a composição química um pouco diferente. Contamos com o próprio professor Larry Hench, que passou uma semana aqui no meu laboratório. E ele veio pra cá para cristalizar o 45S5. Por que cristalizar? Para melhorar as propriedades mecânicas. Porque todos os biovidros são muito bioativos, mas têm propriedades mecânicas ruins, eles quebram muito facilmente. Então, a ideia do professor Larry Hench era cristalizar o 45S5, mantendo a bioatividade e melhorando as propriedades mecânicas. Mas ele não era especialista nisso e não conseguiu cristalizar a contento o 45S5, controladamente. E aí nós nos encontramos em um evento no Rio de Janeiro, creio que organizado pela Academia Brasileira de Ciências, há uns 30 anos. Nós não nos conhecíamos. E eu dei uma palestra sobre cristalização de vidros. Então ele falou: Ótimo! Achei um expert em cristalização de vidros. Eu já era um expert. Começamos a conversar, e ele aceitou o convite para dar um pulo até São Carlos, e aqui ficou uma semana. E aí nós começamos a trabalhar nesse assunto de cristalizar o 45S5. Mas a gente teve que mudar um pouco a composição química para cristalizar controladamente; e assim nasceu o Biosilicato ®. 

 

Engenheiro de materiais Edgar Zanotto: décadas de dedicação ao universo dos vidros
Engenheiro de materiais Edgar Zanotto: décadas de dedicação ao universo dos vidros 


 

Confea – O senhor já possuía uma estrada considerável. Foi uma continuidade natural da sua pesquisa. 

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Sim, eu tenho 50 anos de experiência. Eu já tinha uns 20 anos envolvido com a cristalização de vidros, não de biovidros, para várias finalidades. Então, nós unimos esse conhecimento do professor Larry Hench sobre biovidros com o meu conhecimento sobre cristalização e desenvolvemos o Biosilicato®. Inclusive, ele é coautor do primeiro “paper” sobre Biosilicato. 

Confea – O acréscimo de cálcio e fósforo seria uma parte dessa mudança na composição química do Bioglass 45S5?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Ele também tem cálcio e fósforo. Nós mudamos só a proporção deles, sódio, cálcio, fósforo, silício. São pequenas diferenças, mas os componentes que são óxido de silício, óxido de cálcio, óxido de sódio e óxido de fósforo são os mesmos, em diferentes proporções. 

 

 

UFSCar
UFSCar
UFSCar
LaMav em três tempos: Laboratório de Materiais Vítreos, da Universidade Federal de São Carlos (SP), montado em 1993 pelo pesquisador brasileiro Edgar Zanotto e alvo de uma renovação permanente de alunos 



Confea – Houve também a participação de profissionais de outras áreas da engenharia e da saúde?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Sim, nós publicamos mais de 40 ou 50 “papers” sobre o Biosilicato®. Ele foi sendo desenvolvido e o efeito bactericida testado, a fabricação de scaffolds, expressão genética, um monte de coisas. O uso em hipersensibilidade dentinária... Com tudo isso, nós envolvemos médicos, químicos, dentistas, pessoal de Fisioterapia, de Biologia, tem um monte de coautores ao longo dos anos. O material foi sendo caracterizado, e são caracterizações complexas que envolvem estudos in vitro, in vivo, até ensaios clínicos em humanos, tem uma história longa. Não só sobre o Biosilicato®, mas sobre outro biovidro que nós desenvolvemos, chamado F-18. Que foi um desenvolvimento totalmente nosso. Tanto o Bioglass 45S5®, quanto o Biosilicato®, quanto outros desenvolvidos por outros grupos na literatura internacional, cristalizam muito rapidamente, então, se você quiser fazer uma certa peça por impressão 3D ou fazer uma fibra, não é possível com esses materiais. Portanto, nós desenvolvemos um vidro novo usando o nosso conhecimento sobre cristalização, que não cristaliza, que é muito difícil de cristalizar. Foi o inverso do processo do Biosilicato®. O que possibilitaria fabricar outros produtos, via impressão 3D, por exemplo.  E chamamos de F18 porque fizemos e testamos 17 formulações diferentes, sem sucesso, até essa que é a 18ª. Ele Este é um outro tipo de vidro, bioativo também, bactericida, mas que é muito difícil de cristalizar e tem outros usos. Foi uma dissertação de mestrado desenvolvida aqui sob minha orientação. E a moça, a Marina (Trevelin Souza), hoje é empresária, ela montou uma empresa, a Vetra, surgiu do F18. 

Confea – Quais são as suas expectativas para a aplicação, regulamentação e patenteamento dos biomateriais para a saúde humana e animal com os mais diversos usos?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Essa parte é extremamente complicada, morosa, tem custos elevados e deve ser realizada por empresas. Há umas quatro ou cinco empresas, em São Carlos, que licenciaram a nossa tecnologia e que nasceram daqui dessas pesquisas, algumas são de ex-alunos, outras não. As patentes foram realizadas pela UFSCar, eu sou um dos inventores das patentes, mas elas foram licenciadas por empresas, que levam a cabo essa parte extremamente complicada de interação com a Anvisa. Eu ainda tenho bastante contato com a Vetra porque a Marina e o Murilo Crovacce ainda realizam experimentos aqui no laboratório. Ela foi adquirida por uma empresa maior, a Jacto, uma empresa forte que fica em Pompeia, no interior de São Paulo, e que que está cuidando dessa parte da Anvisa. As empresas pequenas geralmente não têm cacife financeiro, jurídico, estrutural para levar a cabo toda essa parte de regulamentação. Outras empresas, como a Criteria, também já têm a autorização da Anvisa, estão exportando etc. Tem ainda a XShield, a Procell, a DMC e duas de um ex-aluno meu no Paraná, Paulo César Soares Júnior, que estão focadas em aplicações em animais, e não em seres humanos, considerando que testes animais são bem mais simples que em humanos, e a autorização pela Anvisa para fins veterinários fica mais fácil. Tem outra aqui em São Carlos chamada Procell, que também já anda bem. Enfim, são empresas que estão cuidando da regulamentação. Eu saí da jogada, não sou sócio dessas empresas. 

Confea – Em 2016, a UFSCAR já havia patenteado um vidro bioativo para revestimento de implantes metálicos e lesões de pele e ainda um método de recobrimento de enxertos médicos ou odontológicos metálicos ou cerâmicos que garante compatibilidade com o organismo, previne infecções, evita rejeição e acelera a integração com o osso. A pesquisa atual difere muito do F18, do Biosilicato e dos outros biovidros daquela época? 

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Essa patente dos revestimentos resultou de uma tese de doutorado do Cléver Chinaglia, que era um dos sócios da Vetra, mas ele decidiu mudar completamente de área. E essa parte de revestimentos bioativos, que é muito interessante, ficou parada no nosso laboratório. Hoje, por coincidência, eu tenho uma pesquisa em andamento, aliás a Thalia (Delmondes de Souza) passou seis meses em Portugal fazendo testes biológicos, e nós continuamos essa parte de revestimento de titânio, que é muito usado em implantes porque é leve e ligeiramente bioativo. Por exemplo, quando você faz um implante dental (eu tenho quatro), um dos problemas é que pode se formar um biofilme (de bactérias) entre o implante e o osso. E essa é a principal causa de rejeição desses implantes. Depois de alguns anos, aquele biofilme vai corroendo, degradando o osso, e o implante solta, acaba caindo. Então, nós estamos com uma pesquisa em fase bem adiantada, a Thalia vai defender tese em fevereiro. A gente coloca um vidro especial, que não é bioativo, ele é apenas bactericida e tem o mesmo coeficiente de expansão térmica do titânio. Porque aí ele só precisa ser altamente bactericida e durável. Então, foi uma derivação daquela pesquisa do Clever, que acabou ficando parada após a saída dele. Esse é um problema das universidades. Você treina o aluno na graduação, no mestrado, doutorado. E quando ele sabe muito sobre determinado assunto, de repente, ele inventa de mudar de área ou consegue um emprego que foca outro tema. E isso acontece frequentemente. 

Confea – Felizmente, há o interesse de novos alunos substituindo aqueles. Hoje são quantas pesquisas em desenvolvimento?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – No meu laboratório, deixe-me pensar, eu tenho meia dúzia de alunos de Iniciação Científica, alunos que ficam no mínimo 12 horas por semana no laboratório, com bolsa, durante a graduação; tenho um aluno de mestrado; três alunos de doutorado e seis pós docs. Esse é meu grupo atualmente, mas desses, apenas dois trabalham com biovidros. 

Confea – Esses alunos e alguns de seus ex-alunos poderão vir a integrar a sua equipe no laboratório chinês?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Sim, a minha ideia lá é inicialmente levar pós docs brasileiros que são pessoas que estão aqui no Brasil com essas bolsas, esperando concursos. Então, enquanto eles estão esperando, eu planejo levar alguns lá para a China porque eles já sabem como eu trabalho etc. E vão orientar alunos chineses. Em princípio, serão alunos chineses, liderados por pós docs brasileiros. Nada impede de levarmos para lá alunos brasileiros também, mas a ideia inicial é essa. 

Alguns usos previstos de biocerâmicas e biovidros para a saúde medicinal
•    Reparação e regeneração do tecido ósseo;
•    Reparação e substituição do sistema cardiovascular;
•    Uso terapêutico em tratamento de tumores;
•    Malha de fibra de vidro F18 em formato de “bandaid” ultrabactericida e absorvível para tratamento de úlceras de pele; 
•    Biovidro em pó para a regeneração óssea de cavidades deixadas pelo câncer nos ossos e osteomielites (infecções ósseas bacterianas pós-cirurgia), por meio da geração de osteoblastos;
•    Tratamento da hipersensibilidade dentinária com pós finos;
•    Próteses de ossículos do ouvido médio.


Confea – A pesquisa de bioativos será uma das contempladas?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Não. No momento, nós não estamos pensando em fazer pesquisas com bioativos. São outras pesquisas, relacionadas a vidros de altíssimas propriedades mecânicas para geração de energia eólica, substituindo aquelas pás gigantes reforçadas por polímeros, como a fibra de vidro, usando Inteligência Artificial, uma das áreas que eu trabalho. Eles precisam de fibras cada vez mais leves e resistentes de alto módulo de elasticidade. A outra será voltada para energia fotovoltaica. A China é responsável por talvez 90% dessas placas fotovoltaicas do mundo. Mas elas apresentam um problema: da ordem de 10, 15% das placas das usinas solares estão se rompendo espontaneamente todos os anos. Porque os vidros são muito fininhos para serem leves e tem que suportar a carga eólica, choque térmico, tensões mecânicas, abrasão mecânica durante a limpeza, enfim, elas quebram. Então, a gente também pensa em desenvolver placas solares mais transparentes, quanto mais luz passar melhor, e mais resistentes também. Aí não seria fibra, seria vidro em forma de placa. 

Confea – Proteção de celular também?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Para celular é outra pesquisa. Precisa ser muito mais resistente. Aí que entra a cristalização do vidro para aumentar muito a resistência mecânica e a resistência a riscos e manter a transparência. Porque quando se cristaliza, muitas vezes, perde a transparência. Por exemplo, o Biosilicato® que é cristalino, é opaco. Então, é um desafio cristalizar o vidro mantendo a transparência, mas é outra linha interessante também. Enfim, são essas linhas. Nós não estamos pensando em biovidros lá para a China não.

Wuhan
Wuhan
Universidade de Wuhan em dois tempos: Edgar ao lado do professor Jihong Zhang, em São Carlos, e com outros colegas chineses durante a assinatura do contrato 



Confea – E quando o senhor prevê que eles possam ser liberados para uso em humanos? Além dos cuidados com a rejeição, quais são os principais desafios para isso?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Não há mais grandes desafios. Esses vidros já foram testados, e os resultados publicados em centenas de “papers” nossos e de pesquisadores do exterior, é uma área gigante, essa área de biovidros. Os problemas atuais são mais burocráticos e econômicos, referentes à realização de testes clínicos. Para liberar para uso em humanos tem que se fazer testes em humanos. E testes, obviamente, são complicados. Você precisa ter autorização da pessoa; a concordância do mérito; precisa seguir padrões de ética e segurança; precisa seguir as regras da Anvisa; precisa fazer um número mínimo de ensaios clínicos com 200, 300 pessoas. Ensaios clínicos, seja dos biovidros ou de qualquer material ou de fármacos, são extremamente complexos e caríssimos.  Por exemplo, você tem que fazer um seguro de saúde para cada pessoa que concordar em realizar o teste. Podem acontecer coisas inesperadas, a pessoa pode vir a falecer em uma cirurgia. Então, tem que ter o seguro, tem que ter autorização dos médicos, tem que autorização do hospital, do Comitê de Ética, autorização da Anvisa. Esse é o grande problema dessa área de biovidros para humanos. Por isso que essa estratégia que o Paulo César Soares Júnior, meu ex-aluno, adotou quando fundou duas empresas em Curitiba, foi voltar os biomateriais para o uso veterinário que tem regulamentação, mas, obviamente, é bem mais simples que para humanos. 

Confea – Após ter participando de um evento em Wuhan, em 2024, e de trazer para o país o pesquisador Jihong Zhang, no ano seguinte, como o senhor encarou o convite para desenvolver sua pesquisa na China, coordenando a sua própria equipe de pesquisadores e definindo os equipamentos e suas linhas de pesquisa, por no mínimo cinco anos?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Isso foi uma oportunidade legal porque, como eu sou oficialmente aposentado, eu recebi o convite para montar o laboratório lá, inclusive eles deram o meu nome a esse laboratório (EZ-GLAD – Edgar Zanotto Global Laboratory of Advanced Disordered Materials), uma enorme honraria, e com recursos para comprar equipamentos, para pagar alunos e pós docs. Além disso, um contrato de cinco anos como professor visitante, em que eu posso ir quando quiser. Quer dizer, não me obrigam a ir tantos meses por ano, eu vou quando eu quiser. Então, achei muito liberal, muito honroso, muito legal ter a oportunidade de tocar dois laboratórios, um aqui e outro lá. Inclusive, tem alunos à vontade lá na China, que é um país absolutamente voltado à ciência e à tecnologia. O próprio Xi Jinping é engenheiro (químico). O laboratório lá na Wuhan University off Tecnology (WUT) tem o maior grupo de pesquisas do mundo sobre vidros, então é um lugar fora de série, que tem tudo o que você possa imaginar sobre vidro. Tem muita gente, diversos especialistas para discutir sobre diversas subáreas, tem recursos e tem muitos alunos. Então, eu encarei como um novo desafio. É assim que eu estou vendo essa experiência na China. Eu já fui esse ano em março e agora voltarei em outubro ou novembro para começar as atividades. Já estamos prospectando alunos, pós docs, estamos naquela fase de montar o grupo. Já estamos discutindo esses temas de pesquisa, que têm que ser de interesse mútuo. Isso levou algum tempo. O departamento de Materiais da WUT tem um prédio gigantesco novo. E eles estão ainda completando a instalação da linha elétrica, linha de gás, a infraestrutura. Enfim, estamos preparando para, possivelmente, começar em outubro ou novembro.

Confea – Em algum momento do uso regenerativo dos bioativos, fala-se do processo da engenharia de tecidos. Como o senhor acredita que seja para um jovem engenheiro de materiais hoje do Brasil imaginar que ele possa vir a trabalhar daqui a alguns anos com o senhor nesse laboratório ou em outras pesquisas como essas?

Eng. mat. Edgar Dutra Zanotto – Nós trabalhamos desenvolvendo materiais sob encomenda. Vamos imaginar hipoteticamente que um especialista em engenharia de tecidos, só para dar um exemplo, precise de um “scaffold” com poros de 500 microns e uma estrutura com resistência mecânica mínima de 20 Megapascals, que seja bioativo e altamente bactericida. Então, a gente pode imaginar um processo por impressão 3D ou outro processo e desenvolver esse material sob encomenda. Eu sou um especialista em materiais, não sou engenheiro de tecidos. A gente desenvolve materiais sob encomenda. Para dentistas, médicos ou usinas fotovoltaicas ou eólicas, enfim, nossa especialidade é desenvolver materiais com propriedades desejáveis, conforme o desafio, conforme a oportunidade apareça. E ao longo dos anos, nós trabalhamos com diversos tipos de vidros e vitrocerâmicos, que são materiais cristalinos, obtidos através da cristalização controlada de vidros. E assim, esperamos continuar. Agora, usando, cada vez mais, algoritmos de IA!

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea