Rio de Janeiro, 07 de junho de 2011.
Aspectos relativos à reforma do Estádio Maracanã foram tema da primeira mesa redonda do projeto Confea/Crea em Campo, cuja décima edição acontece nesta terça-feira, 07/06, durante todo o dia, no Rio de Janeiro. As características do projeto para o novo estádio; o acompanhamento das obras por comissão do Congresso Nacional; o atendimento à certificação ambiental LEED e o projeto de revitalização do entorno foram os quatro enforques abordados pelos palestrantes.
O presidente da Empresa de Obras Públicas da Cidade do Rio de Janeiro (Emop), eng. civ. Ícaro Moreno Júnior, ressaltou a distância, em termos de tecnologia, que separa o atual estádio, construído em 1950, das exigências impostas pela FIFA para a construção que sediará a final da Copa do Mundo de 2014. Nesse contexto, Ícaro ressalta que a FIFA é “o maior cliente”. “Ou atendemos as exigências, ou não há jogo”, ressaltou o engenheiro.
Ícaro afirmou que essas exigências incluem recomendações da NBR 9050, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT); a Norma Técnica de Referência em Prevenção Contra Incêndio e Pânico e normas ambientais, sobretudo a certificação de edificação sustentável LEED, que prevê excelência no uso de energia e no design ambiental.
O engenheiro mostrou a planta baixa do estádio. Entre outras alterações, a obra contemplará a reforma das arquibancadas, que receberão uma maior inclinação, eliminando a existência de pontos negros, permitindo que os torcedores possam visualizar todo o campo de qualquer ponto. Na exposição, ele abordou diversas questões, como as técnicas de iluminação, de drenagem e do tipo de grama do que será utilizado. Em relação à sustentabilidade da obra, Ícaro falou sobre os sistemas de condicionamento de ar e sobre as instalações elétricas e hidráulicas. Há previsão de redução de 6% do consumo de energia e de 30% de redução do consumo de água (clique aqui para ver a apresentação).
Uma das questões mais polêmicas entre a sociedade carioca é a decisão de refazer a cobertura do estádio. A intenção é fazer um acréscimo na cobertura existente, de concreto, por meio de um anel de compressão de sete metros de altura. Segundo Ícaro, após cinco meses de estudo, chegou-se à conclusão de que era necessário substituir a marquise, por questões de segurança. “Ficamos numa sinuca de bico. Mas nenhum engenheiro no mundo, diante daquele relatório, manteria a marquise”, lembrou Ícaro, informando que a mudança, aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), elevou o custo da obra em 25%.
Outros fatores também levaram ao encarecimento da obra, em relação ao montante inicialmente previsto. Ícaro justifica essa realidade pela inexistência de projeto executivo no processo licitatório. “A obra foi licitada apenas com projeto básico. Geralmente, a diferença entre o projeto básico e o executivo, em relação ao valor da obra, fica em torno de 50%. Tivemos, no caso do Maracanã, até agora, um acréscimo de 30%”, justificou. “Estamos construindo um avião em pleno voo”, desabafou Ícaro, destacando as dificuldades encontradas para atender, ao mesmo tempo, prazos, condições legais e sucesso da obra. “Estamos trabalhando 24 horas por dia”, ressaltou.
Fiscalização
Com o objetivo de assegurar não apenas o sucesso da obra, mas também que haja um legado permanente para a população do Rio de Janeiro, foi formada há cerca de um mês, na Câmara dos Deputados, a Comissão de Acompanhamento da Copa de 2014, que conta com sete deputados do Rio de Janeiro, de partidos diferentes. Quem falou sobre o assunto foi o deputado federal Alessandro Molon. A preocupação da Comissão, segundo ele, refere-se à fiscalização, ao controle e ao legado. “Nosso desafio é analisar de que forma a realização da Copa e dos Jogos Olímpicos servirão para mudar a qualidade de vida da população do Rio de Janeiro”, destacou o deputado. “Os investimentos devem ser compatíveis com o legado que irão deixar.
Molon ressaltou que a comissão não tem prazo para concluir os trabalhos e deverá funcionar até o final da atual legislatura, em 2014. Não temos dúvida da capacidade da engenharia brasileira. Ela orgulha nosso país.Mas esse juízo de conveniência e oportunidade, que é o que cabe à administração pública, deve ser acompanhado pela população. Para ele, o exemplo da realização dos jogos Panamericanos, que tiveram sede no Rio de Janeiro em 2007, é preocupante. “Os jogos foram bem realizados. Contudo, os investimentos não deixaram nenhuma mudança efetiva para a qualidade de vida no Rio”, ressaltou ele. “Não queremos apenas olhar para esses eventos como um motivo de ufanismo. A nós interessa o que vai mudar na vida das pessoas”.
Projeto
O engenheiro civil Carlos Bernardo Zaeyen, do consórcio Andrade Gutierrez, responsável pela reforma no estádio do Maracanã falou sobre a tecnologia que está sendo utilizada. Segundo ele, o projeto prevê atender a normas de acessibilidade e critérios para obtenção do certificado ambiental LEED. O novo estádio terá capacidade, por exemplo, para 96 pessoas em cadeiras de roda e haverá 67 banheiros adaptados para portadores de necessidades especiais.
Segundo Zaeyen, a meta é conseguir os 47 pontos necessários para obter a primeira certificação LEED, o que significa observar medidas que vão desde a economia de energia e a reutilização da água até preocupações com a manutenção futura do estádio. A meta é reduzir em 30% do consumo de água em 8% a de energia elétrica. Para isso, o projeto prevê uma série de medidas, como a utilização de lâmpadas e luminárias eficientes.
A previsão vale inclusive para a construção. A intenção é reaproveitar 75% dos resíduos do atual estádio em outras obras; utilizar 20% de materiais recicláveis na construção, principalmente o aço e o cimento, além de buscar utilizar, tanto quanto possível, materiais extraídos ou beneficiados em locais distantes no máximo 800km da obra. Outra preocupação é procurar reduzir o próprio impacto da construção, no canteiro de obras, com medidas que vão desde o controle do escoamento da água; controle de erosão e de poeira, até o armazenamento de resíduos no canteiro de obra. (veja a apresentação).
Revitalização do entorno
A coordenadora de arquitetura e urbanismo da SMU, arq. Helena Rego, concluiu a exposição mostrando o projeto de revitalização do entorno do estádio do Maracanã. O objetivo, segundo ela, é integrar Quinta da Boa Vista e o Maracanã, melhorando as condições viárias e dando novos usos aos terrenos disponíveis, principalmente terrenos do exército que se localizam próximos ao estádio.
O projeto prevê o desenho típico da orla carioca, com piso em mosaico de pedra portuguesa, como o que se vê hoje em Copacabana. A integração das duas áreas será feita por meio de duas passarelas acima da linha ferroviária. Para melhorar o trânsito, será construída uma via paralela à ferrovia. A utilização de terrenos do exército deixará como legado um parque de cerca de 85 mil metros quadrados, integrando o Maracanã com o Quinto da Boa Vista.
Em complementação a esse conceito de integração entre as duas áreas, o projeto prevê a construção de uma ciclovia com aproximadamente 3km de extensão, que dará acesso à região de São Cristóvão. “Nosso objetivo é deixar um legado efetivo para a cidade. Estamos criando um grande parque e ultrapassando barreiras criadas pelo próprio sistema de transporte”, ressaltou Helena. “A intenção é dar um caráter mais ambiental e mais qualidade de vida para o entorno desse estádio simbólico para a cidade do RJ”, concluiu.
Atuou como moderador da mesa o presidente do Senge-RJ, engenheiro eletricista Olímpio Alves dos Santos. O evento continua durante toda a tarde.
Mariana Silva
Assessoria de Comunicação do Confea
