Brasília, 20 de julho de 2009.

Confea - Por que é tão importante explorar o espaço e conhecer ao máximo suas características?
Ramon Perez de Paula - A exploração é importante, no aspecto científico, porque a gente está procurando entender o que aconteceu em outros planetas, no universo, para saber o que aconteceu na Terra. Como ela foi gerada, o que aconteceu, qual sua idade. Então, a exploração espacial traz informação sobre a gente e sobre o planeta. Essa é a importância da exploração espacial: ver quais planetas já tiveram vida e quais poderiam suportar a vida se fôssemos para lá. A importância de explorar o espaço é saber a nossa origem e história. De onde viemos e pra onde iremos.
Após 40 anos da chegada do homem à Lua, como o senhor avalia a evolução da exploração aeroespacial durante esse período? Ainda há fronteiras a transpor?
Sete anos depois de o homem chegar a lua, tivemos uma missão não tripulada para Marte, a chamada missão Viking, em 1976. Nessas quatro décadas, tivemos grande desenvolvimento da aviação transatlântica, dos computadores, que ajudaram a exploração espacial. Todo esse avanço teve o impacto na geração jovem da época. Muitos deles foram ser engenheiros por causa do fato de o homem ter chegado à Lua.
E há milhões de fronteiras para crescer. Demos o primeiro passinho. Viagens tripuladas a Marte ainda não aconteceram. Ainda não conseguimos mandar naves fora do sistema solar, para explorar outros planetas e constelações.
Tivemos a notícia de que a sonda Phoenix achou pequenas quantidades de água em estado líquido em Marte. Isso mostra que é muito provável que exista ou que já existiu vida no planeta vermelho?
Não podemos fazer a dedução de que há vida. O que nós conseguimos comprovar é que há muito gelo. Mas não conseguimos provar que há formas de água líquida. O que medimos foram moléculas de gelo que espirraram na perna da nave em forma líquida, por causa do aquecimento.
Em relação à vida, uma das novas fronteiras de estudo é o lançamento do Mars Science Laboratory, que era para ter sido lançado em 2009, e adiamos para 2011. Será um laboratório bem sofisticado, em forma de jipe móvel, que tem equipamentos para verificarmos se há materiais orgânicos, que pode indicar que houve vida no passado, ou quem sabe, que há vida agora presente. Será uma missão bem sofisticada, que avaliará a geologia de marte e também a parte histórica.
A sonda teve um problema com a geração de energia e perdeu comunicação com a Terra. Mas durante os 5 meses em que recolheu informações sobre o planeta, além da água, quais foram os principais resultados da missão?
Uma das coisas mais importantes que a missão Phoenix obteve foi provar que há gelo bem perto da superfície de Marte. Nós aterrissamos em cima de uma placa de gelo. Gelo de água e não gelo seco. Como há muito gás carbônico lá, pensamos que fosse gelo seco, mas, depois, com os testes, provamos que era um gelo feito de água. Esse foi o resultado mais importante.
Outra coisa que provamos foi que há um oxidante chamado perclorato. Ele torna o terreno um pouco mais óxido. Até certo ponto, terreno bem difícil de dar apoio à vida, pois onde há perclorato, a vida é limitada. Mas no Chile há esse sal no deserto e tem vida lá.
Descobrimos também que o PH da água varia entre 7,8 e 8. Um fator importante, ou seja, o PH não é tão ácido ou alcalino. Você pode cultivar aspargos naquele tipo de solo.
Medimos temperaturas, atmosfera, tiramos fotografias. E agora estamos estudando os elementos químicos encontrados no solo, como o silício.
Vimos também uma precipitação de gelo na atmosfera, que cai e some devido à secura da atmosfera. É a chamada virga, que existe no Alasca e países do norte da Terra. Vimos rodamoinhos, chamados de demônios de poeira, e vimos geada. Mas não achamos material orgânico.
Ainda há intenção de tentar recuperar a sonda?
O que nós vamos fazer é, agora que está acabando o inverno em Marte, tentar restabelecer a comunicação com a nave. No fim de outubro, começo de novembro, o sol já está bem mais alto, já deu tempo de o sol cair nos painéis solares e recarregar as baterias, se elas ainda tiverem condições de serem recarregadas e se os painéis estiverem sem quebras, devido ao congelamento do inverno. Se ela vai responder ou não, não sabemos. Se responder, vamos tirar fotografias em volta para ver o que ocorreu. Será um fato importante para a gente.
Com as informações recolhidas até o momento, já é possível enviar uma missão tripulada para Marte? Quando isso poderia acontecer?
Falou-se em uma missão desse tipo para 2022. Hoje em dia, não se trabalha com esse prazo. Para a Lua sim, mas para Marte, levaremos pelo menos 40 anos para mandar uma missão tripulada.
Quanto tempo leva uma viagem da Terra a Marte?
A cada dois anos, Terra e Marte estão alinhados, na mínima distância possível. Quando eles estão nessa posição, uma viagem, com a tecnologia que temos hoje, leva 8 ou 9 meses. A nave Phoenix saiu daqui em setembro e chegou lá em maio.
O senhor também coordena a missão Mars Reconnaissance Orbiter (MRO). Que vantagens esse satélite tem sobre a sonda Phoenix e que vantagens a sonda tinha sobre ele?

Esse satélite ajudou a escolhermos o melhor lugar para mandar a sonda Phoenix e vai colaborar na escolha do lugar da aterrissagem do Mars Science Laboratoty.
É possível traçar algum paralelo entre os dados que a sonda recolheu sobre o clima em Marte e as mudanças climáticas na Terra?
O que estamos aprendendo sobre Marte é muito limitado para trazer para a Terra. O que podemos dizer é que alguma coisa aconteceu em Marte que a água desapareceu, porque o que parece, por aspectos geológicos reconhecidos pela Orbiter, é que tiveram grandes cânions e vales que foram feitos com água. O que aconteceu com essa água, que foi parar nos pólos e em depósitos de gelo no meio do planeta? Houve alguma grande transformação que levou o planeta a virar um lugar muito isolado. Pode essa transformação acontecer na Terra? É possível trazer essa informação e usar esse conhecimento científico para evitar que isso aconteça aqui na Terra.
Eu acredito que a exploração de Marte é uma exploração verde, que nos ajuda a proteger a Terra.
De que forma a engenharia aeroespacial pode ajudar o Brasil a se desenvolver?
Antes de tudo, o mais importante é estimular a juventude a estudar ciências e tecnologia. Estudar física, matemática, química. E as áreas em geral envolvidas na tecnologia. Se você tem uma sociedade com bastante instruída com ênfase nessas matérias, você pode beneficiar a população com desenvolvimentos tecnológicos, que podem aumentar as plantações, proteger a água, fazer uso mais eficiente da eletricidade.
O Brasil crescendo como está tem uma grande necessidade de alimentos e de energia, e, em última análise, de equipamentos que poupam energia. Se pesquisar, pode encontrar soluções que permitam um crescimento com o mesmo consumo de energia.
O Brasil possui a Base de Alcântara, próximo à linha do Equador, que é um local apropriado para lançamento de foguetes. Entretanto, dependemos de cooperação para poder lançar nossos satélites. Como senhor avalia esse panorama?
É importante desenvolver essa capacidade de ter e lançar os próprios satélites. Essa capacidade só será desenvolvida quando tiver mais pessoal treinado na área de ciência e tecnologia e as pessoas tiverem interesse na área aeroespacial. O importante é o estudo da área científica. Agora, o país tem que oferecer trabalho aos interessados nessa área, principalmente numa área que é tão cara. Ou seja, como disse, o mais importante para o país desenvolver-se é a educação.
Para estudantes brasileiros que queiram se tornar engenheiros aeroespaciais, que caminhos eles devem seguir?
Estudos básicos em ciência, física, química e matemática. A engenharia aeroespacial é um conjunto de engenharias. Como estudamos as superfícies dos planetas, a engenharia ambiental é importante. Além dela, a engenharia eletrônica, mecânica, química. Todas elas contribuem para fazer uma nave espacial.
Que novidades a humanidade pode esperar para os próximos 40 anos na área de exploração espacial?
Espero que haja muito mais explorações em outros planetas que possam ser parecidos com a Terra. O ser humano é um explorador por natureza. Temos que aproveitar esse aspecto. Temos que correr um pouco de risco para aumentar nossas fronteiras. Cabral teve esse espírito e os bandeirantes também. Podemos aprender muito com as explorações de Marte nos próximos 40 anos e, talvez, vermos uma missão tripulada para o planeta vermelho.
Thiago Tibúrcio
Assessoria de Comunicação do Confea
