Entrevista com o professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB Sérgio Kóide sobre Resolução nº 1.010 e Matriz do Conhecimento.
Brasília, 27 de setembro de 2010
Confea – No momento em que a UnB atualiza seu projeto político pedagógico, como o senhor vê o surgimento da Resolução 1010, do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia?
Sérgio Kóide - Em minha opinião, o conceito da 1010 foi muito bem estruturado. É bastante razoável que as atribuições sejam concedidas com base naquilo que foi estudado pelo formando em termos acadêmicos. Antes, a atribuição só vinha com a graduação e nada que se fizesse após, trazia mais atribuições. Um fator positivo é que antes o formando recebia um bloco de atribuições que não guardava coerência entre os currículos efetivos. Por isso acredito que a 1010 veio para melhorar.
Confea – O senhor vê pontos positivos na Resolução 1010, mas considera a realização de provas por áreas um meio eficaz para conceder atribuições. Aplicar a prova não lhe parece de difícil em função dos mais de trezentos títulos em que a engenharia se divide?
Sérgio Kóide - Uma coisa que vai mudar é essa quantidade de títulos. O próprio MEC reconhece o exagero de títulos em engenharia e acena com a diminuição deles. O Ministério lançou uma proposta sugerindo que a engenharia tenha em torno de 30 títulos que, inclusive, teve a coragem de elencar. Talvez com isso, no futuro, a gente consiga fazer uma prova básica em cada área. O mais importante é que, ao cobrar os fundamentos, uma prova não precisa cobrar tanto as especificidades. Se a pessoa tem bons fundamentos nas questões, consegue, por conta própria, desenvolver o restante. O que não podemos ter é engenheiro que só reproduza coisas já feitas, só sabe usar as planilhas, as técnicas e os macetes que já existem. Acredito que seja possível sim, a realização de provas. Mas enfim, não foi o modelo escolhido.
Confea – Dentro do modelo escolhido o senhor apontaria outros pontos positivos?
Sérgio Kóide – Sim. Um exemplo bastante significativo pode ser tirado da engenharia civil, um curso extremamente amplo, e que somos obrigados a carregar com grande número de disciplinas obrigatórias. Dentro delas, às vezes, ensinamos detalhes que não necessariamente interessam ao aluno que seguirá outra profissão. O que temos a fazer – e a Resolução 1010 vai facilitar – é enxugar a quantidade de disciplinas obrigatórias e dar ao aluno a opção de escolher as que mais lhe interessam. Outro ponto muito positivo é que ao permitir a aquisição de novas atribuições, a 1010 vai fazer o profissional retornar com mais freqüência à escola. Na medida em que precisar de uma nova atribuição ou apenas se atualizar, ele pode recorrer à universidade que a meu ver tem que ser o ‘lócus’ de uma permanente atualização de conhecimentos do profissional.
Confea – Em que condições esse profissional volta à universidade?
Sérgio Kóide - Pode voltar tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação, porque os dois níveis de curso especialização, mestrado doutorado, permitem adquirir habilitação profissional. Muita coisa que se usava há 10, 20 anos hoje não se aplica mais na engenharia. Temos discutido muito sobre algumas áreas da engenharia civil e mesmo ambiental, onde a questão do geoprocessamento é cada vez mais fundamental. Por exemplo, algumas técnicas que eram ensinadas em topografia perderam a importância. Cada vez menos se usa teodolito e cada dia mais se usam estações totais, e se recorre a estrutura dos bancos de dados, a imagens de satélite. Qual o engenheiro que não recorre ao Google? O Google é uma ferramenta muito simples, mas o uso de imagens é mais sofisticado e fornece um número muito maior de informações. Vejo num futuro próximo o uso obrigatório do geoprocessamento nos cursos de engenharia civil. Isso é só um exemplo de mudanças técnicas.Tudo isso a 1010 vai favorecer.
Confea – A UnB se prepara para essas mudanças?
Sérgio Kóide - Estamos pensando seriamente sobre o curso de engenharia civil, onde disciplinas que não trazem conceitos novos e só repetem sua aplicação, passem a ser optativas. Quem vai atuar nas áreas de recursos hídricos ou transportes não é mais obrigado a fazer, por exemplo, fundações. Ele tem que ter todos os conhecimentos sobre resistência do solo, cálculos, extensões e noções de como se faz projeto de fundações, mas o detalhamento dos diversos tipos deixa de ser de fato uma necessidade. A ideia é que esse tipo de disciplina passe a ser optativa. Essa em particular já é, na engenharia civil da UnB, já com vistas a 1010. O que a Universidade pretende não é o reducionismo exagerado. A idéia é aproveitar tudo aquilo que seja de fundamentação. O aluno vai poder escolher já na graduação, ou não. Se quiser ter uma formação mais generalista, a universidade tem que oferecer um elenco de disciplinas que lhe deem essa formação.
Confea – O senhor citaria outros exemplos de disciplinas que podem se tornar optativas?
Sérgio Kóide - A questão do dimensionamento das redes hidráulicas de uma cidade. Os cálculos das redes de água, esgoto e drenagem urbana são disciplinas obrigatórias e não têm conceitos novos. O aluno com um bom conceito de hidrologia e de hidráulica é capaz de projetar essas redes. Ele não saberá detalhar as redes, mas isso é simples, se aprende em três meses, numa empresa de engenharia. Pela estrutura anterior, o aluno saía da escola com a habilitação de fazer o projeto da rede e tinha que aprender o carregamento na universidade. Agora não, vai trabalhar e, se sentir necessidade, volta à universidade faz a disciplina e obtém a habilitação em seis meses, sem parar de trabalhar.
Confea – Muitos profissionais consideram a Resolução 1010, um avanço. Por outro lado, há também muitas críticas e resistência à sua implantação. Como o senhor avalia esse quadro?
Sérgio Kóide - A 1010 abre perspectivas dentro da nova realidade da engenharia. E mais, trará, certamente, o aluno de volta à escola e isso é um passo muito importante. O engenheiro tem que voltar a universidade com mais frequência, se não, engessa. A Resolução veio em decorrência da LDB, o que é meritório, de novo, porque o Confea foi dos poucos que respondeu às demandas originadas pela lei. Muitas das outras profissões ainda não se estruturaram de forma organizada. O Sistema Confea/Crea veio com uma resposta. Está tendo dificuldades, mas reagiu. Fez uma proposta de difícil implementação, tanto é que se discute o tema há muito tempo, mas de qualquer forma, se não houvesse essa proposta inicial, ainda estaríamos na estaca zero. Acho que a 1010 é extremamente positiva nesse sentido, talvez exija adaptações, mas isso é outra coisa. Ela veio no momento certo para provocar a discussão.
Podemos atribuir a resistência a este novo modelo, de maneira geral, um pouco, ao receio do novo, ao receio de algo que vai exigir tomar de decisões. Com a 1010, ou ele opta por atender a Resolução ou vai ser um engenheiro tradicional. Outro fator pode ser a falta de tempo para estudar. Às vezes, voltar aos bancos escolares representa interferência no trabalho e decidir entre abrir perspectivas por meio da Resolução 1010 ou ficar como está. Esse momento gera insegurança, a reação é natural. Já o profissional mais envolvido com a discussão da legislação e os professores apontam vantagens por meio de uma visão mais integral, holística. O benefício primeiro é à volta a escola. O segundo é desobrigar fazer disciplinas pelas quais o aluno não se interessa. A possibilidade de optar, trazida pela Resolução1010, tem que ser aproveitada.
Confea – A 1010 é um tema que vem sendo discutido há muitos anos e terá validade nacional a partir de 2012. O senhor vê dificuldades práticas em sua utilização?
Sérgio Kóide - Uma das dificuldades da Resolução 1010 é o que o papel está aceitando e não o que efetivamente está sendo dado. Já que o sistema profissional não pode interferir no educacional, e vice versa. O Confea só pode analisar os documentos, não pode olhar as escolas, o que dá ao MEC mais responsabilidade sobre isso. Hoje, as escolas são vistas apenas como um todo. É observado se elas têm condições de dar bons cursos, se têm laboratórios, mas não verifica se o que está dentro do programa e das ementas está sendo cumprido. Isso o MEC não faz e ao Confea não compete fazer. Acredito que a maior parte das escolas não fará isso, mas no caso de má fé pode pegar currículos, rechear com tudo o que é exigido, dizer que oferece e efetivamente não oferecer.
Confea – Nesse caso, o mercado não se encarregaria de dispensar esse profissional?
Sérgio Kóide - Em algumas áreas da engenharia isso está claro. Atualmente, um consultor mal formado é rapidamente dispensado pelas empresas. Antigamente, na construção civil, havia o engenheiro administrador, mas isso acabou. Hoje a construção civil está cada vez mais profissional. De novo, o mercado vai selecionar esse profissional e acenar com isso salários maiores. O mercado vai acabar corrigindo essas distorções. Todos os profissionais e escolas têm que aceitar a 1010 como uma tentativa válida e bem estruturada de se fazer uma modificação. A LDB é uma realidade que tem que ser atendida. De outra forma, teremos uma situação de dubiedade dentro das profissões e uma dualidade com escolas atendendo a Resolução, e outras não. Isso vai exigir que o Sistema busque soluções.
Confea - A redução da quantidade de títulos e a Resolução 1010 ajudarão a diminuir o sombreamento entre as profissões?
Sérgio Kóide – Temos que pensar que não é o titulo que importa, é o conhecimento. Se há conhecimento não vejo motivo. Em alguns países não é preciso ter o estudo superior para realizar determinadas tarefas, basta provar que tem o conhecimento. Mas é necessária uma base mínima para construir esse conhecimento. Quem não sabe cálculo, não entende física, quem não entende física, não consegue entender engenharia. Agora, para ser engenheiro você não precisa do título. Um bom físico, se estudar, pode ser um bom engenheiro. Não há porque essa briga em cima de pequenas questões de sombreamento. Se a pessoa tem a formação básica e fez uma complementação que lhe garante a atribuição, o que se tem que discutir é isso: que atribuições são necessárias para fazer projetos de alta tensão? Uma disciplina? Várias? Quais? Qualquer profissional de engenharia que tenha cursado aquela cadeia de disciplinas tem a mesma habilitação que um engenheiro eletricista. A mesma coisa ocorre na engenharia civil. Se um engenheiro eletricista fizer disciplinas da área de construção, não tem porque não construir algo mais que dois ou três andares.
Maria Helena de Carvalho
Assessoria de Comunicação do Confea
