Terras, gente competente e a melhor tecnologia tropical do planeta

Cuiabá, 21 de novembro de 2013.

A paixão pela profissão foi revelada logo no início da palestra que Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, desenvolveu na tarde da quarta-feira, 20 de novembro, para os cerca de dois mil participantes do XXVIII Congresso Brasileiro de Agronomia, e da 1ª Reunião dos Conselheiros Federais e Regionais, e profissionais da Agronomia do Sistema Confea/Crea e Mútua, eventos realizados no Centro de Eventos de Cuiabá (MT), até a sexta-feira, 22.

Ao responder a pergunta tema de sua palestra – “O Engenheiro Agrônomo do Século XXI” -, Roberto Rodrigues defendeu que o profissional do futuro deve, além de ser técnico na área, ser gestor. “Nós, agrônomos, não entramos com profundidade em um tema central do mundo contemporâneo: gestão. Logística, políticas de renda, comércio: tudo isso é gestão e compete a nós, agrônomos, assumir esse papel”, afirmou.

Recém-chegado de um congresso realizado na África, Roberto Rodrigues constata que o mundo não tem mais líderes: “Tivemos vários homens extraordinários que conduziram a humanidade nos últimos 50 anos, mas hoje não temos líderes em nenhuma parte do mundo: Ásia, Europa, Américas, Oceania. Chegamos ao ponto de realizarmos a Rio+20 no ano passado e não se produzir um modelo de futuro para nossos filhos e netos, nem sequer um documento propondo ações concretas. Só intenções”.

Considerando que talvez não haja mais espaço para líderes carismáticos, individuais e que a hora seja para lideranças  coletivas – para ele a primavera árabe e as manifestações de junho no Brasil, difusas, mas coerentes, são exemplo disso -, Roberto Rodrigues acredita que “os movimentos sociais podem mudar o mundo desde que haja foco”.

Rodrigues defendeu que o mesmo fenômeno acontece no âmbito da Agronomia, quando criticou a falta de liderança e de projetos focados na área. “Somos criticados internacionalmente por destruirmos florestas com pesticidas. Mas a intensificação da nossa agricultura exige isso. Somo um país tropical – não temperado – as pragas se proliferam muito rápido”. Rodrigues defendeu que os agrônomos e produtores rurais, que lidam diretamente com o meio ambiente no dia a dia, precisam se posicionar nos debates. “A bandeira da sustentabilidade é da Agronomia brasileira”, completou Rodrigues, ao mencionar que esse é mais um desafio para o século e ressaltando que o país tem terras, gente competente e a melhor tecnologia tropical.

Rodrigues lembrou-se da manchete do dia com relação à COP 19 (Conferência do Clima das Nações Unidas) “onde também não há consenso, apenas acordos pífios em torno de temas menores”, lamentou: “Vivemos momentos de incerteza, instabilidade. Onde tudo isso vai desaguar? Existe a ameaça de uma inflação planetária caso o FED (Banco de Desenvolvimento dos Estados Unidos) tire o apoio que dá ao sistema norte-americano. Faltam líderes, falta ação”.

Confessando que essa visão não é pessoal, mas global, o ex-ministro reconhece que há coisas boas acontecendo: “Hoje vivemos mais tempo, a tecnologia nos trouxe vantagens competitivas, melhoramos as condições de vida individual, mas não a coletiva, porque estamos sem líderes e sem rumo”. Antes de falar sobre segurança alimentar e o papel do engenheiro agrônomo no século XXI, confessou: “Sou engenheiro agrônomo e pai de engenheiros agrônomos. Tem gente que diz que é falta de imaginação da família, mas é paixão mesmo”.

Maria Helena de Carvalho e Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea