Brasília, 7 de abril de 2026.
Eixo transversal de todas as dimensões que compõem o Infra-BR, Meio Ambiente integra-se a outra expressão das mais atuais em nossos tempos: resiliência. Juntas, elas demonstram uma preocupação que deve orientar as atividades de todo o Sistema Confea/Crea nos próximos anos do milênio: nossa capacidade adaptativa aos impactos das mudanças climáticas. “Os impactos das mudanças climáticas se manifestam de forma sistêmica, com efeitos diretos sobre o ciclo hidrológico, os ecossistemas, a infraestrutura e o bem-estar das populações, exigindo abordagens integradas para sua mensuração”, descreve o Relatório Metodológico do Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), que passa a dimensionar os principais desafios de gestão para o país na área.

Os componentes desta dimensão – Adaptação e Resiliência Climática e Cobertura Vegetal e Conservação – sintetizam preocupações desenvolvidas por meio de nove indicadores: Índice de Capacidade Adaptativa; segurança em barragens; redução de emissões brutas de gases de efeito estufa (C02e); resiliência hídrica e áreas úmidas e percentual de municípios com planejamento de drenagem e manejo de águas pluviais, no primeiro; e áreas verdes urbanas; taxa total de degradação; grau de impermeabilização urbana e infraestrutura verde hídrica (wetlands e mangues), no segundo.
Abordagens internacionais preconizam “a necessidade de combinar métricas de exposição a perigos climáticos, condições ecológicas estruturantes, capacidade adaptativa e eficácia das respostas institucionais”. Índices compostos consolidados de entidades atuantes no estudo da adaptação climática, que sintetizam as dimensões de vulnerabilidade e a capacidade de resposta dos territórios, são alguns dos instrumentos usados pelo Infra-BR. É o caso do Índice de Capacidade Adaptativa, desenvolvido pelo Adapta Brasil. Entende-se a importância da dimensão para a regulação do clima local, mitigando problemas como enxurradas e ilhas de calor, que colocam em risco a população e a infraestrutura.

O resultado geral da dimensão (confira mapa nesta página) mostra a melhor classificação de Distrito Federal (87.08); Rio de Janeiro (72.36); Minas Gerais (68.85) e São Paulo (64.06). Apontando para uma desigualdade regional presente também em outras dimensões do Infra-BR, Rio Grande do Norte (22.91); Piauí (24.25); Ceará (24.75) e Pernambuco (29.00) têm os cenários mais preocupantes.
Componentes
De 2012, o artigo “A framework for urban climate resilience” (“Um modelo para a resiliência climática urbana”), de Tyler e Moench, referencia o primeiro componente (“Adaptação e Resiliência Climática”), conforme descreve o Relatório Metodológico do índice. Ele sustenta que a resiliência climática urbana resulta da interação entre sistemas (infraestrutura e ecossistemas), agentes (atores capazes de decidir e mobilizar recursos) e instituições (regras e arranjos que estruturam essas interações). A “capacidade de manter a funcionalidade diante de perturbações”, associada ao termo, justifica a ênfase na capacidade adaptativa. Adaptação contínua e estrutural, em conformidade com as abordagens ecológicas e evolutivas. “Em consonância com essa perspectiva, o Infra-BR privilegia métricas que expressem processos dinâmicos, como regeneração ambiental e fortalecimento de capacidades institucionais, e não apenas estoques físicos ou respostas pontuais”.
“A resiliência das estruturas deve ser enxergada de forma complementar às mudanças climáticas. Isso porque, não se pode pensar em resiliência apenas observando o comportamento histórico do clima (chuvas, ventos, calor, frio etc). É necessário projetá-la com base nas tendências futuras para não corrermos o risco de investir em algo que, pela tendência de mudanças climáticas, perderá a eficácia em pouco tempo. A ASCE (American Society of Civil Engineers, autora do documento “Report Card for America’s Infrastructure”, que serviu de referência para a criação do Infra-BR, ao lado do brasileiro Índice de Progresso Social – IPS Brasil) divulgou um estudo em 2024 no qual afirma que cada dólar gasto em resiliência e preparação economiza US$ 13 para as comunidades em custos pós-desastre. Sendo assim, torna-se mais seguro e mais eficiente investir em resiliência hoje do que em recuperação de áreas devastadas amanhã”, considera Alexandre Borsato, gestor do termo de colaboração entre o Confea e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), uma das organizações idealizadoras do IPS Brasil. Detalhes do estudo da ASCE podem ser consultados no endereço https://infrastructurereportcard.org/solutions/
O segundo componente (“Cobertura Vegetal e Conservação”) pondera a importância de ecossistemas como wetlands (“áreas úmidas”) e mangues, associados à “infraestrutura verde hídrica”, para a redução de danos extremos e para a proteção da biodiversidade. O indicador de manejo de águas pluviais e drenagem urbana (grau de impermeabilização) está diretamente associado à capacidade de redução daqueles danos, tanto estruturais, como em relação a aspectos como a saúde pública. Esse indicador valoriza a combinação da “infraestrutura cinza” com as soluções baseadas na natureza, enquanto o referente à redução de emissões brutas de gases de efeito estufa (CO2e) incentiva a transição de carbono.
Ponderações
A equipe responsável pela elaboração do Infra-BR reconhece a persistência de lacunas relevantes, a exemplo da ausência de bases nacionais padronizadas sobre monitoramento sistêmico de encostas, infraestrutura costeira frente à elevação do nível do mar e integração direta entre cenários regionalizados de mudança climática e a localização dos ativos de infraestrutura. A “cautela na interpretação dos resultados” e “a necessidade de complementação com análises qualitativas e estudos setoriais” também se referem à necessidade de superar a “lógica de gestão de riscos” e de captar devidamente os “processos de longo prazo e a efetividade das intervenções implementadas”. A diversidade dos biomas e seus contextos heterogêneos de vulnerabilidade e adaptação devem também ser considerados em conjunto.
Entrevista com o pesquisador Beto Veríssimo
Cofundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o engenheiro agrônomo Beto Veríssimo coordena o Projeto Amazônia 2030, sendo também um dos diretores do Progresso Social Brasil (IPS Brasil). Diretor do Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), tem pós-graduação em Ecologia Florestal pela Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA), onde é pesquisador visitante da Universidade de Princeton e atua na Fundação Skoll, como empreendedor social global, mesma atribuição que o liga, como Senior Fellow, à entidade de empreendedorismo social de caráter mundial Ashoka. Consultor e membro de conselhos consultivos de diversas empresas e instituições do Terceiro Setor, Beto Veríssimo foi Enviado Especial de Florestas para a COP/30, realizada em Belém, no ano passado. A seguir, Beto reforça os impactos das mudanças climáticas; fala dos desafios da infraestrutura amazônica e considera que a crise do Oriente Médio deve ser vista como um sinal para a mudança dos paradigmas energéticos do planeta.

Confea – Em 2023, o senhor apontou ao portal InfoAmazônia problemas como a grilagem de terra, a chegada do crime organizado e também a necessidade de melhorar a qualidade de vida das cidades para fortalecer o cuidado com a floresta. Esses cenários mudam muito com os eventos climáticos extremos, refletidos pela dimensão Adaptação e Resiliência Climática, do Infra-BR?
Eng. agr. Beto Veríssimo – Sim. As mudanças climáticas já são um fato na vida econômica e social do Brasil. O Brasil tem uma economia muito dependente da natureza, pois parte importante de nossa matriz energética é hidrelétrica (depende do ciclo regular de chuvas para manter os reservatórios) e o nosso agronegócio também é muito dependente de chuvas. De fato, somente cerca de 6% de nosso agronegócio é irrigado. Além disso, as nossas cidades não foram projetadas para um mundo com extremos climáticos. Será preciso investir muito em infraestrutura urbana adaptada às mudanças climáticas.
Confea – O senhor é diretor do Centro de Empreendedorismo da Amazônia e coordenador do IPS Brasil, além de pesquisador e co-fundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Como o senhor vê essa parceria com o Confea e como dados como os do Infra-BR poderão contribuir para as cinco Amazônias que o senhor descreveu naquela entrevista?
Eng. agr. Beto Veríssimo – A Amazônia tem uma grande carência de infraestrutura. Por exemplo, na Amazônia Urbana (onde vivem cerca 76% da população), há um déficit enorme de saneamento básico. Na Amazônia desmatada, é fundamental melhorar as rodovias e as estradas vicinais, reduzindo os custos de logística. Aumentar a produtividade da terra pode permitir recuperar parte importante do que foi desmatado. Por sua vez, na Amazônia florestal (parte remota da Amazônia), os desafios de infraestrutura incluem a necessidade de levar energia elétrica e internet de qualidade.
Confea – O desenvolvimento amazônico, como de todas as regiões brasileiras, incluindo a relação com os povos originários, depende de políticas públicas. Como o Infra-BR poderá favorecer essas políticas, inclusive do ponto de vista de atração de investimentos privados internacionais e nacionais e junto aos órgãos federais que atuam na Amazônia e até aqueles que ainda atuam menos?

Eng. agr. Beto Veríssimo – Os povos originários protegem uma área quatro vezes maior do que o Estado de São Paulo. O desafio de infraestrutura é garantir acesso a energia elétrica (de preferência, sistemas fotovoltaicos) e internet de qualidade para esses povos. Além disso, é importante melhorar a infraestrutura fluvial.
Confea – Como o senhor percebe o papel da Agronomia diante do atual cenário de mudanças climáticas e quais as suas principais contribuições com as perspectivas apontadas pelo Infra-BR? Elas valorizam a sustentabilidade?
Eng. agr. Beto Veríssimo – Os engenheiros agrônomos têm um papel chave na agenda de adaptação climática, pois a agricultura em um país tropical como o Brasil será severamente impactada pelas mudanças climáticas. No campo biológico, será importante avançar com variedades de plantas mais resistentes ao stress climático. Ao mesmo tempo, será fundamental investir muito em infraestrutura rural para enfrentar os extremos climáticos (secas severas, enchentes diluvianas). Ou seja, a demanda por infraestrutura rural crescerá bastante, tanto em irrigação, barragens, silos etc.
Confea – Paralelamente ao Infra-BR, foi lançado o Plano Nacional sobre Mudança do Clima – Plano Clima, guia das ações interministeriais para enfrentar a mudança do clima no país até 2035, descrevendo um roteiro para o cumprimento da meta nacional do Acordo de Paris. É uma expectativa importante, mas estamos diante de um cenário de eleições em que ela pode ser simplesmente refutada por um dos projetos em disputa...
Eng. agr. Beto Veríssimo – O Brasil é o país do G20 com melhores condições de cumprir as metas climáticas, pois temos uma matriz energética em grande parte limpa. O nosso problema é o desmatamento na Amazônia, que é responsável por quase metade de todas as nossas emissões de gases de efeito estufa. Esse desmatamento da Amazônia não gera riqueza.
De fato, esse desmatamento deteriora o ambiente econômico, inibe investimentos de qualidade. Resolvido o desmatamento e mantida a matriz energética limpa, o Brasil tem tudo para ser um país com economia de baixo carbono e usar isso como vantagem comparativa nos principais setores da economia nacional: agronegócio, papel e celulose, mineração industrial, indústria e serviços.
Eng. agr. Beto Veríssimo
Confea – O senhor também coordena o Amazônia 2030, iniciativa do Imazon e do CEA, em parceria com a Climate Policy Iniciative e o Departamento de Economia da PUC-Rio. Quais as principais conclusões da COP 30 que podem refletir nos indicadores apresentados pelo Infra-BR? Considerando que a Amazônia abrange não apenas o Brasil, é possível pensar que as intervenções sobre esses indicadores também possam beneficiar outros países, indiretamente?
Eng. agr. Beto Veríssimo – A Amazônia é um continente, pois a floresta se espalha em 8 países da América do Sul. O Brasil, que detém quase dois terços da floresta amazônica, é o líder natural da cooperação regional. Os desafios de infraestrutura da Amazônia brasileira são muitos similares aos dos países vizinhos. Seria interessante explorar a ideia de aplicar o Infra BR nos países amazônicos, o que poderia ser feito em parceria com as instituições desses países. Já há experiência de cooperação PanAmazônia em áreas de monitoramento ambiental e segurança.
Confea – Em entrevista para o Confea, o pesquisador Ricardo Abravomay considera que a realização da COP 30 não apontou avanços do ponto de vista das políticas públicas com pouco aproveitamento do potencial da agricultura regenerativa, por exemplo. O senhor tem uma visão mais otimista em relação a esse cenário?
Eng. agr. Beto Veríssimo – A COP30 foi realizada em um contexto geopolítico desafiador, mas o Brasil conseguiu contornar essas dificuldades com uma diplomacia de alto nível. O mapa do caminho para o fim dos combustíveis e o fim do desmatamento são resutaldos positivos da COP30. A crise no Oriente Médio é um atestado de que precisamos acelerar a transição energética rumo às energias renováveis.
Confea – Na entrevista ao InfoAmazônia, o senhor também se referiu ao potencial não explorado dos produtos da floresta, incluindo a economia da cultura, além daqueles que possam ser explorados por meio de um cenário de “desmatamento zero”. Como o Infra-BR pode contribuir para fortalecer essa economia?
Eng. agr. Beto Veríssimo – O InfraBR reforça a importância da infraestrutura a serviço das pessoas e da economia nacional. Na Amazônia, isso significa uma infraestrutura focada onde as pessoas estão morando ou nas áreas urbanas. Ao contrário do que muita gente pensa, a maior é cada vez mais urbana. A infraestrutura também deve estar a serviço das atividades mais produtivas e sustentáveis da região, incluindo agronegócio de baixo carbono, agricultura regenerativa e sistemas agroflorestais, bioeconomia, restauração florestal, silvicultura, entre outros.
Henirque Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
