O que falta para melhorar o serviço prestado pela meteorologia brasileira?

Brasília, 23 de março de 2013.

No Brasil, os meteorologistas registrados no Sistema Confea/Crea e na Sociedade Brasileira de Meteorologia somam, em números absolutos, 1.221 profissionais que,  segundo a professora Maria Assunção Faus da Silva, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, “guardam uma certa frustração” por fazer previsões que chegam à população de forma truncada:

“Observamos, analisamos as alterações de clima e fazemos previsões, mas em função de uma comunicação falha, nossas previsões não são percebidas pela sociedade”, analisa a professora, que também ocupa a vice-presidência da SBMet.

Ela dá como exemplo os Estados Unidos, onde a aproximação de uma tempestade é anunciada com dias de antecedência pelos próprios técnicos que dão entrevistas para a mídia.

“Lá existe um protocolo de ações de comunicação  que gera providências tomadas pela Defesa Civil,  área da Saúde e  da Segurança, entre outras, que se preparam para atender a população com medidas preventivas e também emergenciais. A comunicação é instantânea, o que permite que a sociedade tenha capacidade de reação ao tempo, desde o manejo de uma barragem, até os sinais de trânsito nos centros urbanos. Nesse aspecto ainda somos amadores”, admite.

Seminário - Para Assunção,  que foi uma das palestrantes do seminário “Monitorar o tempo para proteger vidas e propriedades”, realizado na manhã de 21/03, em Brasília, no campus do Instituto Nacional de Meteorologia, e promovido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em comemoração ao Dia Meteorológico Mundial (23/3):

“O Brasil já avançou bastante investindo em tecnologia de computação, e em softwares de previsão numérica de tempo, por exemplo, mas não o chamado “nowcasting”, pessoal preparado para atuar na área”.

Além de investimentos em pesquisa e formação de bons profissionais, a professora acredita que “é preciso estimular a interação entre a academia, os institutos de pesquisa, entidades governamentais  e iniciativa privada, para tratar do tema”.

Assunção chama atenção para os países donos de radares dopplers, como a Alemanha, que possui 16 deles, o que permite monitorar o país a cada duas horas, e a Inglaterra com cinco radares. O Brasil tem cerca de 30 que alcançam um raio de 300 km, insuficientes para cobrir todo o território com mais de 8 mil de km². Apenas em São Paulo estão quatro radares, dois deles privados, que não compartilham informações.

PhD - “O usuário precisa de respostas rápidas, precisamos de pessoal bem preparado e treinamento específico para emitirmos alertas com uma linguagem que seja entendida por todos, sem o uso de termos técnicos que a população desconhece. Temos ainda que refazer e fazer parte dos canais de comunicação com áreas como a hidrologia, a geologia, segurança, e transporte”, ensina a professora.

O outro palestrante do seminário foi o presidente do Inmet, Antonio Divino de Moura, engenheiro eletricista e primeiro brasileiro PhD em Meteorologia.

Tão preocupado quanto Assunção com relação a profissionais bem preparados, Moura alerta para o fato de que em dois anos, “40% do pessoal do instituto estará se aposentando”. Ele também reforça a necessidade de investimentos em pesquisa e defende a regionalização dos centros operacionais  para dinamizar a prestação do serviço meteorológico, e lembra que o rádio é o veículo ideal para alcançar a população.

<

O diretor do Inmet e presidente da Sbmet, Antônio Divino Moura, e a professora doutora, palestrante Maria Assunção da Silva|right>> Bem humorado, Moura diz que o bom da meteorologia é que “a profissão nunca será superada”. Para ele, dois fatores complicam a previsão no Brasil,  “a extensão do país e o hiato existente entre a previsão da meteorologia e a ação da Defesa Civil”. A formação e a manutenção de grupos interdisciplinares para melhorar a qualidade do serviço prestado também foram defendidas por Moura, que lembra os três problemas da meteorologia: “o que eu consigo prever, o que essa precisão demanda e o que têm em comum”.

O seminário – que também marcou os 50 anos da Vigilância Meteorológica - foi aberto por José Geraldo Fontelles,  secretário de Produção e Agropecuária, representando  Mendes Ribeiro Filho,  ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Maria Helena de Carvalho
Equipe de Comunicação do Confea

gco@confea.org.br