Relato de uma tragédia anunciada

Brasília, 15 de fevereiro de 2013

"Eng. agr. Juarez Morbini lamenta a tragédia que se abateu sobre a comunidade de Santa Maria"
A comoção de Santa Maria, após a tragédia que abalou a cidade gaúcha na madrugada de 27 de janeiro, poderá contribuir para alterar a legislação e a fiscalização sobre ambientes fechados e inseguros como a boate Kiss, cenário do “acidente” que vitimou mais de 300 jovens da cidade e adjacências.  Essa é uma das esperanças de um dos habitantes da cidade, o engenheiro agrônomo Juarez Morbini. Ele é um dos muitos santa-marienses e brasileiros que vêm acompanhando de perto, perplexo, as consequências da irresponsabilidade que toma as boates, casas de show, ginásios, estádios e outros ambientes semelhantes espalhados pelo país.  Nos últimos dias 4 e 5 de fevereiro, Juarez esteve presente a uma reunião do Grupo de Trabalho da Rio+20, no Confea.

Coordenador da Câmara Nacional de Agronomia e da Câmara de Agronomia do Crea-RS, o engenheiro agrônomo gaúcho lembra, a princípio, que os jovens não eram apenas de Santa Maria, eram também de municípios vizinhos como Santa Rosa, Júlio de Castilho, Itaqui, Uruguaiana, Passo Fundo. Assim também eram seus alunos, quando coordenava, entre 2001 e 2004, o curso de Agronomia da UFSM. E também os estudantes de quando lecionou na UFSM entre 1974 e 2009. “Cada figura que aparecia ali, eu me lembrava de meus alunos. O sentimento é pelo curso em si. Se houve esta comoção nacional, imagina a gente que está perto”, diz. Afinal, a Universidade hoje abriga cerca de 600 alunos, com interesses como Agronomia, Zootecnia, Tecnologia em Alimentos, Medicina Veterinária, Pedagogia, para citar apenas as áreas dos universitários que assinavam o flyer de divulgação da festa “Agromerados”. Juarez Morbini calcula que cerca de 30 dos 116 alunos da UFSM eram do curso de Agronomia. Os organizadores da festa pretendiam angariar recursos para suas atividades. Ex-alunos e estudantes de diferentes campi da universidade estavam na Kiss.  Muitos deles não saíram da boate com vida. Outros ainda lutam pela sobrevivência. “Kiss não, diz Juarez, só consigo ler esse nome como ‘Kill’, assassino, em inglês”, ressalta.

"Comissão de Especialistas em Segurança contra Incêndio, criada pelo Crea-RS, em perícia na boate Kiss"
Enquanto centenas de vítimas eram veladas e sepultadas, questionamentos às condições da prevenção de incêndios e a outras medidas de segurança passaram a se reproduzir na mídia. A primeira iniciativa veio do Crea-RS que enviou uma comitiva à cidade no mesmo dia da tragédia. Juarez Morbini estava entre estes engenheiros. “Fomos ao ginásio, e a inspetoria do Crea em Santa Maria foi à boate, junto com o presidente Luiz Capoani e o Ibape,  mas eles só tiveram realmente acesso durante a semana. Só passei próximo, não entrei. Não é minha especialidade, não havia por que entrar. Procurei conversar com os colegas, que estavam extremamente abalados, para dar minha solidariedade. Psicologicamente foi um abalo para todos, para os professores, para sociedade da agronomia,  então, tinha que me solidarizar com todo mundo. Foi uma comoção generalizada, a cidade está abalada. Havia 15 mil pessoas em silêncio. Não há como dimensionar o que será esta perda para a  universidade, para a cidade”.

Desespero e superação

Desde o primeiro momento, Juarez conversou com vários colegas professores, tentando entender aquele absurdo. Mas não esteve ainda na universidade. Ele conta ainda estar abalado com o impacto da tragédia. “Moro próximo do pronto-atendimento, então a passagem de ambulâncias, na madrugada ainda, foi algo que nunca havia visto. Não tinha noção do que era. Pela manhã, minha filha me disse que houve um grande desastre. Logo percebi o desespero na cidade com campanhas de doação de sangue, luvas, água... O estado de comoção foi imediato e a mobilização também com a convocação de muitos psicólogos. E ainda havia os próprios meninos que saíram de lá desesperados. Tive contato logo depois com amigos, representantes do próprio Sistema Confea/Crea e Mútua, pelas redes sociais e telefonemas de vários países e estados do país”, recorda.

Para a Juarez Morbini, Santa Maria conseguirá superar sua pior adversidade. “Tem que ser superado. O que não pode, absolutamente, é cair no esquecimento. Os responsáveis precisam ser punidos, até em respeito aos mortos e aos familiares. Acredito que isto irá acontecer. Além de se fazer justiça, acredito que este evento, infelizmente, colabore para que a legislação seja modificada e seja obedecida. Outra coisa que precisa ficar bem claro é que liminares que permitam a manutenção das atividades de locais públicos sem as condições mínimas de segurança não podem acontecer. Não se pode tirar a autoridade de quem não permitiu que a casa funcionasse. Como aconteceu também na avalanche do novo estádio da Grêmio Arena. O pessoal quer justiça e que a legislação seja revista para que isso não se repita”.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
gco@confea.org.br