Brasília, 7 de agosto de 2026
Enquanto a construção civil brasileira discute inteligência artificial e gêmeos digitais como próximo passo da modernização, os dados oficiais mostram um setor que ainda atravessa a etapa anterior dessa jornada: mais da metade dos profissionais de engenharia, agronomia e arquitetura segue na fase inicial de aproximação com o BIM, a Modelagem da Informação da Construção. É esse retrato, construído ao longo de duas edições da Pesquisa sobre Digitalização no Âmbito da Indústria da Construção, que ganha um novo capítulo neste agosto, com a terceira edição do levantamento, conduzido pelo Sistema Confea/Crea e Mútua, pelo BIM Fórum Brasil e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). O questionário permanece aberto para respostas até o dia 12 do mês.

O que a pesquisa revela sobre o uso de BIM nos canteiros de obra?
Os números da 2ª edição, aplicada em 2024 com 4.164 respostas válidas, indicam que o setor conhece o BIM, mas ainda não o pratica de forma intensiva. Mais de 95% dos profissionais afirmam ter familiaridade com a metodologia, e 77,1% relatam percepção positiva sobre seu impacto. Na prática, porém, apenas 33,8% dos respondentes desenvolveram algum tipo de experimentação concreta, enquanto 56,7% permanecem na etapa de descoberta e aproximação, marcada por ações isoladas e sem continuidade.
O uso avançado da tecnologia (o que a pesquisa chama de Tecnologias 4.0, como inteligência artificial aplicada a projeto e planejamento) segue restrito: apenas 38,5% dos profissionais afirmam ter conhecimento aplicado dessas soluções, contra 71,1% para as Tecnologias 2.0, como CAD. Entre as ferramentas de IA especificamente, projeto assistido por inteligência artificial e projeto generativo aparecem como as menos conhecidas, com cerca de 70% dos profissionais relatando desconhecimento ou noção apenas superficial.
Por que a transição para tecnologias avançadas ainda é lenta?
A pesquisa aponta dois obstáculos recorrentes. O primeiro é financeiro: 43,1% dos profissionais no estágio inicial citam a falta de recursos para licenças de software como principal barreira à adoção do BIM. O segundo é organizacional: 86,5% relatam que seus esforços de adoção são interrompidos ao longo do tempo, geralmente por falta de continuidade institucional ou de tempo disponível.
Há também uma lacuna de capacitação. Do total de participantes, 99% identificaram necessidade de formação relacionada à transformação digital, com destaque para metodologias de planejamento e gestão de processos de trabalho, área que também concentra os principais motivos de atraso e sobrecusto em obras: 90,6% dos profissionais relataram desvios recorrentes de prazo e orçamento nos projetos em que atuam.

O que mudou entre 2022 e 2024?
A comparação entre as duas primeiras edições mostra avanço, ainda que desigual. O conhecimento aplicado sobre tecnologias mais avançadas para a construção civil cresceu de 28,3% para 38,5%. A adoção de ferramentas digitais específicas para o setor, que era minoritária em 2022, passou a atingir a maioria dos profissionais em 2024 (de 48,3% para 53,4%).
Por outro lado, o estágio inicial da jornada BIM se tornou mais desafiador: a proporção de profissionais em trajetórias tardias de adoção, aquelas que se estendem por mais de doze meses sem se traduzir em prática concreta, subiu de 63,1% para 69,9%. O dado sugere que, à medida que mais profissionais entram em contato com o tema, cresce também o contingente que permanece estacionado nas etapas iniciais.

Como a construção civil está se preparando para a próxima etapa?
Fora do escopo direto da pesquisa, mas na mesma direção, a ABDI tem ampliado ações voltadas à digitalização de pequenas e médias empresas do setor. Segundo Olavo Noleto, presidente da agência, o programa BIM na Prática busca levar consultoria especializada para dentro das empresas, "ajudando na implementação efetiva da metodologia e na modernização dos processos produtivos", com atuação em oito estados e atenção à equidade regional.
No lançamento da 3ª edição da pesquisa, o vice-presidente do BIM Fórum Brasil, engenheiro civil Carlos Bomfim, reforçou a importância de ouvir os profissionais para orientar políticas públicas e capacitação. Já a vice-presidente no exercício da Presidência do Confea, engenheira civil Ana Adalgisa Dias Paulino, destacou que os resultados orientam diretamente as próximas ações do Conselho voltadas à modernização do setor.

Como participar da pesquisa?
Profissionais registrados no Sistema Confea/Crea recebem por e-mail marketing o link de acesso ao questionário da terceira edição, disponível até 12 de agosto. A participação é especialmente relevante para quem respondeu às edições anteriores, de 2022 e 2024, já que a comparação ao longo do tempo é o que permite identificar avanços reais na digitalização do setor. Quem concluir o questionário concorre a cinco ingressos para o BIM Fórum Conference 2027.
Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
