Com incentivo e oportunidades, a base feminina vem forte

Brasília, 4 de março de 2026.

Um estudo publicado em 2018 voltou a circular nas redes sociais ao revelar uma mudança simbólica: cada vez mais crianças desenham cientistas como mulheres. Embora os dados não sejam recentes, a repercussão atual parece dialogar com o momento vivido no país, marcado por debates intensos e mobilizações nas ruas em defesa da igualdade de gênero após uma sequência de ataques contra mulheres. Em meio a esse cenário, os traços infantis ganham mais significado e podem representar um sopro de esperança sobre como crianças enxergam o lugar feminino na ciência, apontando sinais de avanços na construção de uma realidade mais diversa e igualitária. 

Publicado na revista Child Development, o estudo Draw-A-Scientist Test: Changes Over Time reuniu cinco décadas de desenhos infantis e revelou uma mudança significativa, ainda que insuficiente, na forma como crianças enxergam a ciência. Nas décadas de 1960 e 1970, 99,4% dos 5 mil desenhos avaliados retratavam cientistas homens; apenas 28 incluíam mulheres. “A visão limitada sobre quem são os cientistas pode ter restringido as aspirações educacionais e profissionais das crianças na área científica, na medida em que elas não se identificavam com essas representações”, observa o estudo. 

O cenário melhorou de acordo com a publicação Motherly: em 2016 cerca de um terço das ilustrações mostrava cientistas do sexo feminino. Entre as meninas de 6 anos, 70% já desenham profissionais que se parecem com elas. No entanto, esse percentual despenca para 25% aos 16 anos. Entre os meninos, a percepção é ainda mais desigual: 17% dos garotos com 6 anos conseguem imaginar uma cientista mulher, índice que cai para apenas 2% no ensino médio, evidenciando a persistência de estereótipos de gênero ao longo do tempo. 

Clique para baixar a versão PARA COLORIR e incentive o interesse das crianças pela engenharia, agronomia, meteorologia, geografia e geologia

Ao compreender quando e de que forma os estereótipos de gênero influenciam as crianças, é possível agir para fortalecer, de forma equitativa, a próxima geração de cientistas e profissionais das áreas tecnológicas. Quando uma garota se imagina engenheira, agrônoma, meteorologista, geógrafa ou geóloga, ela não está apenas desenhando, mas está visualizando o próprio futuro. Nesse processo, exemplos, incentivos e oportunidades concretas fazem toda diferença. 

Se referências são determinantes para que meninas ampliem seu horizonte profissional, a trajetória de quem ocupa hoje espaços de liderança ajuda a transformar essa inspiração em realidade concreta. Engenheira civil e vice-presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), Ana Adalgisa Dias Paulino é a segunda mulher a ocupar o cargo em 92 anos de história do Confea, que atualmente reúne apenas 20% de mulheres entre quase 1,2 milhão de profissionais registrados. “Recebi minha carteira do Crea assinada por uma mulher, a primeira presidente do Regional: Zélia Maria Juvenal dos Santos. Eu nunca tirei isso da minha cabeça”, conta Ana Adalgisa que, 24 anos depois, tornou-se a terceira mulher a presidir o Crea do Rio Grande do Norte, ao ser eleita em 2017, tendo sido reeleita para o cargo em 2020. 

“Ocupar esse lugar significa que eu quero que ele sirva de inspiração para as profissionais que já estão no Sistema, para as que estão na universidade ou que imaginam entrar. Que elas visualizem assim: eu posso ir muito além”, motiva a vice-presidente do Confea, que pelo segundo ano está à frente do Programa Mulher e pretende fortalecer as ações de capacitação e formação de líderes. “Isso é um pensamento que eu já tinha desde quando eu fui presidente no Crea-RN: identificar lideranças e fazer delas conselheiras, inspetoras, presidentes de entidade; enfim, dar voz a elas. Que neste ano de eleições gerais, mais mulheres se candidatem, que coloquem seus nomes, que busquem espaço nos conselhos”, incentiva Adalgisa que fez história ao ser a primeira mulher do Crea-RN eleita para o cargo de conselheira do Confea em 2024. 

A engenheira civil Ana Adalgisa Dias Paulino é a vice-presidente do Confea em 2026

 

No mundo
Recentemente a Organização das Nações Unidas (ONU) reafirmou que a igualdade no meio científico é essencial para o progresso da humanidade. “Excluir as mulheres da ciência enfraquece nossa capacidade coletiva de enfrentar desafios globais urgentes, desde a mudança climática até a saúde pública e a segurança espacial”, ressaltou a mensagem publicada pela organização no último Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro.

No cenário mundial, apenas uma em cada três pessoas que atuam na pesquisa científica é mulher. A desigualdade é ainda mais acentuada na área de tecnologia: elas ocupam cerca de 26% dos postos relacionados a dados e inteligência artificial e somente 12% das funções em computação em nuvem. “A ausência de vozes femininas, especialmente em posições de liderança, incorpora preconceitos nas ferramentas digitais e causa danos no mundo real”, alerta a mensagem da ONU.

Pais e professores, ampliem o interesse das garotas pela ciência: 

- Apresentem a elas histórias de mulheres que representem possibilidades e as inspirem a estudar ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre os exemplos de superação e resistência, está a biografia de Enedina Alves Marques, primeira mulher a se formar em engenharia no Paraná e primeira engenheira negra a se graduar no Brasil. Em 1945, foi o destaque na solenidade de formatura ao lado de 32 homens. Fez carreira participando de relevantes projetos de infraestrutura, como a construção da Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira e do Colégio Estadual do Paraná. A biografia da engenheira agrônoma Mariangela Hungria também é fonte de motivação para as novas gerações. Doutora em ciência do solo e pesquisadora da Embrapa, foi reconhecida em 2025 com o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o “Nobel da Agricultura”, sendo a primeira mulher brasileira a receber a premiação, destacada por pesquisas com fixação biológica de nitrogênio que economizam bilhões de dólares anualmente. Ela também foi incluída na lista Time100 Climate 2025, que destaca as cem personalidades mais influentes do mundo em ações pelo clima. Mostrar exemplos reais como esses ajuda as garotas a se enxergarem nesses espaços. Pesquise aqui histórias de tantas outras mulheres pioneiras.

- Criem um ambiente livre de estereótipos de gênero, evitando por exemplo frases como “isso é coisa de menino”. Questionem padrões culturais que afastam meninas da matemática ou da tecnologia. Reforcem que talento não tem gênero.

- Estimulem a curiosidade científica no dia a dia. Organizem brincadeiras e desafios práticos que ajudem as meninas a compreenderem como as coisas funcionam, despertando o interesse por explicar fenômenos e investigar soluções. Valorize o “por quê?” mais do que o acerto imediato. Canais de ciência nas redes sociais, jogos de lógica e kits de experimentação voltados ao público jovem também são aliados importantes. Além disso, experiências presenciais, como oficinas de robótica, feiras de ciência, cursos de programação e visitas a universidades ou empresas de tecnologia, ampliam horizontes e tornam o aprendizado mais concreto. Instituições, como a Embrapa, desenvolvem iniciativas que aproximam crianças e adolescentes da ciência e da agronomia, incentivando o interesse pela pesquisa, inovação e carreiras científicas.

- Sejam a rede de suporte delas: atividades nas áreas de tecnologia, engenharia e matemática envolvem desafios. Ajudem as garotas a lidarem com erros como parte do aprendizado, elogiem a dedicação e incentivem a persistência, não apenas as notas. Ensinem sobre resiliência, combatam a autossabotagem e comemorem cada raciocínio e experiência! Segurança emocional favorece curiosidade e ousadia intelectual.

 

Iniciativas que conectam mulheres ao mercado de trabalho 
O ingresso no mercado de trabalho é outro momento decisivo em que as jovens precisam de apoio, seja na escolha da profissão, na busca por qualificação e treinamentos, na conquista do primeiro emprego ou na preparação para disputar posições de liderança. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), das 87.878 vagas formais criadas no setor da construção em 2025, 13,04% foram preenchidas por mulheres. Já nas atividades de agropecuária, elas ocuparam 34,21% das 41.870 vagas no último ano.

- Ela Faz: Para ampliar a presença feminina no mercado de trabalho, a startup Ela Faz oferece capacitação e viabiliza a inserção de mulheres no setor da construção civil. O projeto nasceu de uma demanda simples e concreta: intermediar o contato entre uma pintora e uma cliente que precisava de apoio em uma obra, mas se sentia insegura em receber um homem em casa. O que começou como uma ponte entre profissionais e contratantes evoluiu para uma plataforma de educação, com cursos gratuitos divididos entre aulas teóricas e práticas, que já alcançou 19 cidades do Brasil. Hoje, a plataforma Ela Faz oferece formação técnica e apoio para mulheres que desejam desde realizar a própria reforma até conquistar independência financeira, inclusive como caminho para romper ciclos de violência doméstica. 

- Elas Constroem: Outra iniciativa que tem aumentado a participação de mulheres nos canteiros de obras é o projeto Elas Constroem, da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). O projeto oferece capacitação gratuita a trabalhadoras de baixa renda, com aulas ministradas diretamente no canteiro de obras. Esse formato diminui a necessidade de deslocamento, aproveita melhor o tempo de trabalho e possibilita adequar o cronograma às particularidades de cada empreendimento. A formação inclui videoaulas, materiais digitais e práticas supervisionadas. Ao final do curso, as alunas participam de um evento de empregabilidade com empresas do setor. Além de ampliar as chances de inserção no mercado, o projeto proporciona autonomia financeira e responde à carência de mão de obra qualificada no setor.

- Ela Faz Indústria: Já o programa Ela Faz Indústria busca impulsionar a capacitação e o protagonismo feminino no setor industrial. Destinada a empresárias que lideram micro e pequenas indústrias, a iniciativa integra o Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias (Procompi), desenvolvido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Sebrae. A metodologia alia conteúdo teórico e práticas de liderança para desenvolver competências e aprimorar a gestão de mulheres à frente de negócios industriais. A proposta é ampliar a presença feminina em posições estratégicas e promover maior equidade de gênero na indústria. Criado a partir de uma experiência da Federação das Indústrias do Tocantins (Fieto), em 2020, o modelo foi expandido pela CNI para outros estados, como Amazonas, Roraima, Espírito Santo e Rio Grande do Norte.

- Mulheres em Campo e o Donas do Agro: No setor agropecuário, o Mulheres em Campo e o Donas do Agro são duas ações promovidas pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) que preparam mulheres para atuarem com mais segurança na gestão das propriedades, no planejamento de negócios, na liderança de equipes e na construção de projetos que fortalecem a presença feminina no setor. 


Julianna Curado 
Equipe de Comunicação do Confea, com informações da IstoÉ, Cbic, CNA, CNI, ONU Brasil, Instituto Alana e Motherly 
Foto por Thalita Sousa/Confea e ilustrações geradas por IA