Mapa-múndi recebe atualização depois de cinco séculos

 

Novo mapa múndi traz uma representação mais proporcional às dimensões reais dos países
Novo mapa-múndi traz uma representação mais proporcional às dimensões reais dos países                   Equal-Earth.com

 

Brasília, 4 de setembro de 2026.

Depois de cinco séculos, a projeção cartográfica de Mercator – forma como o mundo estabeleceu sua representação plana, conhecida como mapa-múndi – recebeu uma atualização que promove uma relação mais fidedigna com as reais dimensões e proporções territoriais de todos os países. É o que foi decidido pela Organização das Nações Unidas (ONU), nesta sexta-feira (4/9), por meio de uma resolução aprovada por 164 países (e rejeitada apenas pelos Estados Unidos).

O posicionamento contrário norte-americano talvez se explique pelo fato de os Estados Unidos e ainda outras regiões mais próximas aos polos, como a Groenlândia, terem sua representação territorial redimensionada para proporções reduzidas. Já no caso das regiões mais próximas à linha do Equador, a proporcionalidade é invertida. Ou seja, países das Américas do Sul e Central e ainda do continente africano e o sul da Ásia ganharam mais amplitude representativa, enquanto os Estados Unidos, o Canadá e a Europa reduziram sua representação.

A justificativa é de que o modelo de Mercator, uma visão eurocêntrica criada para a navegação no século XVI, distorce o formato da Terra ao ampliar exageradamente as áreas de altas latitudes, junto aos polos, favorecendo aquelas representações hoje dimensionadas para baixo. Com o mapa Equal Earth a escala geográfica é ajustada para a realidade de cada continente. A chamada Resolução “Corrija o Mapa” não proíbe a permanência dos antigos mapas, mas, exatamente por ser mais científica, incentiva que as escolas e governos atualizem seus materiais educacionais e institucionais.

"Nenhum mapa plano é neutro, porque é matematicamente impossível abrir a casca redonda da Terra numa folha sem esticar ou rasgar algum pedaço. Durante séculos, nos acostumamos com o mapa de Mercator, feito para guiar navegadores no mar. O efeito colateral foi criar uma ilusão: países do Norte parecem gigantescos, enquanto a África e a América do Sul parecem encolhidas. Adotar a Equal Earth não é capricho estético; é devolver a essas regiões a sua dimensão física real, corrigindo um vício visual que há gerações distorce como a sociedade percebe o peso geopolítico de cada continente", considera o professor do curso de Engenharia de Agrimensura e Cartográfica e do Programa de Pós-graduação em Agricultura e Informações Geoespaciais no Campus Monte Carmelo-MG, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A seguir, confira outros breves pontos de vista do engenheiro cartógrafo Rodrigo Gallis sobre a nova orientação visual do mundo.

Formado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2000), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Cartográficas (2002), onde trabalhou com sistemas de mapeamento móveis terrestres, e doutor em Ciências Cartográficas pela mesma instituição (2006), onde desenvolveu trabalho sobre extração semi-automática de rodovias em imagens digitais de alta resolução, utilizando algoritmo de Programação Dinâmica. Docente  desde abril de 2012, Rodrigo Gallis realiza pesquisas na área de Geociências, com ênfase em Fotogrametria, Sensoriamento Remoto e Cartografia Digital, atuando principalmente nos temas Sistemas de Mapeamento Móvel e Aeronaves Remotamente Pilotadas. 

 

 

Engenheiro cartógrafo Rodrigo Gallis: novo modelo rompe com uma visão eurocêntrica da representação mundial
Engenheiro cartógrafo Rodrigo Gallis: novo modelo rompe com visão eurocêntrica da representação mundial

 

Confea - A mudança da projeção de Mercator para a Equal Earth era uma reivindicação antiga. Qual a importância dela?

Eng. Cartogr. Rodrigo Gallis - O mapa clássico de Mercator (século XVI) foi criado para manter rumos de bússola retos na navegação, mas faz regiões perto dos polos parecerem enormes — a Groenlândia parece do tamanho da África, embora o continente africano seja 14 vezes maior. A projeção Equal Earth corrige essa distorção e mostra os continentes com suas proporções reais de área, sem achatar ou deformar os países de forma bizarra como faziam tentativas anteriores (como Gall-Peters). É uma reparação visual e educacional para o Sul Global.

Confea - A própria representação plana da Terra sempre foi motivo de polêmica, sobretudo nos últimos anos. Quais são as principais dificuldades envolvidas?

Eng. Cartogr. Rodrigo Gallis - A geometria impõe um limite insolúvel: uma esfera não vira um plano sem sofrer deformação. O cartógrafo precisa sempre escolher o que sacrificar — se preserva os formatos (ângulos), distorce os tamanhos (áreas); se preserva os tamanhos, deforma os formatos. Nas últimas décadas, essa polêmica ganhou nova força porque a internet e os aplicativos de GNSS ressuscitaram o padrão Mercator na tela dos celulares pela facilidade técnica de programar mapas em blocos quadrados, perpetuando velhas distorções no imaginário popular.
 

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea