Brasília, 27 de janeiro de 2026.
Duas minas de propriedade da Vale S.A. transbordaram em menos de 24 horas, neste domingo (25/1), na região central mineira. Separadas por 20 quilômetros, as minas Fábrica, em Ouro Preto, e Viga, em Congonhas, registraram, respectivamente, neste domingo (25/1) e segunda-feira (26/1), os extravasamentos de água com sedimentos que já teriam alcançado o rio Maranhão, principal curso d’água de Congonhas, que desagua no rio Paraopeba, o mesmo atingido pelos rejeitos da barragem de Brumadinho (MG), em 25 de janeiro de 2019.

Apesar dos aparentes danos ambientais identificados pela Defesa Civil de Congonhas, não houve vítimas, ao contrário da tragédia que vitimou 272 pessoas, há sete anos. O reservatório da mina de Fábrica atingiu o distrito de Pires, em Ouro Preto, e alagou dependências de uma unidade da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN Mineração). Houve a interrupção dos trabalhos e 200 trabalhadores foram evacuados.
Após a suspensão do alvará da Vale em Congonhas, a empresa suspendeu as operações nas duas minas e afirmou que não houve danos e que não há riscos a barragens da região, reconhecendo o “extravasamento de água com sedimentos” da cava (escavação a céu aberto de onde o minério é extraído) da mina de Fábrica. Na mina de Viga, a água com sedimentos extravasou de um poço de drenagem (estrutura onde são bombeadas água e lama acumuladas, também conhecida como “sump”). Choveu bastante no dia anterior. As informações são do portal Poder 360 e dos jornais O Tempo e Estado de Minas. A Agência Nacional de Mineração (ANM) confirmou que não houve danos às estruturas de barragens e disse que monitora a situação e fará a apuração das responsabilidades.

Responsabilidades
O monitoramento constante das estruturas de mineração é destacado pelo gerente do Departamento Técnico e de Fiscalização do Crea-MG, eng. eletric. Nicolau Neder. “Na verdade, temos monitoramento constante das estruturas, sem a necessidade de relatórios pontuais. Considerando que a estrutura em questão é um dique, e não uma barragem de rejeito convencional, enviamos um ofício para que a empresa responsável apresente o responsável pelo monitoramento, operação e avaliação da estrutura. Após concluídas a coleta de informações o processo será, como de costume, submetido à câmara especializada”.
Coordenadora nacional das câmaras especializadas de Geologia e Engenharia de Minas (CCEGEM) e vice presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), a geóloga Sheila Klener pondera que não conhece as minas da região, mas, por sua experiência junto a empreendimentos de mineração, no Mato Grosso, ela destaca que as condições de chuva vivenciadas no último fim de semana em Minas Gerais, podem ter contribuído para o extravasamento de sedimentos para drenagens da região.

“Não posso afirmar muita coisa em relação a esses casos, mas devemos considerar principalmente essas condições de escoamento da água superficial. Com a declividade, é preciso estruturas dimensionadas para suportar grandes volumes de água e sedimentos. É importante aguardar os relatórios consolidados tanto da ANM, quanto do CREA-MG, para se ter certeza do que realmente pode ter ocorrido. Mas é muito importante que os empreendimentos comecem implementar tecnologias de segurança e controle ambiental que levem em consideração as consequências das mudanças climáticas, que estão resultando em eventos extremos cada vez mais frequentes”, comenta.
“Para que esse tipo de situação possa ser evitada ou devidamente fiscalizada, é preciso que a Agência Nacional de Mineração (ANM) seja fortalecida. Em 2025, somente com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais - CFEM, o país arrecadou 7.9 bilhões. Apesar disso, conforme dados do Portal de Dados Abertos do Governo Federal, em novembro de 2025, a ANM possui 60% das vagas criadas em lei desocupadas. Esse cenário dificulta a fiscalização adequada, e consequentemente aumenta o risco de acidentes. É preciso mudar essa realidade”, considera o presidente da Febrageo, geol. Caiubi Kuhn.
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
