Brasília, 28 de agosto de 2026.
Danos ao corpo e ao mar. Assim se resumem os prejuízos atribuídos aos microplásticos e nanoplásticos, conforme pesquisas realizadas nas últimas duas décadas. Embora os estudos para estabelecer uma relação direta ainda sejam insuficientes, diversas seriam as causas e as formas associadas a agravos à saúde e ao meio ambiente, provocados por estes agentes poluidores presentes em quase tudo ao nosso redor. Não apenas em suas dimensões: entre 0,001 milímetros (1 micrômetro) e cinco milímetros, para os microplásticos, e entre 1 e 1000 nanômetros, ou seja, menores que 1 micrômetro, no caso dos nanoplásticos.
| Referência | Micrômetros |
| Microplásticos (limite superior) | 5.000 |
| Diâmetro do cabelo humano | 80 |
| Grão de areia | 90 |
| Grão de sal | 60 |
| Partícula de poeira | 2,5 |
| Microplásticos (limite inferior) | 1 |
| Nanoplásticos | <1 |
| Coronavírus | 0,1 a 0,5 |
Abordado por uma programação especial durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho do ano passado, na Universidade Federal Fluminense (UFF), o tema ganhará agora uma discussão igualmente multidisciplinar na Universidade Estadual de Campinas, de 1º a 11 de setembro. É a Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) em Microplásticos, com palestras, aulas teóricas e práticas, apresentações de trabalhos de pesquisas e tutoriais de especialistas de diversas partes do mundo.
Constituída como uma rede que dissemina as pesquisas da área, a ESPCA se originou de um projeto de pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), financiadora do evento organizado pela Unicamp e pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E que abrangia também a dispersão e os danos dos agrotóxicos em diversos ambientes.
No evento, reunindo jovens pesquisadores e veteranos, uma programação que abrange quatro perspectivas para o tratamento ao tema: “Dentro do microplástico: lidando com polímeros e químicos adicionados aos plásticos ou derivados”; “Por cima do microplástico: explorando o que acontece em sua superfície”; “Ao redor do microplástico: discutindo a dinâmica das interações do microplástico com os diversos meios onde eles se fazem presentes” e “Estrutura regulatória: o debate público e a as ações viáveis que se desdobram da ciência baseada em evidência rumo a uma política regulatória”.

“A Escola se reúne nesses encontros, e ela começou a apresentar seus primeiros resultados em 2010, e esta é a primeira vez, e provavelmente será a única, em que falaremos sobre os microplásticos. Não é possível repetir temas. E teremos uma participação que estamos na dúvida se é a maior de todas as Escolas com 1100 inscritos e 100 participantes, sendo metade do Brasil e 50 participantes do mundo”, comenta o vice-cordenador da Escola, quim. tecnol. Walter Waldman. Confira a seguir uma conversa com ele.
Mas o grande provocador pelo interesse no tema é o biólogo marinho britânico Richard Thompson, responsável, em 2004, pela definição do termo “microplástico” e pela descrição de seu fluxo até a cadeia alimentar humana. Professor da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, ele será entrevistado junto a lideranças da Escola, no próximo dia 4.

“Desde a primeira descrição, temos demonstrado que os microplásticos literalmente contaminam o nosso planeta. Eles estão no ar que respiramos, na água que bebemos e na comida que comemos”, apontou ao Jornal da Unicamp.
- Entrevista quim. tecnol. Walter Waldman
Confea - O próprio criador do termo “microplástico”, Richard Thompson, irá participar do evento. O senhor pode citar algumas boas e más notícias que serão levadas ao evento?
Quim. tecnol. Walter Waldman - Acho que a gente pode trazer de boa notícia a discussão de uma regulação do plástico baseada em evidências. É uma boa prática que vamos defender, que o que decidamos como política regulatória seja baseado em evidências. Parece uma obviedade, mas na discussão do Tratado Global contra a Poluição Plástica, muitos consideram que a ciência foi subconsiderada ou desconsiderada. A má notícia é que as coisas continuem como estão. Se a Escola não gerar um efeito, essa será uma má notícia. Ações internacionais para discutir o tema devem ser consideradas para garantir a representatividade mundial. A própria escola foi criada nesse contexto para discutir temas como a poluição plástica como um todo, a sua face mais pervasiva, que é o microplástico.

Professor Walter Waldman, vice-coordenador da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos, que começa nesta terça-feira (1º/9), na Unicamp
Confea - Como é para um cientista chegar a esse nível de ter que esclarecer, no século XXI, sobre partículas microscópicas, quase invisíveis?
Quim. tecnol. Walter Waldman - Discordo um pouco se considerarmos que a poluição plástica é visível e que sua discussão avançou bastante rápido. A mudança climática é mais invisível e muitos questionam, apesar do número incrível de evidências. A poluição plástica, é inquestionável porque a gente vê, o plástico jogado no chão está em plena vista. E chegamos à implementação das discussões para um Tratado Global contra a Poluição Plástica. Quanto tempo levou para o clima chegar numa coisa dessas? Fomos rápidos para colocar o assunto na mesa, mas achar uma solução está demorando mais do que devia.
Confea - A reciclagem do plástico é viável?
Quim. tecnol. Walter Waldman - Meu posicionamento é que é um recurso valioso, mas ele jamais será o único recurso para combater a poluição plástica. Não existe combate à poluição plástica sem a reciclagem. É uma ação valiosa, mas não chega em números necessários para ser considerada a solução ideal. A reciclagem é uma ação com limites claros. Historicamente, 9% dos plásticos são reciclados.
Confea - Qual a importância da participação dos profissionais das Engenharias no evento?
Quim. tecnol. Walter Waldman - A interdisciplinaridade é fundamental. A Escola abraça a interdisciplinaridade. O problema do plástico é multidisciplinar, com múltiplas expertises, assim como há muitas demandas. A Escola é uma formação para resolver problemas multifacetados. As abordagens das engenharias são fundamentais. Para o encontro do SLAP (XIX Latin American Symposium on Polymers), em outubro, em Salvador, vai haver uma keynote de um biólogo que trabalha com o impacto da poluição plástica nos oceanos. Isso mostra o interesse interdisciplinar das áreas preocupadas pelo tema.A engenharia é fundamental para o desenvolvimento de soluções para a crise da poluição plástica. Precisamos de peças plásticas planejadas para serem menos suscetíveis à liberação de microplásticos e para que os produtos que liberem microplásticos “inescapáveis”, como os têxteis e pneus, tenham formulações menos tóxicas. A produção de formulações e produtos biodegradáveis é também uma necessidade que, sem o engajamento da pesquisa em engenharia, dificilmente será desenvolvida.
Confea - As nanotecnologias representam uma forma de ampliar o desempenho e também a sustentabilidade dos polímeros. Elas serão tratadas no evento?
Quim. tecnol. Walter Waldman - Nosso foco será no contaminante micro e nanoplástico. As nanotecnologias para preparo de materiais ambientalmente amigáveis são necessárias, mas não serão abordadas na escola, o foco da escola gira em torno do impacto ambiental e o entendimento do impacto dos microplásticos e do que se pode fazer sobre a regulação dos plásticos para evitar o microplástico e a poluição.
Polímeros universais
Do uso de embalagens na preparação de alimentos, responsáveis pela liberação dos chamados “disruptores endócrinos”, ao descarte inadequado, que chega a poluir desertos e oceanos. Nem mesmo os eventos extremos poupam esses resíduos, fragmentados pelo calor, dispersados pelos vendavais e pelas enchentes e impactando vários ecossistemas. Diversidade que tem motivado políticas e pesquisas ligadas à substituição das matrizes poliméricas. E que motiva essa série de reportagens, intitulada “Caminhos invisíveis: da Escola às nanotecnologias”.
Engenheiros químicos, de produção e de materiais e também químicos, sobretudo, descrevem o Poliestireno (PS), o Policloreto de Vinila (PVC), o Polietileno (PE) e o Polipropileno (PP) como alguns dos polímeros mais encontrados no meio ambiente, fugindo da gestão de resíduos. Pela ordem, eles estão presentes: nos copos descartáveis e embalagens (PS); nos “tubos e revestimentos” (PVC) e nas sacolas, embalagens e tampas (PE e PP).
Mas, além de descrever, estes profissionais já lidam com expectativas para introduzir novos nanomateriais capazes de reverter tanto o cenário mais evidente como os mais ocultos na cadeia permissiva. Assim, a nanotecnologia em plásticos busca superar o desempenho e reduzir os danos desses materiais. As resistências mecânica e térmica são reforçadas por aditivos nanométricos para plásticos. Nanotubos de carbono (NTCs) e grafenos reforçam a mecânica e a condutividade elétrica e térmica, por exemplo.

Desafio científico
Na SBPC, a presidente Francilene Procópio Garcia publicou o artigo “A ciência e o desafio dos microplásticos”, argumentando pela presença do material em corpos e ambientes. “Em um mundo que produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano, compreender o destino desse material tornou-se uma questão científica, ambiental e de saúde pública.

Compreender a origem, o comportamento e os impactos dos micro e nanoplásticos exige a integração de pesquisas em química, biologia, oceanografia, toxicologia, medicina, engenharia, ciência dos materiais, saúde pública e ciências ambientais. Essa complexidade decorre não apenas da diversidade de polímeros existentes, mas também da capacidade dessas partículas de transportar outros contaminantes, interagir com microrganismos e percorrer diferentes ecossistemas até alcançar organismos vivos”.
Já o professor titular do departamento de Tecnologia Farmacêutica da UFF, Vitor Francisco Ferreira, apresentou a conferência “Microplásticos e Nanoplásticos na Saúde e Doenças Humanas”. Em entrevista prévia ao Jornal da Ciência, da SBPC, ele reforçou os riscos associados ao uso involuntário deste material, presente em todo o mundo, conforme Richard Thompson afirmara.
“Os resíduos plásticos sofrem degradação pela ação da luz solar, das ondas e do atrito entre os próprios fragmentos, quebrando-se em partículas cada vez menores até atingirem a escala nanométrica. Essas partículas entram na cadeia alimentar por meio da água, dos peixes e dos animais que ingerem água contaminada. Eles acabam chegando aos organismos das plantas, dos animais e também dos seres humanos”, apontou o químico brasileiro. “Hoje, todas as pessoas já estão contaminadas por plástico. Estima-se que cada pessoa consuma entre 39 mil e 52 mil partículas de microplástico por ano, o que representa uma ameaça significativa aos ecossistemas e aos seres vivos”.
Ao ponderar os pilares do método científico, Francilene Garcia cobra responsabilidade, sobretudo para considerar a intervenção da saúde humana. Mas afirma a importância de buscar soluções para “os impactos de um modelo de produção e consumo baseado no uso intensivo de materiais plásticos descartáveis”, evocando uma série de instrumentos proporcionados pelas atividades do Sistema Confea/Crea: “inovações tecnológicas, desenvolvimento de novos materiais, aprimoramento da gestão de resíduos”. Além do “fortalecimento da econômica circular e de políticas públicas fundamentadas nas melhores evidências científicas disponíveis”.
Diante da circularidade abrangida pelas atividades ligadas à Engenharia, à Agronomia e às Geociências, expressas pelo Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), precisamos repercutir um pouco mais a cientista da computação com doutorado em Engenharia Elétrica que está à frente da SBPC.
“Mais do que um problema ambiental, os microplásticos passaram a integrar uma agenda estratégica para o desenvolvimento. Seus impactos dialogam com a saúde pública, a segurança alimentar, a gestão dos recursos hídricos, a inovação industrial, a economia circular e a formulação de políticas públicas. São questões que extrapolam os laboratórios e exigem conhecimento científico para orientar decisões capazes de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida”.
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
