Brasília, 31 de agosto de 2026.
Transformar resíduos orgânicos em eletricidade, combustível veicular e fertilizantes é a proposta da Usina de Bioenergia e Biofertilizantes, da Universidade de São Paulo (USP). Inaugurada em julho pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), a tecnologia reúne diferentes áreas do conhecimento para dar novo destino ao material que seria enviado a aterros sanitários e tem potencial para ser replicada em todo o Brasil.

Esse modelo inovador de gestão sustentável de resíduos urbanos tem sido considerado um marco tecnológico porque ao mesmo tempo em que reduz o descarte do material orgânico em aterros sanitários também diminui a geração de gases de efeito estufa, o que colabora para minimizar as mudanças climáticas, como detalha o coordenador do projeto, o engenheiro civil Ildo Luís Sauer. “A USP é um laboratório que produz soluções concretas para os desafios da sociedade. Esse projeto integra conhecimentos da área da química, da biologia, das engenharias e da construção de modelos econômicos para criar uma solução viável para ser replicada nas cidades de todo o Brasil, criando oportunidades na cadeira produtiva.”

A usina tem potencial para processar até 25 toneladas de resíduos orgânicos diariamente. A cada tonelada processada, são produzidos cerca de 800 litros de digestato, com aproximadamente 12 kg de fertilizantes recuperados e 120 metros cúbicos de biogás. Esse biogás pode gerar de 160 a 200 kWh de eletricidade — o equivalente ao consumo mensal de uma casa com cinco moradores — ou de 100 a 120 metros cúbicos de biometano, que pode substituir o consumo de 100 a 120 litros de gasolina em veículos.

Baseado em economia circular, o projeto tem a vantagem de transformar lixo orgânico em receita. “Os resíduos são considerados um problema. A USP, por exemplo, gasta cerca de R$ 500 por tonelada de resíduos que são levados aos aterros sanitários. A conversão dos resíduos orgânicos na usina permite não só economizar esse valor, porque os resíduos deixam de ir para o aterro, como também geram receita, com a produção de energia elétrica e gás metano para abastecer parte da frota veicular”, explica o pesquisador (foto ao lado).
Modelo de reaproveitamento para outras cidades
A tecnologia desenvolvida pela USP pode ser utilizada por prefeituras, regiões metropolitanas e grandes geradores de resíduos do setor de alimentos, como indústrias, centrais de abastecimento e restaurantes. Embora tenha sido projetada principalmente para o processamento de resíduos alimentares, a planta também pode receber resíduos orgânicos provenientes da agroindústria e de outras fontes.
Segundo os pesquisadores, 300 usinas como esta seriam suficientes para tratar resíduos orgânicos domésticos produzidos na cidade de São Paulo e 600 unidades atenderiam a demanda do estado. Já em escala nacional, 3 mil usinas bastariam.

A regulamentação é um dos principais desafios para a expansão da tecnologia. A unidade do IEE foi a primeira desse tipo a receber licenciamento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A usina também foi registrada no Ministério da Agricultura e Pecuária como produtora de material secundário e atende às normas da SP Regula, agência responsável pela regulação dos serviços públicos municipais em São Paulo, incluindo a gestão e a fiscalização da coleta domiciliar de resíduos.
Edição: Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea, com informações do Jornal da USP
Fotos: Marcos Santos/USP Imagens
