Brasília, 1º de setembro de 2026
O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, deixou de ser uma promessa mineral e passou a responder por praticamente toda a produção nacional de lítio. O avanço, puxado pela demanda global por baterias, coloca o país diante de uma escolha estratégica: seguir exportando o concentrado extraído das minas ou desenvolver as etapas de processamento que agregam mais valor à cadeia.

Quem descreve o cenário é o engenheiro geólogo Danilo Costa Monteiro, coordenador das Câmaras Especializadas de Geologia e Engenharia de Minas (CCEGEM), do Sistema Confea/Crea. Segundo ele, a região "deixou de ser uma área com potencial para se tornar, de fato, uma das principais áreas produtoras de lítio do Brasil", com salto de escala concentrado nos municípios de Araçuaí e Itinga.
Em resumo
- O Vale do Jequitinhonha concentra praticamente toda a produção brasileira de concentrado de lítio (espodumênio);
- Em 2024, a produção nacional chegou a cerca de 944 mil toneladas de concentrado;
- O Governo de Minas Gerais estima investimentos de aproximadamente R$ 6,3 bilhões relacionados ao Programa Vale do Lítio, lançado em 2023;
- Para o coordenador da CCEGEM, o Brasil tem engenharia para avançar na cadeia, mas falta transformar essa competência em indústria integrada;
- O maior gargalo apontado é a formação de mão de obra especializada na mesma velocidade do crescimento da mineração.

Da rocha ao concentrado
Monteiro faz questão de corrigir uma percepção comum sobre a cadeia brasileira do lítio: a de que o país apenas extrai a rocha e a exporta bruta. "Já existe uma etapa de beneficiamento, com produção de concentrado de espodumênio, e Minas Gerais hoje concentra praticamente toda a produção brasileira nessa cadeia", afirma. Em 2024, essa produção somou cerca de 944 mil toneladas, crescimento expressivo sobre o ano anterior.
O desafio, segundo ele, está adiante: "transformar esse avanço da mineração em uma cadeia produtiva mais completa", com etapas de processamento químico que retenham mais valor dentro do país.
Esse ponto conecta a experiência mineira a um gargalo descrito em reportagem recente da revista americana Quartz sobre a cadeia global do lítio. Segundo a publicação, as baterias baratas que hoje sustentam parte da transição energética dependem de minerais como lítio, níquel e cobalto, cuja extração leva anos, e as minas do mundo não têm acompanhado o ritmo da demanda. O caso brasileiro mostra uma face distinta desse gargalo: não é a falta de minério, é a falta de etapas seguintes na cadeia.

Engenharia não é o gargalo
Questionado se o país tem capacidade técnica para avançar além da extração, Monteiro é direto: "Do ponto de vista de conhecimento técnico, eu acredito que sim. O Brasil tem engenharia, geologia, mineração, metalurgia, química e capacidade industrial suficientes para avançar bastante nessa cadeia. Nós não estamos começando do zero".
O problema, para ele, é outro. "O que falta, na minha avaliação, é transformar essa competência técnica em uma cadeia industrial integrada e competitiva", diz. Isso envolve investimento em escala maior, domínio tecnológico, mercado consolidado e, sobretudo, uma estratégia pensada para décadas, não para um ciclo de preços da commodity.
Monteiro também pondera que nacionalizar toda a cadeia não é necessariamente a meta certa. "Não necessariamente precisamos fazer absolutamente todas as etapas da cadeia no Brasil. Mas precisamos decidir quais etapas fazem sentido econômico e estratégico para o país", afirma.
Mão de obra não acompanha o ritmo
Entre os riscos do crescimento acelerado, o coordenador aponta a formação de profissionais como o ponto mais sensível. "Quando uma atividade mineral cresce rapidamente em uma região, a demanda por profissionais especializados cresce muito mais rápido do que a capacidade local de formação", diz.
A lista de perfis necessários é longa: geólogos, engenheiros de minas, engenheiros geólogos, profissionais de geofísica, metalurgistas, engenheiros químicos, além de equipes de meio ambiente, segurança, automação, manutenção e planejamento de mina. Para Monteiro, o caminho passa por aproximar empresas de universidades e instituições de formação profissional, para que a própria região do Jequitinhonha forme seus quadros, em vez de depender de profissionais vindos de fora. "Esse é um dos pontos que pode fazer a diferença entre simplesmente ter uma atividade mineradora instalada e realmente criar um polo de desenvolvimento mineral e tecnológico", afirma.

Investimento bilionário, mas falta estratégia de décadas
O ritmo de expansão da mineração também pressiona a infraestrutura da região, da malha viária à energia, logística, saúde e educação. "A atividade mineral cresceu em uma velocidade muito grande, e a infraestrutura regional precisa acompanhar esse crescimento", diz Monteiro, para quem o ideal seria planejar infraestrutura e expansão mineral de forma conjunta, o que reduziria custos e deixaria um legado maior para a região.
O Governo de Minas Gerais lançou em 2023 o Programa Vale do Lítio, com ações voltadas a infraestrutura, educação, qualificação profissional, tecnologia e desenvolvimento regional. Segundo dados citados por Monteiro, o programa envolve investimentos de aproximadamente R$ 6,3 bilhões e milhares de empregos gerados na região.
Ainda assim, o coordenador separa dois planos distintos: um programa de desenvolvimento regional e uma estratégia de longo prazo para toda a cadeia do lítio, da pesquisa mineral até os produtos de maior valor agregado. "A demanda internacional certamente foi um dos grandes motores desse crescimento. E isso não é necessariamente um problema. O problema seria o Brasil simplesmente responder à demanda externa sem aproveitar essa janela de oportunidade para construir capacidade tecnológica e industrial própria", afirma.
Competência existe, falta virar indústria
Ao fim da entrevista, Monteiro resume o argumento que perpassa toda a conversa: "Temos uma janela de oportunidade muito grande. O Brasil possui recursos minerais importantes e uma engenharia capaz de desenvolver soluções. O que precisamos é aproveitar esse momento para construir uma cadeia produtiva que agregue cada vez mais valor ao lítio produzido aqui, em vez de simplesmente atender à demanda externa por matéria-prima".
Na síntese do coordenador da CCEGEM: "o Brasil tem competência; o desafio é transformar competência em indústria e valor agregado".
Beatriz Craveiro
Equipe de Comunicação do Confea
Foto 1: Agência Pública
Foto 2: Lucas Aguayo Araos / Anadolu Agency via Getty Images / Quartz
Foto 3: Acervo Confea
Foto 4: Washington Alves / Reuters / Folha de S. Paulo
