OTIC recebe sede e laboratórios para a transição energética offshore

Brasília, 12 de maio de 2026.

A inauguração da sede administrativa e de quatro novos laboratórios do Centro de Inovação em Tecnologia para Alto-Mar (OTIC, na sigla em inglês para Offshore Technology Innovation Centre), em 15 de abril último, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) contempla uma prática multidisciplinar, mantida há anos pela entidade, agora em um contexto de transição energética premente.
 
“O OTIC foi estruturado como um portfólio integrado de projetos alinhados a desafios estratégicos da transformação offshore diante da transição energética”, comenta o engenheiro naval e oceânico Gustavo Assi, professor titular de Transição Energética e diretor-executivo do empreendimento. A inauguração contou com as presenças do reitor Aluísio Segurado e da diretora da Poli-USP, a eng. eletric. Anna Reali, apenas a segunda mulher a liderar a entidade, em 133 anos.
 

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi, durante a inauguração da sede e dos novos laboratórios do Centro de Inovação em Tecnologia para Alto-Mar, da Poli-USP, em abril último
Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi, durante a inauguração da sede e dos novos laboratórios do Centro de Inovação em Tecnologia para Alto-Mar, da Poli-USP, em abril último


As tecnologias para a transição energética – (a serem) desenvolvidas pela parceria entre a USP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a Shell e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), lançada em 2024 – terão a sustentabilidade como eixo transversal comum. A nova estrutura “se apoia em grandes infraestruturas experimentais já existentes na USP e no IPT, como canais hidrodinâmicos, laboratórios de materiais, simulação numérica, automação e testes offshore”, constituindo “uma rede integrada de laboratórios e infraestrutura multiusuária”. 

Além disso, “os cinco programas do centro são altamente interdependentes”, diz, referindo-se aos programas técnicos que estruturam o OTIC: Novos processos e operações Transformação digital; Potência de baixo carbono; Materiais inovadores e novas tecnologias e Saúde, segurança e meio ambiente & Economia Circular.

Em seu portfólio, o OTIC contempla sistemas offshore para captura e armazenamento de carbono, digital twins para operações offshore, materiais multifuncionais e anticorrosivos, sistemas de monitoramento inteligente, produção e transporte de hidrogênio, operações remotas, integração energética offshore e avaliação de percepção pública da tecnologia. “Também há projetos ligados à segurança operacional, risco em sistemas offshore, automação e inteligência artificial aplicada ao ambiente oceânico. Um aspecto importante é que buscamos equilibrar projetos de maturidade tecnológica mais próxima do mercado com projetos mais exploratórios e de longo prazo”.

Na entrevista a seguir, Gustavo Assi também fala sobre projetos a serem desenvolvidos com outros núcleos da Poli-USP, como o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), além da necessidade de parcerias com órgãos regulatórios e com projetos que possam vir de outros estados, como a indústria de hidrogênio verde, prevista para o estado do Ceará. “A parceria entre universidade, indústria, institutos tecnológicos e agências de fomento cria justamente um ambiente mais robusto e sustentável para a inovação. A universidade mantém sua capacidade crítica e científica, enquanto a indústria ajuda a direcionar problemas reais e acelerar a aplicação das soluções desenvolvidas”.

Inauguração contou com a presença do reitor Aluísio Segurado e da diretora da Poli-USP, eng. eletric. Anna Reali
Inauguração contou com a presença do reitor Aluísio Segurado e da diretora da Poli-USP, eng. eletric. Anna Reali


Confea - Qual a importância desse modelo de convênios da Poli com o IPT, a Shell e a Fapesp para o sucesso do Centro de Inovação em Tecnologia para Alto-Mar (OTIC)? Essa parceria se dá desde a escolha dos projetos?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - O OTIC nasce justamente da percepção de que os grandes desafios tecnológicos da transição energética offshore não podem mais ser resolvidos de forma isolada. São problemas complexos, caros, multidisciplinares e de longo prazo. Por isso, o modelo de parceria entre universidade, instituto de pesquisa, indústria e agência de fomento é absolutamente central para o sucesso do centro.

Eng. nav. A Poli-USP entra com sua capacidade acadêmica, formação de recursos humanos e pesquisa científica. O IPT traz uma enorme experiência em desenvolvimento tecnológico, validação experimental e aproximação com demandas industriais. A Shell participa como parceira estratégica industrial, ajudando a identificar desafios reais do setor offshore. E a Fapesp viabiliza um modelo robusto de financiamento de longo prazo, essencial para projetos tecnológicos ambiciosos.

Sim, essa integração acontece desde a concepção dos projetos. O OTIC não foi estruturado como um conjunto de pesquisas desconectadas, mas como um portfólio integrado de projetos alinhados a desafios estratégicos da transformação offshore diante da transição energética.

Confea - Quais são as principais áreas a serem exploradas pelo OTIC, além daquelas relacionadas à exploração de petróleo? E qual o peso da sustentabilidade nesse conjunto?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Na verdade, o OTIC não foi criado para pensar apenas petróleo e gás. Ele foi criado para pensar o futuro do offshore diante da transição energética. Isso inclui desde a transformação das operações tradicionais até o desenvolvimento de novas cadeias energéticas e tecnológicas ligadas ao oceano.

Hoje temos projetos em áreas como captura e armazenamento de carbono, hidrogênio, eletrificação offshore, digitalização, inteligência artificial, materiais avançados, segurança operacional, monitoramento ambiental, sistemas submarinos inteligentes, operações remotas e energias renováveis oceânicas.

A sustentabilidade não aparece como um tema isolado. Ela é um eixo transversal do centro inteiro. O grande objetivo é desenvolver tecnologias que permitam produzir mais energia, com menor impacto ambiental, maior segurança e maior eficiência operacional.


Confea - Recentemente, tivemos o escândalo da distribuição de etanol falsificado, em alguns estados do país. O OTIC pode contribuir de alguma forma para a fiscalização e o aperfeiçoamento desta distribuição?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - O foco principal do OTIC não é a cadeia de distribuição de combustíveis terrestres, mas algumas competências desenvolvidas no centro podem sim contribuir indiretamente para temas relacionados à rastreabilidade, monitoramento e segurança operacional.

Por exemplo, temos projetos ligados a sensores, digitalização, big data, inteligência artificial e sistemas de monitoramento em tempo real. Essas tecnologias podem ser aplicadas em diferentes cadeias energéticas para melhorar rastreabilidade, controle de qualidade e segurança logística.

Mas o principal foco do OTIC permanece sendo o desenvolvimento tecnológico ligado ao ambiente offshore e à transição energética no oceano.

Confea - Serão 250 pesquisadores distribuídos em quatro laboratórios. Quais os objetivos desses laboratórios e quais são as principais estruturas do Centro de Inovação?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Os cerca de 250 pesquisadores do OTIC estão distribuídos em 21 projetos atuais de P&D e não apenas nos quatro laboratórios inaugurados recentemente. O centro conta com diversos outros grupos de pesquisa associados.

Confea - O OTIC foi concebido como uma rede integrada de laboratórios e infraestrutura multiusuária. Mais do que espaços físicos isolados, queremos criar ambientes colaborativos de pesquisa, simulação, experimentação e desenvolvimento tecnológico.

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Entre os laboratórios associados estão o recém inaugurados: COSMOS, voltado à simulação e operações offshore; o NAVE Lab, ligado à realidade virtual, aumentada e operações imersivas; o SPOT Lab, voltado à percepção social da tecnologia; e o DOL, o Digital Ocean Laboratory, focado em dados, monitoramento e sistemas digitais aplicados ao oceano.

Além disso, o centro se apoia em grandes infraestruturas experimentais já existentes na USP e no IPT, como canais hidrodinâmicos, laboratórios de materiais, simulação numérica, automação e testes offshore.

Parte do público presente à inauguração dos novos espaços da Poli-USP
Parte do público presente à inauguração dos novos espaços da Poli-USP

Confea - Como se dará a sua prática cotidiana transdisciplinar nos cinco programas estipulados? Há um organograma diferenciado?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Sim. O OTIC foi estruturado justamente para evitar o modelo tradicional excessivamente compartimentalizado. Os cinco programas do centro são altamente interdependentes.

Na prática, muitos projetos atravessam simultaneamente mais de um programa. Um projeto de hidrogênio offshore, por exemplo, envolve materiais, digitalização, segurança operacional, novos processos e sustentabilidade ambiental ao mesmo tempo.

Por isso, trabalhamos com forte integração horizontal entre pesquisadores, laboratórios e programas. O objetivo é criar um ambiente mais próximo dos problemas reais da engenharia contemporânea, que raramente cabem dentro de uma única disciplina.

Confea - Quais são os principais projetos previstos inicialmente?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Temos um portfólio bastante amplo. Alguns exemplos incluem sistemas offshore para captura e armazenamento de carbono, digital twins para operações offshore, materiais multifuncionais e anticorrosivos, sistemas de monitoramento inteligente, produção e transporte de hidrogênio, operações remotas, integração energética offshore e avaliação de percepção pública da tecnologia.

Também há projetos ligados à segurança operacional, risco em sistemas offshore, automação e inteligência artificial aplicada ao ambiente oceânico.

Um aspecto importante é que buscamos equilibrar projetos de maturidade tecnológica mais próxima do mercado com projetos mais exploratórios e de longo prazo.

Confea - O Centro traz uma visão inédita no país? A pesquisa para a indústria offshore era totalmente desagregada, embora a maior parte da produção dessa fonte de energia venha desse cenário?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - O Brasil já possui grupos extremamente competentes em offshore. O que muitas vezes faltava era um grande ambiente integrador, capaz de conectar diferentes competências dentro de uma visão estratégica comum de futuro.

O diferencial do OTIC está justamente nessa integração sistêmica. Não pensamos apenas equipamentos isolados ou problemas específicos, mas o ecossistema offshore como um todo diante da transição energética.
Além disso, o centro traz uma visão mais ampla do offshore, indo além da lógica tradicional de óleo e gás e incorporando temas como baixo carbono, digitalização, sustentabilidade, automação e novas cadeias energéticas.

Confea - Em entrevista à USP, o senhor apontou que o lema de vocês é “Criando o offshore do amanhã”, por considerar a necessidade do desenvolvimento daquilo que ainda não existe, o que é o “objetivo primordial da engenharia”. Fale da importância desse olhar da engenharia para o desenvolvimento de um equipamento como este, inclusive para o planejamento de ações em sinergia com outras instituições.

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - A engenharia tem um papel muito particular: ela não trabalha apenas com o que existe, mas com aquilo que ainda precisa ser criado. Em muitos casos, as soluções necessárias para os desafios energéticos das próximas décadas ainda não estão prontas.

Quando falamos em “criar o offshore do amanhã”, estamos falando justamente de desenvolver tecnologias, sistemas e modelos operacionais que permitam um offshore mais seguro, eficiente, automatizado e sustentável.
Isso exige planejamento de longo prazo, integração institucional e capacidade de inovação contínua. Nenhuma instituição isoladamente conseguirá construir esse futuro.

Entre os objetivos apontados, falou-se da articulação interinstitucional para definir políticas do setor. Haverá a participação de entidades relacionadas à gestão de riscos e ainda da própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE)? 

Confea - Poderão ser feitas parcerias com projetos em desenvolvimento em outros estados, como o hub de data centers e a usina de dessalinização que estão em implantação em Fortaleza e ainda o projeto para a produção de hidrogênio verde a partir de água de reuso, no Porto do Pecém, no mesmo estado?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Sem dúvida. A transição energética offshore exige articulação nacional e internacional. O OTIC busca dialogar com diferentes instituições públicas, empresas, centros de pesquisa e iniciativas estratégicas do país.

Existe grande interesse em cooperação com projetos ligados a hidrogênio, portos inteligentes, digitalização, captura de carbono, energias renováveis e infraestrutura costeira. O Brasil possui iniciativas muito relevantes surgindo em diferentes estados, e faz todo sentido criar sinergias entre elas.

Além disso, o desenvolvimento tecnológico offshore depende fortemente de diálogo com órgãos regulatórios, planejamento energético e gestão de riscos. Portanto, a interação com diferentes atores do setor energético é algo natural e necessário.
 

Confea - Qual a importância do OTIC no contexto da Poli-USP e quais as principais metas deste novo equipamento?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - O OTIC representa um passo muito importante na consolidação da Poli-USP como um dos grandes polos de pesquisa e inovação em energia offshore e transição energética no Brasil. Mais do que um novo centro, ele materializa uma visão estratégica de futuro para a engenharia brasileira.

A Escola Politécnica sempre teve forte tradição em infraestrutura, energia, indústria e desenvolvimento tecnológico. O OTIC amplia essa vocação ao criar um ambiente integrado voltado aos grandes desafios do offshore do século XXI, especialmente aqueles ligados à descarbonização, digitalização e sustentabilidade.

As principais metas do centro envolvem o desenvolvimento de tecnologias para o offshore de baixo carbono, formação de recursos humanos altamente qualificados, fortalecimento da capacidade experimental e computacional da universidade e criação de um ecossistema de inovação conectado à indústria e à sociedade.

Também buscamos posicionar o Brasil não apenas como usuário, mas como desenvolvedor de tecnologias estratégicas para o ambiente offshore.

Confea - Além do OTIC e do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), há outros núcleos da Poli voltados para a pesquisa de novas fontes de energia? Esse tema e outros relacionados à sustentabilidade são indissociáveis da atuação da Poli atualmente?

Diretor-executivo Gustavo Assi: parcerias levado a Poli-USP em direção ao futuro da engenharia brasileira
Diretor-executivo Gustavo Assi: parcerias levado a Poli-USP em direção ao futuro da engenharia brasileira



Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Sem dúvida. A Poli possui hoje uma enorme diversidade de grupos, centros e laboratórios atuando em temas relacionados à energia, sustentabilidade e transição energética. Isso inclui pesquisas em eletrificação, hidrogênio, mobilidade sustentável, eficiência energética, materiais avançados, captura de carbono, sistemas digitais, inteligência artificial aplicada à energia e energias renováveis.

O próprio RCGI é um excelente exemplo da capacidade da universidade de integrar múltiplas áreas do conhecimento em torno de desafios energéticos complexos. O OTIC surge dialogando fortemente com esse ecossistema já existente.

A sustentabilidade deixou de ser um tema periférico na engenharia. Hoje ela é parte estrutural da forma como pensamos infraestrutura, energia, cidades, indústria e tecnologia. Isso não significa abandonar desenvolvimento econômico ou industrial, mas repensá-los dentro de uma lógica de maior eficiência, responsabilidade ambiental e impacto social positivo.

Confea - OTIC e RCGI são viabilizados em consórcios com a Fapesp e a Shell, entre outras entidades como o IPT e a ANP. Essa solução de parcerias se mostra realmente efetiva para a continuidade das atividades da Poli? Há experiências de outras universidades que possam ser adotadas?

Diretor-executivo do OTIC, eng. naval ocean. Gustavo Assi - Esse modelo é extremamente importante porque os desafios tecnológicos atuais são grandes demais para serem enfrentados por instituições isoladas. Projetos ligados à transição energética exigem infraestrutura sofisticada, pesquisa multidisciplinar, visão de longo prazo e interação constante entre ciência e aplicação prática.

A parceria entre universidade, indústria, institutos tecnológicos e agências de fomento cria justamente um ambiente mais robusto e sustentável para inovação. A universidade mantém sua capacidade crítica e científica, enquanto a indústria ajuda a direcionar problemas reais e acelerar a aplicação das soluções desenvolvidas.

Além disso, modelos semelhantes existem em grandes universidades e centros internacionais. Podemos citar experiências como os ecossistemas de inovação ligados ao MIT, Stanford, Texas A&M, Imperial College e diversos centros europeus voltados à energia e offshore, onde existe forte integração entre academia, governo e setor produtivo.

O diferencial não é apenas o financiamento. É a criação de ambientes permanentes de cooperação tecnológica e formação de talentos.

No caso do Brasil, isso é particularmente relevante porque precisamos acelerar nossa capacidade de inovação em áreas estratégicas da transição energética sem depender exclusivamente de tecnologias importadas.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea

Fotos: Assessoria de Comunicação da USP