Confea amplia uso estratégico de dados para superar fragilidades sociais

Brasília, 6 de novembro de 2026.


Oito entre as cerca de 350 formações/títulos dominam 80% dos registros profissionais nas áreas tecnológicas do país, aponta o conselheiro federal e coordenador da Comissão de Educação e Atribuição Profissional (Ceap), eng. civ. Osmar Barros Júnior. Entre 2010 e 2024, as matrículas na área tecnológica do país reduziram 56%, comprometendo a infraestrutura nacional, segundo o presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese.  Além de discutir esses dados, é importante salientar a linha inovadora com que o Confea vem atuando para contribuir com a gestão do Sistema, em uma perspectiva de futuro. 

Por meio dela, dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep) sobre a formação no país estão sendo cotejados com o registro de profissionais junto ao Sistema de Informação Confea/Crea. Essas novas aplicações poderão contribuir para mapear diagnósticos e também para corroborar com o enfrentamento de gargalos históricos, como a dificuldade com a aprendizagem de Matemática, entre outras disciplinas. 

 

Confea amplia uso estratégico de dados para superar fragilidades sociais
Painel de Acompanhamento de Profissionais: ferramenta interna reúne dados nacionais, regionais e estaduais sobre a formação e o registro de profissionais do Sistema



“Apesar de os dados que sistematizamos no nosso Painel de Acompanhamento de Profissionais não apontarem diretamente para essa dificuldade histórica com a Matemática, podemos considerar que essa tendência, já registrada também pelo Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), pode ser um dos fatores para afastar os estudantes”, diz o assessor da presidência do Confea, Alexandre Borsato, referindo-se também à pesquisa desenvolvida pelo Instituto Quaest, conhecida como Censo Confea 2024. O levantamento ouviu 48 mil profissionais em todo o país. O Painel foi desenvolvido por Alexandre e por Bruno de Lima e Souza, também assessor da presidência do Confea.

Não por acaso, Alexandre também é o responsável pela condução de outra iniciativa inédita, constituída este ano: o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), responsável pelo diagnóstico científico das principais adversidades enfrentadas pela área no país. Nesta terça-feira (3/11), por sinal, o Confea aderiu ao programa Destrava, um acordo de cooperação técnica firmado entre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e diversas entidades para contribuir com a retomada de obras públicas paralisadas. 
 

Ferramentas internas são apresentadas pelo assessor da presidência Alexandre Borsato

 


“Acredito que há uma relação, no sentido de que há uma preocupação da presidência para que o Sistema apresente formas de interferir mais profundamente na realidade da sociedade como um todo. O Infra-BR, por meio desse conjunto de dados sobre a realidade da infraestrutura brasileira. E essa análise que estamos desenvolvendo entre os dados do SIC e do Inep, para contribuir com os estudos sobre ensino fundamental e médio e seus reflexos no ensino superior.  A intenção é compartilhar essas informações para que todos os colegiados do Sistema, além dos profissionais envolvidos com a infraestrutura e com a formação, disponham de instrumentos para incrementar positivamente esses processos”, considera Borsato.

O presidente Vinicius Marchese reforça o papel do Conselho para estes novos olhares da relação entre o Confea e a sociedade. “Estamos utilizando as informações disponíveis, inclusive aquelas conduzidas pelos órgãos educacionais, para que possamos contribuir para, em última instância, fomentar a formação dos nossos futuros profissionais. Assim como incentivamos a inovação na construção de grades curriculares mais identificadas com a atual geração, consideramos ser importante fazer a nossa parte com essa visão mais holística, mesmo que isso seja algo que nunca tenha sido apresentado. Vamos fazer a nossa parte até onde possamos contribuir estrategicamente”. 

 

Presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese: dados em favor da superação do desinteresse na Engenharia para fortalecer a infraestrutura brasileira



A liderança do Confea também incentiva que outros conselhos profissionais possam experimentar essa “ressignificação institucional”. Por meio da nossa atuação integrada, “dessa ressignificação das nossas obrigações institucionais”, diz, “a sociedade poderá compreender ainda mais importância do exercício profissional regulamentado”. Segundo Vinicius Marchese, “essa é a maior importância de estender as nossas contribuições a esses braços sociais, políticos e econômicos, por meio de informações que fazem parte dos nossos bancos de dados e que podem, e devem, ser utilizadas em benefício da sociedade”.

Esses parâmetros poderão, assim, ser utilizados sob novas perspectivas, entende o assessor Borsato. “São processos que se retroalimentam, uma vez que a formação pode contribuir com a mudança das possibilidades hoje apontadas pelo Infra-BR. Mas não só pelo Índice. Ele pode também integrar outros instrumentos internos, tanto dos órgãos da administração direta e indireta, como das próprias entidades que formam a base dos conselhos profissionais. As possibilidades são muitas. Não há como prever o alcance que essas informações possam oferecer à sociedade”.

Registros e vácuos
A análise interna do Sistema de Informações Confea/Crea (SIC) levou a Comissão de Educação e Atribuição Profissional (Ceap) a descrever os principais cursos com profissionais registrados no Sistema. As oito áreas são responsáveis por mais de 80% dos atuais registros profissionais executados pelos Creas e chancelados pelo Confea. São elas:

Engenharia Civil
Agronomia
Engenharia Elétrica
Engenharia Mecânica
Engenharia de Produção
Engenharia Ambiental
Engenharia Química
Engenharia de Controle e Automação

A interação com o SIC é constante, segundo o coordenador da CEAP, eng. civ. Osmar Barros Júnior. “Gosto muito de comentar alguns desses dados nas minhas apresentações. Até porque falo muito com estudantes, então procuro motivá-los colocando esses dados ao lado daqueles disponibilizados pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres). Em relação à prevalência desses cursos, são motivos diversos, assim como para a evasão e para o registro, inferior a 30% dos profissionais que se formam, cujo número chega, no máximo, a 10% dos que iniciam o curso. Temos uma proliferação de títulos e uma pulverização de atribuições”, aponta.
 

 

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Conselheiro federal e coordenador da CEAP, eng. civ. Osmar Barros Júnior: dados para a formação


Osmar considera que a explicação para dados relacionados ao interesse pela profissão e também à evasão dos graduandos não é um fenômeno exclusivamente do país. “Na Sociedade Americana de Engenharia Civil (ASCE, na sigla em inglês) e também em fóruns de educação, verificamos que essas preocupações também estão presentes. E não se pode falar em uma má formação nos Estados Unidos. Mesmo assim, o que se percebe é que lá também existem demandas por profissionais da tecnologia, tanto no setor privado, como no setor público”.

A projeção das Novas Diretrizes Curriculares da Engenharia, desde 2019, apresentou avanços, mas não está sendo suficiente para interferir muito neste cenário, na visão do coordenador da Ceap.  “A visão sobre uso de competências é uma visão moderna, apontando para o saber-fazer (a competência em si) e o ser (a ética, a extensão). No entanto, ela tomou um caráter mais orientativo, em conformidade com a lógica de cada escola, o que acaba privilegiando o profissional pelo título e não pela sua formação básica”, diz Osmar, elogiando o Marco Legal do EAD, Decreto nº 12.456/2025, como instrumento recente para melhorar o nível da formação.

Essas deficiências acabam estimulando vácuos que também são citados pelo assessor da presidência do Confea Alexandre Borsato. Referindo-se ao Painel de Acompanhamento de Profissionais como uma ferramenta interna de amplo alcance social, ele lamenta, por exemplo, a redução no número de matrículas, na ordem de 56%, entre 2010 e 2024. “Além dessa redução das matrículas, temos que considerar ainda que, a cada 100 que entraram, 38 alunos concluíram seus cursos regularmente. Desses, apenas 17 se registraram no Sistema. São ‘gaps’, fragilidades, que acreditamos que colocam a engenharia e a infraestrutura do país em risco”.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea