
Brasília, 24 de março de 2026.
A mobilidade está relacionada ao cotidiano de milhões de brasileiros. Mesmo que poucos parem para pensar nisso, somos levados todos os dias ao trabalho, à escola, à academia e ao lazer, bem como recebemos os diversos insumos que nos mantêm no dia a dia, graças a esta dimensão do Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), tomada como um componente estruturante fundamental do desenvolvimento econômico e social, possibilitando acesso a oportunidades, redução de custos logísticos, ampliação da interação territorial e sustentação das cadeias produtivas. Além da infraestrutura física, são avaliados aspectos de capacidade, eficiência, segurança e integração intermodal.
Assim, o deslocamento de pessoas e o escoamento de cargas norteiam os cinco componentes e os 18 indicadores desta dimensão do Infra-BR:
• Deslocamento intramunicipal: índice de diversidade modal; presença de transporte de alta capacidade; infraestrutura cicloviária e qualidade dos ônibus;
• Aeroportos: capacidade de tráfego aéreo instalada; conectividade da malha aeroportuária e densidade de aeródromos;
• Portos: volume de movimentação portuária; produtividade média de movimentação e tempo médio de espera para atracação;
• Rodovias: qualidade da geometria rodoviária; qualidade das rodovias estaduais; mortalidade por acidentes de transporte e índice de condição da manutenção (ICM) de rodovias federais;
• Escoamento de carga: volume de movimentação hidroviária interior; Tonelada por Quilômetro Útil (TKU) ferroviário; arrecadação por atividade logística (aquaviário, aéreo, ferroviário e rodoviário) e volume transportado via cabotagem.
Conforme o Relatório Metodológico do Infra-BR, esses indicadores foram pautados segundo os princípios da cobertura dos principais modais de transporte; da diferenciação entre oferta de infraestrutura, do desempenho operacional e condições de uso; e da utilização de bases de dados regulares, públicas e comparáveis no nível estadual ou municipal. “As relações entre quantidade e desempenho foram reduzidas, destacando a integração intermodal como principal fator para garantir eficiência”.
Primeiros dados da infraestrutura da mobilidade brasileira
Os muitos desafios representados pelo Infra-BR estão resumidos assim: “Pontes rodoviárias compõem um ativo crítico da infraestrutura de transportes; e embora o Brasil disponha de esforços relevantes de seu inventário e inspeção, hoje é possível saber ‘quantas’ pontes existem em determinados recortes administrativos ou redes concessionárias, mas não há, em escala nacional e comparável, informação consolidada sobre seu estado de conservação, desempenho estrutural, risco associado e adequação da manutenção preventiva e corretiva. O que impede a inclusão desse tema no Infra-BR”.
Nesse sentido, complementa o gestor do termo de colaboração entre o Confea e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), uma das organizações idealizadoras do Índice de Progresso Social (IPS Brasil), que serviu de referência para a construção do Infra-BR, Alexandre Borsato, é imperioso que sejam feitos esforços no sentido de inventariar tanto quantitativamente quanto qualitativamente as Obras de Artes Especiais do país.

A dimensão Mobilidade acumulou 53.84%, uma média inferior à média das seis dimensões que compõem o Infra-BR (56,92%). Apenas o Distrito Federal (75,85%) e os estados do Rio de Janeiro (70,26%); São Paulo (66.43%), Ceará (58,81%), Pernambuco (55,77%) e Sergipe (55,27%) obtiveram uma nota acima deste valor médio. Amapá (33,83%), Rio Grande do Sul (35,26%), Amazonas (36,45%), Mato Grosso (36,61%) e Tocantins (37,90%) encontram-se em situação mais crítica. Os principais componentes em destaque para o Distrito Federal são Deslocamento Intramunicipal (98,49%) e Rodovias (84,47%), ficando com apenas 32,98% em Portos, com maior dificuldade no indicador Volume de movimentação portuária (33,34%). Trata-se do Porto Seco do Distrito Federal, inaugurado em 2004, na região administrativa de Santa Maria. No Amapá, o componente Escoamento de Carga (14,69%) é o principal gargalo, tendo a arrecadação por atividade logística como pior indicador (15,66%). O melhor indicador amapaense desta dimensão é o de Deslocamento Intramunicipal (54,02%).
- Fontes e ponderações relacionadas à dimensão mobilidade do Infra-BR
Entre carros – a combustão, flex, elétricos, híbridos, de aplicativo, por assinatura ou por qualquer outra forma de contratação – ônibus, vans, caminhões, barcos, aviões, motos, ciclomotores – novamente com as mais diversas motorizações e formas de acesso – e claro, bicicletas (com ou sem motores), patinetes, monociclos e scooters elétricos e ainda skates, embora estes últimos tenham uma representatividade menor, o cenário atual da matriz de transportes ainda é marcado pela dependência rodoviária e pela necessidade de sua diversificação.
A pesquisa anual CNT de Rodovias figura como uma das principais fontes sobre a qualidade da malha. Em uma concepção de direito à mobilidade que supera os dados quantitativos, em conformidade com a Política Nacional para a Mobilidade Urbana Sustentável, os ônibus urbanos e as ciclovias também foram incluídos no componente “Deslocamento Intramunicipal”. Há ainda poucas bases para abordar a descarbonização do transporte coletivo. Entre as fontes utilizadas, há documentos municipais; das agências nacionais de Aviação e de Transportes Aquaviários; do DataSUS e ainda do Conselho Nacional de Transporte (CNT).
Entre as ponderações metodológicas apresentadas, o relatório metodológico do Infra-BR considera que:
• a leitura por estado pode superestimar a situação de unidades federativas que concentram hubs e subestimar aquelas que dependem de conexões indiretas;
• a capilaridade territorial do acesso aéreo apresenta forte heterogeneidade regional e tendência de concentração em polos. Recomenda-se que esses indicadores sejam interpretados em conjunto com informações qualitativas sobre a organização das redes aéreas;
• a presença de concessões de infraestrutura introduz heterogeneidade adicional na leitura dos indicadores, uma vez que parte relevante das informações operacionais produzidas pelas concessionárias não se encontra sistematizada em bases públicas abertas, padronizadas e comparáveis em escala nacional;
• hoje é possível saber “quantas” pontes existem em determinados recortes administrativos ou redes concessionadas, mas não há, em escala nacional comparável, informação consolidada sobre seu estado de conservação, desempenho estrutural, risco associado e adequação da manutenção preventiva e corretiva;
• em relação aos portos, a quantidade de ativos não implica, necessariamente, melhor funcionamento do sistema, sendo mais relevante mensurar a capacidade efetiva de operação e sua inserção nas redes logísticas. A ênfase na eficiência, contudo, não capta a vulnerabilidade dos portos às mudanças climáticas;
• o Índice de Diversidade Modal deve ser interpretado com cautela, pois a quantidade e o tipo de categorias registradas variam significativamente entre localidades, e os critérios de classificação dos modais não são plenamente padronizados;
• recomenda-se que a interpretação dos indicadores e comparações considerem a tipologia das cidades (porte populacional, forma urbana e grau de urbanização), evitando leituras que equiparem municípios estruturalmente distintos.
A seguir, confira uma entrevista com um dos especialistas convidados pelo Confea para contribuir com questões relacionadas à mobilidade no Infra-BR, o engenheiro civil João Carlos de Magalhães Gomes.

“O futuro do Brasil na infraestrutura chegou”, afirma o engenheiro civil João Carlos de Magalhães Gomes
Confea – Como o senhor percebe a mobilidade no país e qual sua expectativa em relação ao Infra-BR nesse contexto e em relação às demais áreas da infraestrutura brasileira?
Eng. civ. João Carlos Magalhães Gomes – Na mobilidade hoje, temos um programa de transferência dos processos de transporte público para a iniciativa privada, diante de projetos como o VLT, BRT, trem intercidades, toda a parte do programa de concessão do sistema de transportes. Isso tem a vantagem de tirar do poder público a gestão operacional do sistema. A iniciativa privada busca novas tecnologias, investimentos. Hoje, São Paulo tem os trens intercidades. Na sequência, houve o metrô de Belo Horizonte, temos a privatização dos metrôs de Recife, Maceió, Belém e provavelmente Porto Alegre. Aí vem o programa do governo federal de transformar antigas ferrovias em instrumentos para o transporte ferroviário. Temos hoje grandes programas para a mobilidade. Independente de ideologia, os governos estão vendo que essa transferência é importante, mas é preciso reforçar as agências reguladoras para cumprirem seu papel. O Infra irá monitorar tudo isso. Esses programas precisam ser acompanhados para a gente poder ter sucesso. Estamos com bastante esperança de que o Brasil do Futuro, no que diz respeito à infraestrutura, está acontecendo agora.
Confea – Paradoxalmente, seu otimismo em relação à infraestrutura acontece em um momento em que o interesse pela engenharia tem sido muito questionado...
Eng. civ. João Carlos Magalhães Gomes – A engenharia hoje é uma profissão que tem muitas oportunidades. Temos que convencer os jovens a voltarem para a engenharia. Na Agronomia, temos a maior produção agrícola do mundo, bem como as engenharias decorrentes. O mesmo acontece com a mobilidade urbana. Hoje, a mineração e o agronegócio já têm um lastro consolidado, mas a engenharia urbana também é muito forte. Os dois processos mais avançados com relação às PPPs são nas áreas de saneamento e rodovias. Acredito que até 2040 as metas do marco do saneamento sejam cumpridas. Há muitos prêmios sobre sustentabilidade, qualidade de vida, tanto urbana, quanto da logística de transportes. Então, temos uma oportunidade muito forte. O futuro chegou, é hora de a gente fazer. O Brasil é um país denominado do futuro há muito tempo, mas cheio de gargalos homéricos, no saneamento, na mobilidade urbana, nos portos. Há 15, 20 anos temos um investimento desvinculado do orçamento da União, dos Estados, dos municípios porque o país optou por transferir ativos para iniciativa privada. Para a próxima década, temos R$ 1 trilhão em contratos firmados. O que precisa é a capacidade operacional de fazer projetos e obras, algo que a gente tem bastante, uma engenharia muito forte. O futuro do Brasil na infraestrutura chegou.
Confea – O que o senhor destaca em relação aos dados colhidos pelo Infra-BR? Houve surpresas e constatações?
Eng. civ. João Carlos Magalhães Gomes – Os dados são aqueles obtidos nos vários órgãos de acompanhamento e, tendo em vista que não temos isso muito bem consolidado, poderão sofrer alterações. O importante é um Conselho da importância do Confea agrupá-los e, mais ainda acompanhá-los. Com certeza em breve teremos uma alta assertividade nessas informações. A contribuição do Infra-BR do Confea será de suma importância para a infraestrutura brasileira, pois nos trará um acompanhamento fidedigno de como está se desenvolvendo a nossa infraestrutura. Vale lembrar que nossos gargalos são muitos e, somente apontando-os é que iremos solucioná-los. Parabéns ao Confea pela iniciativa. Pela qualidade do material apresentado e assertividade dos números, será um importante balizador para todos que atuam e se responsabilizam pelo setor.
Confea – Atualmente, o senhor desenvolve um site, o Portal InfraNews, e mantém um grupo com mais de 3.300 participantes no Whatsapp. Fale sobre sua experiência e de como esses dados do Infra-BR irão contribuir com a plataforma.
Eng. civ. João Carlos Magalhães Gomes – Abrimos a empresa Portal Infranews Ltda há um ano, mas já venho fazendo esse trabalho há uns três quatro anos. Com o apoio de uma empresa de marketing, contamos hoje com patrocinadores que, confiantes em nosso trabalho e reconhecendo sua importância, nos ajudam mensalmente na manutenção técnica operacional desse. Todos os participantes podem se manifestar, desde que focados no Brasil da Infraestrutura. O foco é o Brasil da infraestrutura. Assim, já estamos com quatro grupos de WhatsApp, com pessoas interessadas apenas na divulgação da infraestrutura brasileira. Milito há 35 anos nessa área e nos mais diversos setores. Desde estagiário até 20 anos de formado, na Andrade Gutiérrez, depois na Galvão Engenharia, no aeroporto de Viracopos, no metrô de São Paulo, sendo, inclusive, diretor de engenharia da Valec, estatal federal de ferrovias. Desde 2018, atuo na Vellent Engenharia em Infraestrutura como sócio-diretor e agora, também, no Portal infranews. Nesse contexto, a divulgação do Infra-BR no Portal Infranews ajudará a seus participantes no conhecimento detalhado do atual momento da infraestrutura brasileira, baseado em fatos e dados. A contribuição do Infra-BR será de grande valia ao nosso portal na divulgação do Brasil da Infraestrutura.
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
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