Aracaju (SE), 14 de outubro de 2026.

O desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional de cannabis medicinal, da pesquisa genética à fabricação de medicamentos, foi o tema do painel “Cannabis Medicinal: da Genética ao Medicamento – a construção de uma nova cadeia produtiva no Brasil”, realizado na tarde desta quarta-feira (14), durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea).
A gerente da área de Produtos Controlados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a farmacêutica Renata de Morais Souza, apresentou as normas que regulamentam o cultivo da planta para fins de pesquisa e para uso medicinal e farmacêutico. Ela explicou as diferenças entre as Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) nº 1.012/2026 e nº 1.013/2026, que estabelecem requisitos específicos para cada finalidade.
A RDC nº 1.012/2026 regulamenta o cultivo destinado exclusivamente à pesquisa científica. Já a RDC nº 1.013/2026 estabelece condições para o cultivo de variedades com teor de tetrahidrocanabinol (THC) igual ou inferior a 0,3%, destinado a fins medicinais, farmacêuticos ou de pesquisa. As normas definem requisitos para a autorização das atividades, o controle sanitário e a rastreabilidade da produção.

Renata também esclareceu o alcance da Autorização Especial (AE) concedida pela Anvisa para o cultivo destinado à pesquisa. A autorização abrange atividades como estudos de métodos de cultivo, colheita, secagem, estabilização, moagem, acondicionamento, controle de qualidade e caracterização da matéria-prima vegetal. A preparação de produtos acabados, como óleos, extratos, cápsulas e soluções orais, exige autorização compatível com a atividade. Da mesma forma, operações de extração e processamento para obtenção de insumos farmacêuticos ou medicamentos devem estar contempladas na autorização do estabelecimento.
Desafios da pesquisa e da produção agrícola
A pesquisadora e presidente do Comitê de Assessoramento Estratégico em Cannabis da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Beatriz Marti Emygdio, apresentou os principais entraves ao desenvolvimento da cadeia produtiva nacional. Entre eles, destacou a dependência de genética importada, a falta de cultivares adaptadas às condições brasileiras, os desafios fitossanitários, a variabilidade da matéria-prima, a escassez de material propagativo certificado e as lacunas regulatórias e metodológicas.

Segundo a pesquisadora, a introdução de materiais genéticos sem caracterização adequada e a ausência de procedimentos de quarentena podem favorecer a disseminação de vírus. Além disso, fatores como genética, ambiente, nutrição, manejo e colheita influenciam a produção de biomassa e a composição dos canabinoides.
Emygdio também ressaltou a necessidade de ampliar a oferta de sementes e mudas certificadas e integrar pesquisa científica, produção agrícola, registro de cultivares, controle de qualidade e fabricação farmacêutica. A articulação entre essas etapas é fundamental para reduzir a variabilidade da matéria-prima e fortalecer a cadeia produtiva brasileira.
A pesquisadora destacou ainda a complexidade biológica da cannabis, capaz de produzir centenas de compostos bioativos. A composição química da planta varia de acordo com fatores genéticos e ambientais, além das práticas de manejo e dos procedimentos adotados após a colheita. “Essa variabilidade representa um dos principais desafios para a pesquisa científica, especialmente na padronização dos compostos e na obtenção de resultados clínicos reproduzíveis”, explicou. Segundo ela, a padronização é essencial para o desenvolvimento de produtos medicinais seguros, consistentes e com qualidade controlada.
Processamento industrial e zoneamento agroclimático
O consultor da Anvisa e engenheiro agrônomo Sérgio Barbosa Ferreira Rocha abordou o processamento industrial e os requisitos de qualidade da cadeia agroindustrial da cannabis. Segundo ele, a planta tem potencial para a fabricação de mais de 25 mil produtos, com aplicações em setores como alimentação, saúde, construção civil e indústria têxtil.

A versatilidade da matéria-prima, de fonte renovável, amplia as possibilidades de aproveitamento industrial e reforça a importância da padronização e do controle de qualidade em todas as etapas da cadeia produtiva.
Sérgio também destacou o potencial do Brasil para o cultivo da cannabis em diferentes regiões, considerando as condições agroclimáticas. A planta reúne mais de 100 canabinoides, entre eles o THC e o canabidiol (CBD), cujas concentrações podem variar conforme a genética e as condições de cultivo.
De acordo com a apresentação, o zoneamento agroclimático pode contribuir para identificar áreas com potencial produtivo no Nordeste e no Centro-Sul. As diferenças ambientais entre as regiões devem ser consideradas no planejamento do cultivo e na avaliação das características da matéria-prima.
Cânhamo: oportunidades para a engenharia e a agronomia

O gestor ambiental e cientista político Bruno Agnello Pegoraro apresentou o tema “Cânhamo no Brasil: panorama e oportunidades para a engenharia e a agronomia”. A exposição abordou o cenário internacional da produção de cânhamo, com destaque para China, França e Estados Unidos, países com atuação relevante no setor.
Pegoraro ressaltou as possibilidades de utilização do cânhamo na indústria têxtil e em outros segmentos industriais. Segundo os dados apresentados, o mercado de fibras têxteis de cânhamo registra crescimento estimado entre 20% e 25% ao ano. A expansão pode abrir oportunidades para a engenharia e a agronomia, especialmente no desenvolvimento de técnicas de cultivo, beneficiamento e transformação da matéria-prima em produtos industriais.
O painel reuniu a gerente da área de Produtos Controlados da Anvisa, a farmacêutica Renata de Morais Souza; a pesquisadora e presidente do Comitê de Assessoramento Estratégico em Cannabis da Embrapa, Beatriz Marti Emygdio; o gestor ambiental e cientista político Bruno Agnello Pegoraro; e o consultor da Anvisa e engenheiro agrônomo Sérgio Barbosa Ferreira Rocha. A moderação ficou a cargo do superintendente de Agricultura e Pecuária no Paraná do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), eng. agr. Almir Antonio Gnoatto.
Números do mercado
A importação de produtos à base de cannabis medicinal registrou recorde em março de 2026, com 23.199 autorizações, alta de 60,1% em relação ao mesmo mês de 2025, quando foram contabilizadas 14.485 permissões. Os dados foram divulgados pela CNN Brasil, com base em levantamento da Cannect.
O mercado brasileiro de cannabis medicinal também apresenta perspectivas de expansão. Segundo estimativa da consultoria Kaya, o setor pode movimentar R$ 1 bilhão em 2026. A projeção indica o potencial econômico do segmento e reforça a relevância de discutir pesquisa, regulamentação, produção e qualidade no país.
Reportagem: Fernanda Pimentel
Edição: Fernanda Pimentel
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Dbrothers e Sto Rei
